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Encontro Preparatório para os Estados Gerais da psicanálise
Adélia Piquet
Círculo Psicanalítico dia 30/05/2005
Esse encontro consistiu em uma gostosa conversa com Carmén Cardoso que, tomando como ponto de partida o seu texto "Lei e Desejo: Fundamento, Contradição e Desafio da Ordem Humana" (Ago/2001), falou da violência e de muitas formas de transgressão na sociedade hoje.
Carmén passeou com particular desenvoltura entre teoria (conceitos psicanalíticos, leituras e hipóteses sobre o comportamento humano) e realidade da vida contemporânea. Fez conexões que contextualizaram, que deram cada vez mais sentido ao texto e o tornaram ainda mais interessante.
Iniciando a conversa, Carmén revelou em que contexto surgiu esse trabalho. Mais uma vez ela se propôs, através dele, a estabelecer um diálogo interdisciplinar entre psicanalistas e colegas de outras áreas do saber. O escreveu para pessoas que queriam discutir sobre a violência, mais especificamente para oficiais da Polícia Militar de Pernambuco.
Pessoas que se inquietam com a violência que está estampada nos jornais e que resulta, no seu modo de ver, de uma tentativa constante da sociedade estar para além da lei. Carmén apresentou as referências bibliográficas que fundamentaram o texto: Freud em "Psicologia das Massas e Análise do Ego" e em "Mal estar na Civilização", bem como Edgar Morim em "O Paradigma Perdido", que segundo ela é um grande pensador da condição humana e que possibilita um diálogo com a psicanálise.
Tentando seguir a ordem do texto ela abordou a discussão sobre o que faz o homem humano, ser social capaz de construir cultura e civilização e de destruir o que ele mesmo construiu. Na perspectiva psicanalítica é o inconsciente e a linguagem, que o insere no universo simbólico.
A sociedade humana advém de um pacto civilizatório, uma convenção criada pelo próprio homem. Carmén nesse momento retomou o mito do pai da horda primitiva, assassinado pelos filhos o qual fundou a sociedade. A partir do assassinato do pai, seu lugar não será mais ocupado por ninguém, como fora pelo pai, havendo ai uma interdição, um pacto.
É preciso defender-se de si mesmo, do mundo, do outro.
Como o pacto civilizatório é da ordem da cultura, precisa ser lembrado, induzido, estimulado. "Por mais sólido e consistente que pareça o pacto é sempre um processo instável e contraditório, submetido a uma tensão constante face à pressão das forças pulsionais e confrontado pela insubordinação do desejo", diz Carmén no texto.
Foi nesse contexto que ela introduziu no debate a "pulsão de morte", quando fala da natureza dos pactos sociais e na falência deles expressa no mundo intrapsíquico, na família e nas instituições em geral.
A depressão grave, o suicídio e as doenças auto-imunes surgem aí como falência da auto-regulação da pulsão de morte.
Alguns mecanismos foram citados por Carmén para ilustrar a falência no social desses pactos: a fofoca, os mecanismos destrutivos da imagem do outro, as chacinas etc.
O paradoxo que existe com a tendência humana de juntar-se a outros e por outro lado, sua tendência agressiva e destrutiva faz a sociedade organizar-se em torno de valores - o BEM e o MAL e seus desdobramentos - a vida e a morte; o amor e o ódio; a criação e a destruição...
Carmén lembrou que não é por acaso que nas percepções infantis a divisão entre o Bem e o Mal é categorização primária e básica, além de radical. Exemplificou contando que o neto de uma amiga perguntou ao ganhar uma lancheira nova onde havia um desenho: - Vovó, esse é do bem ou do mal? Mostrando que para uma criança não há meio termo na percepção do mundo e das pessoas. Salientando que categorias aparentemente iguais podem ter conotações diferentes conforme a história e o contexto de vida da criança. Mencionou o caso de crianças de uma creche de uma favela que preferiam, no jogo de polícia e ladrão, ser o bandido, pois nesse caso a polícia representa o mal.
