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Esquizogênese Institucional Psicanalítica
Wilson Chebabi
A esquizogênese, cissiparidade ou segmentação é um processo rudimentar de reprodução dos seres vivos. Um organismo unicelular divide-se em duas ou mais células. Característico dessa reprodução da vida é ser assexuada. Cada segmento reconstitui um novo adulto semelhante ao regenerar as partes que ainda lhe faltam. Não são necessários dois seres complementares que se conjuguem para gerar um novo. A reprodução assexuada sucede quando o animal atinge um certo porte. Ela surge naturalmente do crescimento que impede que ele se administre, pois a circulação sanguínea vai ficando cada vez mais difícil. O animal vai ficando com as ações coordenadoras cada vez mais debilitadas. Uma certa zona abriga células diferenciadas morfológica e fisiologicamente, escapando assim da gestão do organismo, sendo colocadas assim num isolamento fisiológico que as torna indiferenciadas.
Já na gametogênese, células germinais são segregadas pelas outras linhas celulares, diferenciando-se no interior de ampolas testiculares ou ovarianos. Circulação de fatores hormonais dão-se, secretados por glândulas endócrinas. Entre os insetos que formam sociedades, como as abelhas, agem os chamados feromônios (substâncias segregadas por animais, que servem de meio de comunicação entre indivíduos da mesma espécie ou são atraentes sexuais). Por esse tipo de influência, a abelha rainha inibe a fecundidade das chamadas obreiras, tornando-as estéreis. Com o desaparecimento da rainha, muitas outras abelhas intumescem e se tornam fecundas. A reprodução sexual é a única nos vertebrados embora esteja também sujeita a contingências como a luz entre os pássaros que influencia a gônada e a gametogênese.
O que teria a ver esta digressão com a vida das instituições humanas? E em que podemos vincular estes fenômenos vitais com as nossas tentativas de convívio? E em que isto interessa aos psicanalistas?
Desde Julho deste ano de 2000, ano em que se reuniram em Paris psicanalistas de muitas nacionalidades e sem comprometimento institucional convencional, estas questões tornaram-se inegáveis. Vejamos o que diz Volnovich , encarregado da resenha dos trabalhos sobre o modo como se tem instituído a psicanálise nesse milênio que está encontrando o seu fim, neste dezembro:
A denúncia do mal estar que produzem as organizações encarregadas de concretizar na realidade a instituição da psicanálise, as dificuldades inerentes à produção de conhecimentos, à transmissão da teoria e à formação de agentes, os obstáculos que impedem imaginar novas formas do exercer do poder, todos estes temas passam por quase todos os trabalhos apresentados.
Seu curto e rico texto, parte do acervo que se está fazendo em São Paulo com Maria Cristina Magalhães, é um libelo contra a esterilidade em que tem caído o nosso esforço de interagir em benefício do que fazemos. Essa esterilidade resulta do triunfo, como mostra Volnovich, pois a "psicanálise é uma disciplina que está sempre em duelo com ela mesma". Morre quando fica congelada em estruturas institucionais fixas. Esse congelamento visa poupar os psicanalistas da dor de praticar um ofício sempre evanescente e que custa o preço de um desamparo incomensurável.
A proposta de convívio entre nós, que teria como aspiração um intercâmbio fecundo, tem se realizado como montagem de estruturas de poder que garantam uma armadura reasseguradora que mitigue a dor da incerteza e da insegurança. É evidente que esse reasseguramento é ilusório e os resultados concretos dessa estratégia tem sido o enorme declínio da idoneidade da nossa profissão.
Como esforço para recuperar a idoneidade têm se reproduzido incessantemente propostas de novas agremiações psicanalíticas não só a partir de membros da IPA como dos membros da Internacional Lacaniana, que por sua vez, já se constituiu como segmentação da Internacional Psychoanalytical Association. E com pequenas diferenças, reproduziu-lhe o modelo.
Também em nosso meio, no Rio de Janeiro, constituiu-se o esforço de um grupo de membros da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro de formar um grupo que se empenhasse em restaurar a idoneidade desse ofício, enfrentando a realidade de terem muitos analistas de tal modo se embriagado de prestígio e de ganância que atropelaram alguns dos princípios éticos fundamentais para toda e qualquer prática clínica. Para nós é evidente que esse "desvio" troca a competência pelo poder e funciona como um recurso de amenizar a experiência de desarrimo lancinante, resultante da sua constante evanescência. Não é por acaso que alguns psicanalistas continuam a empregar métodos psiquiátricos (psicotrópicos, as chamadas terapias convulsivantes e insulínicas) o que lhes garante a submissão do cliente e, portanto um certo controle sobre suas decisões.
