|
Reunião dos Estados Gerais da Psicanálise
Graciema Mª de Albuquerque Lemos
O presente resumo foi elaborado a partir do texto apresentado pelo prof. Jesús Vázquez Torres, com o título: Angústia e desamparo numa perspectiva Heideggeriana, no Circulo Psicanalítico de Pernambuco - CPP, no dia 27.06.05, com finalidade de colaborar com as reuniões do IV Encontro Latino Americano dos Estados Gerais de Psicanálise, a realizar-se em São Paulo, nos dias 4, 5 e 6 de novembro de 2005.
O prof. Jesús inicia sua narrativa nos falando de como se faz uma abordagem analítica existencial, do que é o ser do homem. Assim, ressalta que a obra mais marcante de Heidegger, que, no entanto, permaneceu inacabada, foi Ser e tempo (1927), a qual marca o seu afastamento da fenomenologia de seu mestre Husserl e inicia seu caminho de reflexão sobre o sentido mais profundo da existência humana. Procura, dessa maneira, recuperar a importância fundamental da questão do ser, que na tradição do pensamento moderno dera lugar à problemática do conhecimento e da ciência. Partindo desse princípio, a existência só pôde ser compreendida a partir da análise do Dasein (o ser-aí), do ser humano aberto à compreensão do ser, ou seja, do ser-no-mundo.
Em nível de compreensão, a palavra ontologia é composta de duas outras: onto e logia. Onto deriva-se de dois substantivos gregos ta onta (os bens e as coisas realmente possuídas por alguém) e ta eonta (as coisas realmente existentes). Essas duas palavras derivam-se do verbo ser, que seu feminino do particípio presente é ousia, que, em grego, se diz einai. Em português, ousia é traduzido por essência, por ser traduzida da palavra latina essentia, ou seja, o verbo ser em latim se diz esse. Por isso, é o estudo ou conhecimento da essência das coisas ou do ser real e verdadeiro das coisas.
Nesse contexto, o desamparo, como qualquer outra disposição afetiva, enfatiza o prof. Jesús, tem sua raiz no ser-no-mundo como existencial abrangente do modo de ser do Dasein, isto é, como estrutura ontológica fundamental do homem. Os traços que constituem ontologicamente o "dasein", a pre-sença e o modo de ser exclusivo do humano são o que Heidegger chama "existenciais". Assim, a pre-sença é a clareira do ser, o lugar onde o ente pode vir ao encontro, revelar-se e ser o que é. Enquanto dotado do modo de ser da pre-sença, o homem é um ser voltado para fora (ec-sistência) e esse fora é o ser. Dessa maneira, fica claro que os outros entes são, mas só o homem sabe que é.
Mas, o homem foi chamado à responsabilidade com o ser, que implicou antecipar-se à morte, assumir já a própria mortalidade, a finitude e a culpa metafísica, ou melhor, existir efetivamente como mortal. Esse sentimento floresce, porque o "mundo" apresentava um esvaziamento radical de sentido; nada mais podendo oferecer. Por isso, a angústia faz com que na decadência ou impropriedade, não seja mais possível para pre-sença entender-se a partir do "mundo", do modo do impessoal e da publicidade. Ela remete o homem à sua singularidade, ao seu próprio poder-ser-no-mundo. Assim, a única forma de viver propriamente seria, portanto, diz o prof. Jesús, na época de Ser e tempo, integrar a dor da angústia como disposição "natural". Com isso, tanto a angústia quanto o desamparo traduzem essa dor existencial, mas, assumem sentidos diferentes.
Desta forma, conclui o ilustre professor, dentro do contexto de Ser e Tempo, a angústia expressava a vivência da finitude da morte a do (ser-para-morte) e, ao mesmo tempo, manifestava uma culpa metafísica diante da própria finitude. Daí que, para a pre-sença, querer assumir propriamente, autenticamente, seu ser implicava também querer ser culpada. Ora a mesma finitude, analisada agora desde a diferença ontológica, não provocaria mais angústia e sim um outro tipo de dor, a "dor do umbral", a dor do viver entre o mundo e a coisa desdobrada, a dor do dilaceramento e da separação que des-ampara, como uma espécie de saudade do ser. Ao contrário da angústia, a dor do desamparo não manifesta culpa. O homem não pode mais assumir os destinamentos do ser. Só pode assisti-los, corresponder, aguardar.
Nesse caso, o desamparo aparece, então, simultaneamente como a estrutura ontológica da unidade-separação do homem em relação ao ser e como disposição afetiva, que revela essa mesma estrutura através da "dor do umbral".
Presentes:
Alexandre Pedrosa
Ana Beatriz Zuanella Cordeiro
Gabriela A. Toscano
Gina Correia de Andrade
Graciema Lemos
Marcelo Santos
Maíra Barros Guerra
Maria Anunciada da Fonte
Pedro da Fonseca
Regina Ramos
Suzana Ferreira
Suzano Guimarães
Tânia Monteiro
Palestrante: Jesús Vázquez Torres
Coordenadora: Ana Beatriz Zuanella Cordeiro
|
|