No texto Carmén afirma que o homem é um ser de desejo, não se contenta com a satisfação das necessidades instintivas, tem ambições e expectativas , quer o que não tem, aspira o impossível. Ele resiste, interminavelmente ao limite e a finitude.
Ilustrando Carmén falou de mecanismos encontrados em todas as culturas como rituais de orgia, cerimônias coletivas para expiação de culpas e exorcização do mal; são formas de busca socializada do prazer excedente e de proteção contra a morte.
De acordo com o texto toda a vida se movimenta, se organiza e se desestabiliza em torno do duplo eixo "força do desejo e o imperativo da lei", tanto na ordem individual quanto na coletiva. Vários filmes são lembrados por Carmén para retratar as situações onde lei e desejo se confundem.
"A queda" - filme que traz os últimos dias de Hitler - um exemplo de sectarismo.
"De olhos bem abertos" - mostra como comportamentos que, vividos no âmbito privado, seriam vistos como perversos mas que são transgressões permitidas em verdadeiros pactos sociais, nos rituais.
"O Gladiador"...Discussão sobre valores.
A lembrança do filme remeteu a questões atuais na sociedade brasileira no que diz respeito à ética. Todo o escândalo de corrupção, o que dizem os jornais, a miséria dos ricos...
Trazendo novamente o texto Carmén comentou a precariedade de contexto brasileiro no que diz respeito a uma preservação de um pacto social, na medida em que a própria justiça é corrupta. "Preservar a Lei na sua função estruturadora e exercer sua representação de modo legítimo é o desafio maior das instâncias sociais" diz no texto.
Os representantes da lei têm um papel de sustentáculo do pacto social e em nenhum momento podem confundir-se com a Lei. A Lei subordina a todos sem exceção, lembra Carmén.
Novamente um filme foi citado:
"Insônia", como um exemplo de que nenhum grupo pode se regular pelas próprias leis, é sempre necessário um controle externo, como uma corregedoria dos Juizes.
"Para cada sujeito em desenvolvimento são os pais e as instituições que personalizam a ordem maior no qual ele tem que se inserir e em relação à qual vai aprender, ou não, que existe lugar para seus desejos e regulação para seus impulsos desmedidos". É na qualidade dos relacionamentos estabelecidos que a Lei pode ser representada como um valor ou como uma ameaça, produzindo alternativas de subjetividade que levam a caminhos de autodesenvolvimento ou de autodestruição, a opção sociais ou anti-sociais". Foi nesse contexto que Carmén abordou o papel do analista, depositário de sentimentos transferenciais, vinculados a função de representante primário, possibilitador de saída para alguém que sofre, tendo em vista um saber estruturado e um enquadramento específico.
Conclui abordando a Lei e as Instituições Psicanalíticas. Fala das crises nas Instituições, nas formas de reconhecimento, de pertencimento, do poder na psicanálise, etc. Tema que exigiria mais outras tantas horas de conversa.
Assim se encerrou um encontro bastante instigante, um verdadeiro convite a uma busca necessária e urgente de construir significações de entender a nova configuração social e cultural na qual estamos também inseridos, à luz da Psicanálise e de outros campos do saber como a Antropologia e a Sociologia.
PRESENTES:
Ana Beatriz Zuanella Cordeiro
Anna Paola Cosentino Ferreira
Berta Guedes
Clarisse Cavalcanti
Claudia Roberta de Araújo Gomes
Gertrudes Montarroyos
Graciema Lemos
Ivo de Andrade Lima Filho
Maria Adélia Piquet
Maria Anunciada da Fonte
Maria Daniela Gomes
Neide Braga
Rafaella Cursino
Rosane Nascimento
Suzana Silveira
Vinicius Duarte
Apresentação: Carmén Cardoso
Coordenação: Ana Beatriz Zuanella Cordeiro
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