De um outro jeito, as estruturas de poder subvencionadas pelos modelos de institucionalização que conhecemos também agem sobre os analisandos - especialmente os que se analisam para se tornar analistas - como a coação psiquiátrica. É isso que constitui o cerne do congelamento a que nos referimos e que tem se reproduzido compulsoriamente em todas os novos organismos institucionais.
Utilizando os conhecimentos biológicos como alegorias, podemos dizer que apesar da sexualidade ocupar, no campo da psicanálise, um lugar central, o modo de reprodução de suas instituições tem sido a reprodução assexuada, isto é, a esquizogenética. A instituição recém-formada não se constitui como um novo ser, com características originais e próprias mesmo que preserve o seu espírito. Em vez disso, forma-se exatamente com aquelas características da instituição de onde ela saiu e com os defeitos que motivaram a controvérsia causadora da cisão. Essas defecções por cissiparidade ocorrem em momentos de pletora do organismo societário, no qual a colaboração tende a ser substituída pela competição, evidentemente para a disputa do mercado. Fracassam os métodos saudáveis e estimulantes de concorrência em nível científico para criar congressos e conclaves de idéias, métodos legítimos de competição e colaboração. Na constituição esquizogenética, cada um se encerra no que já pensa e o convívio se torna entediante. Cada um procura esconder as suas dúvidas e incertezas para não correr o risco de ser considerado incompetente. Constitui-se, pois, necessariamente, uma cisma (do grego skhisma- fenda, cisão, de onde se originam as palavras que começam com esquizo) entre a sua pessoa e o papel que desempenha. Enquanto no discurso explícito dispõe-se a assistir o paciente em seu esforço de libertação de seus recalcamentos, seu desejo é mantê-lo submetido para garantir o poder do analista e da instituição.
Esse poder tem como finalidade evitar avir-se com a diversidade, com o novo, com aquilo que, dolorosamente para todos nós, põe em questão as nossas certezas. A instituição tem sido o certificado que, para nos apaziguar, nos esteriliza, impedindo a gametogênese, vale dizer, a conjugação das diferenças. É isto que Volnovich chama, em seu relatório, manter-se instituinte em vez de se considerar instituído. Diz ele textualmente:
Por que a psicanálise é um modo particular de saber: fracassa quando triunfa e se institui. Quando fracassa, ou seja, quando elude a instituição, triunfa.
Os chamados "Estados Gerais da Psicanálise" têm sido uma tentativa de estabelecer as condições para constituir intercâmbios gametogenéticos entre experiências psicanalíticas diversas, embora complementares e fiéis ao espírito da psicanálise. Entre estas estão, sem a menor dúvida, os trabalhos com casais, famílias, grupos e instituições usando a técnica e o conhecimento psicanalíticos. Recente publicação é o livro de Olga Ruiz Correa "O legado familiar - a tecelagem grupal da transmissão psíquica" que reúne e desenvolve as contribuições de Pichon Rivière, Marie Langer, Abraham e Torok, René Kaës, Anzieu, Bion, Bleger, Bateson, todos alicerçados nas obras de Freud, matriz gametogenética de todas estas gestações.
O poder institucional, para manter o patrulhamento que o sustenta, faz minguar a riqueza das diferenças e procura produzir analistas em série. Indiferenciados, os organismos ficam privados de hormônios e de feromônios. O pensamento fecundo capenga, e o trabalho intelectual limita-se a aplicar as regras e fórmulas estabelecidas. Ora, havia sido justamente esse estado de coisas que engendraram a defecção de um segmento da instituição anterior. Por falta de sexualização, replicam-se os fragmentos carregando os traços indesejáveis do todo anterior.
