A clínica atual e a produção de novos conceitos

Wilson Chebabi

Toca o telefone na hora em que ficou marcada a sessão. O pa-ciente disse que teve de ir a São Paulo, mas não conseguiu chegar na hora do vôo que permitiria comparecer na hora que havíamos marcado. Solicita outra hora, mais tarde, ou no dia seguinte.

Outro dia, outro paciente avisa pelo celular que está no trânsi-to, que está engarrafado, e não conseguirá chegar senão muito atra-sado. Pergunta se posso esperar. Respondo o quanto de tempo pos-so dispor.

Outro, ainda, na primeira sessão da semana solicita ser aten-dido um outro dia, pois foi designado para uma reunião urgente em seu trabalho e tem o dever de ir.

Uma cliente procura análise em conseqüência dos conflitos in-tensos com uma pessoa anônima com a qual se corresponde por um "Chat" numa sala de conversas sobre sexo. Surgem sentimentos a-gudos e traumáticos dentro de um vínculo que nem sabe se é a mesma pessoa ou se são várias, usando o mesmo pseudônimo.

Em listas de discussões, as pessoas trocam idéias e quando surgem divergências ou estilos não habituais, podem dar-se ressen-timentos e magoas que as levam a deixar a lista ou dela serem ex-pulsas. Tudo isso sem nenhum contato pessoal vivo. O universo "on-line" se amplia e condena as pessoas a manter-se refugiadas em su-as casas.

Propagandas são produzidas com gigantescos efeitos sugestivos pelos jornais, pelas revistas, pelos rádios, cinemas e televisões, assim como em painéis enormes nas estradas e avenidas. Tudo é montado para que algo seja "propagado" e a "propagação" feita pela propaganda visa, fundamentalmente mostrar o "espetacular". Espetacular é sinônimo de "extremo", de "além do natural". É com isso que se procura seduzir consumidores. O ritmo da vida tem de ser veloz e toda atividade tem de ser exacerbada às custas do bem estar pessoal. A violência urbana também é usada como espetáculo e com isso atua de modo desmedido para ganhar fama. Em São Paulo, como reporta Muniz Sodré, um jovem dispara com uma metralhadora, a esmo dentro de um cinema que exibia um filme violento, matando três pessoas e atinge muitas outras e escolheu a metralhadora porque "ia dar mais impacto na mídia". Quer isto dizer que o assassinato em si não tem nenhuma importância, só serve par "distrair" o público e "encenar um novo tipo de espaço público cuja forma principal é o espetáculo" (Muniz Sodré)1 para manter o silêncio das massas que só se manifestam por sondagens da opinião pública, pelas quais fica a opinião pública devidamente pasteurizada.

A mídia "administra por imagens e números" (M.S.) a semânti-ca e a sintaxe do desejo no refúgio de suas casas e com isso ficando ausente das cenas comunitárias de manifestação popular. O con-sumo de tudo que a mídia oferece serve, pois à demissão do e-xercício da cidadania.

E como isso tudo se relaciona com a demanda que caracteriza a clínica psicanalítica de hoje?

Já no pós-guerra houve uma tendência, formulada especialmente por Adorno e Marcuse, a falar de uma ruína da autonomia individual. As instâncias sociais de controle, que no momento funcionam através da mídia, ficam encarregadas de substituir interação subjetiva entre as demandas pulsionais e o princípio da realidade. O indivíduo vai sendo pilotado de fora de modo tão imediato e irresistível que não se poderia mais falar da aquisição de forças do Eu mediadas pelo trabalho de elaboração dos conflitos íntimos. O incremento da individualidade dá-se por uma reprodução interna da identidade própria. Aumenta-se o número de cópias da identidade já existente atuando em diversos papéis. "Cresço" porque desdobro o meu desempenho indo a São Paulo, à academia de ginástica, sendo síndico do meu edifício, freqüentando a turma da praia e do vôlei, estando sempre na roda de chope, nas colunas sociais e até mesmo indo ao meu analista. Os diversos papéis ficam sendo como que diversas identidades tornando-me um sujeito "múltiplo". A necessidade do ideal de um sujeito múltiplo engendra a concepção de uma "personalidade pós-moderna" que não precisa mais configurar um indivíduo autônomo, isto é com a sua vida própria privada, e adaptado à sociedade. Sua auto-estima não se cultiva mais pelo empenho de compatibilização e consonância consigo mesmo e sim pelo desempenho bem sucedido nas diversas relações sociais compulsórias. A crescente informatização aciona de modo ainda mais rígido de atrofia da subjetividade individual para tornar-se peça de uma "inteligência" produzida pela rede. Esta é a proposta de Pierre Lévy em seu último livro instigado pelo otimismo de supor que a transformação tecnológica acionaria uma revolução social para que a humanidade esteja numa "conexão planetária" através da qual todos os signos humanos se poderão combinar para constituir um tecido único, multicolorido e interconectado de culturas humanas.

Estamos em face de uma nova utopia totalitária de direita e que procura armar cada vez mais fortemente o capitalismo feroz em que vivemos. A compulsão a afirmar-se atendendo aos diversos pa-péis no desempenho social responde à demanda de tornar cada in-divíduo "ferramenta" do poder. Para tanto, a afirmação de cada indi-víduo fica na dependência direta do seu desempenho em cada uma das funções que realiza sem entrosamento entre elas.