E então a psicanálise termina, mas ressurge fora das instituições. É assim que permanece infinita. Esse "fora", essa condição de "outsider" , como já na época de Freud a psicanálise se postava, precisa de uma membrana entre o "dentro" e o "fora", portanto é indispensável que haja instituições. São elas as referências para que possa haver divergência. Sem a existência da IPA e tudo que nela tem sido considerado autoritário e imperialista, como o reinado na França do século XVIII, os Estados Gerais não teriam contra o que se contrapor. O que se está tentando desenvolver aqui é a idéia de que há uma contraposição dialética, na qual o pólo contraposto interage com o existente de modo criativo e a contraposição especular, na qual o que se contrapõe acusa o primeiro para tomar o seu lugar e reproduzir o mesmo padrão. A Revolução Francesa, que se levantou com veemência contra as atrocidades da tirania da nobreza, chegou à implantação de práticas equivalentes, de uma crueldade inominável.
O grupo em nosso meio que tentou, com o apoio internacional uma renovação, reproduziu vários dos avatares da sociedade da qual ficou destacada até agora. A primeira tem sido muito beneficiada pelas críticas reiteradas do grupo paralelo o qual não tem conseguido reconhecer mudanças e o intercâmbio que chegou a começar na intermediação de membros da IPA, encarregados dessa função, naufragou fragorosamente. A fórmula adotada convencionalmente sobrepôs-se à tentativa nova que se fez durante quatro anos e mais uma vez recorre-se à reprodução amputadora de formar uma outra (mas não nova) sociedade feita do segmento da primeira, sem uma conjugação fecunda das diferenças. O trabalho que é impedido pelos ressentimentos e pela competição de todos contra todos, é o trabalho de cotejamento entre os discursos e as práticas institucionais para ver se de fato se institui uma nova instituição ou se se reproduz o altamente indesejável da primeira, mudando apenas o sinal e o número do discurso. Isso se tornou tão estereotipado que agora as sociedades do Rio de Janeiro não têm mais nomes próprios que revelem as suas histórias. Agora são números: Rio1, Rio2, Rio3 e a próxima que será a Rio4.
Para tanto se repete a intolerância à crítica leal e desse modo perpetua-se a esterilidade no segmento que se amputou do todo maior. Cada segmento tende a ser um clone do anterior e com isso não desperta nenhuma atração pela nova e alvissareira diferença. Enquanto a força que move a reprodução quantitativa do mesmo é a necessidade sempre insatisfeita de afirmação poderosa, a reprodução sexuada é acionada pela curiosidade da diferença, pelo mistério que o outro sexo encerra.
A esquizogênese produz quantidade indiscriminada. A gametogênese cria novas qualidades. No plano da produção comercial é a diferença entre a indústria, o artesanato e a arte.
O psicanalista, contudo, que se diz empenhado em ajudar o paciente a acolher o "diferente" (différent), isto é aquilo dentro de si mesmo que está "divergindo"(différend) e em conflito com o que espera de si próprio. Pela repetição confirmadora do que já é e sabe, impede a possibilidade de acesso ao novo.
O empenho do analista é propor que o paciente faça o esforço de tentar abrir-se para aspectos seus que não confirmem o que já sabe e a representação que tem de si mesmo. Este é o único meio de vir a livrar-se do sofrimento dos sintomas. Sem nada a ver, ele analista se institui esquizogeneticamente. Cada parte que rompeu com o todo anterior pretende de modo drástico não ter nenhum vínculo com o organismo maior. Para tanto precisa cegar-se para ver como está repetindo, ao modo da compulsão à repetição, a mesma estrutura. Deste modo não se constitui uma autonomia e sim uma mutilação que impede o intercâmbio. Essa mutilação dos vínculos com as próprias origens torna necessariamente cada pessoa sem continuidade com o que foi antes. Renega-se a própria história em lugar de acompanhar o processo evolutivo até chegar ao que se é hoje. Rompendo os laços com o que se foi, estabelece-se uma fissura e não uma emancipação. Neste sentido, o prefixo "esquizo" indica uma fenda e não uma diferenciação de um novo organismo. É por este motivo que se fala de "esquizofrenia", condição diversa da divisão mental, emocional e cognitiva face à experiência humana, sempre ambígua e portanto subvencionadora da dúvida e da incerteza. As instituições esquizogênicas sustentam-se de dogmas inquestionáveis e de certezas obstinadas. Com isso não têm condições de interlocução. Embora especulares, isto é cada uma imagem de espelho da outra, não reconhecem a própria imagem no estanho do vidro. O que vêem é o "estranho no vidro".
Por este viés é que a multiplicação esquizogenética é esquizofrenogênica.
Dezembro de 2000
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