Constitui-se assim a necessidade de uma "pluralização intrap-síquica dos sujeitos" (Honneth). Procurar um analista, em muitos ca-sos é, sobretudo desempenhar um desses papéis. Desse modo, es-pecialmente no Brasil, procurar análise tornou-se uma busca de inse-rir-se no sistema para adquirir o papel de psicanalista. A prática psi-canalítica tendeu a virar uma espécie de "agência de empregos" na medida em que sua meta passou a ser a de inserção na atividade profissional. Com isso a clientela assim enviesada sustentou algum tempo a prática dos psicanalistas mais experientes. Não quer dizer que o desejo de ser também psicanalista seja em si uma deforma-ção. A deformação se dá justamente pelo viés de alcançar o "status" e não estar internamente em contacto íntimo consigo mesmo.

Foi este aspecto, em consonância com a tendência à chamada "personalidade pós-moderna" e à "pluralização intrapsíquica do sujei-to", que procurei estudar no trabalho "Esquizogênese institucional psicanalítica", que está na rede dos "Encontros Brasileiros de Psica-nálise".

O que considero importante agora é estudar como do ponto de vista da vida anímica pessoal dá-se esse aumento quantitativo dos papéis que viram identidades parciais por segmentação de uma clonagem da função geral atribuída a cada um de nós pela escala de valores da mídia reinante. Nessa identidade clonada da e pela mídia, o empenho fundamental é manter-se anestesiado das dores e angústias que são inerentes à condição humana. Estas estão sem-pre vinculadas ao próprio suceder do tempo. O tempo, como o deus "Cronos" devora os seus filhos e, portanto faz necessariamente tudo e todos "passarem" e se tornarem em passado. Como seres sujeitos às diversas "passagens" somos movidos à tarefa penosa de coveiros daqueles que não temos mais e daquilo que não somos mais. A clo-nagem de uma identidade estereotipada visa justamente enviesar essa dor. Volnovich mostra em seu trabalho recente2 que "lo efímero renovable descarta el pasado y abomina del futuro. Al abolir la pérdida por la sustitución, faltan la nostalgia y el reencuentro. La memoria se evapora, el duelo no existe."3

O processo de esquizogênese na identidade de cada um de nós garante, pois, o bálsamo do esquecimento. Isto, contudo às cus-tas de mantermos como matriz de nós mesmos uma identidade des-cartável. Nisto consiste o êxito mundial e irreversível do consumo de drogas. Estas se tornam tão mais convenientes quanto mais conse-guem conservar os dados da lembrança com registro e anestesiam os sentimentos a ela vinculados. O modo como funciona a memória do ponto de vista dos registros que são armazenados no espírito, em sua concretude cerebral pode ser elucidado por sua similitude com o funcionamento dos programas informáticos de coleta de dados. A memória, em sendo a propriedade de conservar e de restituir infor-mações, não é exclusiva do ser humano. Este a partilha com os or-ganismos vivos e com certas máquinas, que nos dias de hoje estão substituindo a nossa organização pessoal de planejamento de inte-resses e compromissos. A analogia pode ter sido frutífera, especial-mente no estudo dos códigos, das estruturas e dos mecanismos de estocagem, mas não dá conta dos aspectos afetivos e sociais. O que as drogas propiciam é precisamente é a estocagem do registro das lembranças sem suas implicações afetivas e sociais. Não é por aca-so que o uso de drogas conduz a uma frieza e um descaso com a sociabilidade do convívio quotidiano que abalam tanto a família. Isto conduz à conclusão que há uma estreita relação entre a mídia e sua ferramenta mais eficaz que é a informatização e o sucesso das dro-gas.

Vivemos num tempo em que o ideal de normalidade é funcio-nar de modo maquinal e de maneira informatizada. Os sentimentos e a prática da cidadania não desapareceram, pois ressurgem nas res-sacas colossais do dia seguinte. O luto, que havia se evaporado pela recordação neutralizada, retorna com a violência de tudo que fica su-focado.

Em consonância estrita com o que Heidegger5 já pontuava em sua advertência para que se tenha consciência dos riscos da tecno-cracia, Volnovich6 mostra como se desregulam as distâncias-tempo e como isso constrói a subjetividade na época atual. "A velocidade ex-tremada extermina o espaço" e todos precisamos de espaço para e-xercer nossa liberdade. Com respeito ao nosso relacionamento com a televisão, diz Volnovich: "el zapping aparece allí como síntoma, transacción, solución de compromiso que da lugar a ambos polos del conflicto: ni corta y pone fin a la mutua posesión de la imagen, ni se entrega a ella permaneciendo en un solo canal. Control remoto en mano, con la velocidad del cambio de canales se produce una edición de imágenes, montaje de sonidos, argumentos de factura estrictamente original y personal."

É interessante ressaltar no texto de Volnovich a noção de "mú-tua possessão da imagem" a qual, em função da nossa ambição de poder possuí-la, ficamos por ela apropriados. É nessa ganância de apropriação que muitos clientes nos procuram na atualidade. E o fa-zem, com freqüência, do mesmo modo como praticam o "zapping" na já centena de canais de televisão. Muniz Sodré aponta que a progra-mação de uma tevê é uma seqüência ou conjunto de seqüências al-ternativas de acontecimentos que se tornam disponíveis para o espec-tador numa única dimensão e numa única operação". Isto favorece a ilusão de que finalmente o telespectador vai encontrar o canal no qual está passando o que ele deseja: a imagem de si mesmo idealizado. Essa é também a procura que muitos pacientes levam a cabo: o ana-lista terá de agir como espelho para imperar o seu si-mesmo.7

Nisto consiste a aversão pós-moderna à gametogênese, que implica necessariamente na conjugação das diferenças. Propagam-se as formações de outros grupos de analistas para analisar analistas ou pretendentes a analistas para que impere o que Muniz chamou de sócio-narcisismo. E a clientela leiga que sofre tem ficado abandona-da e sem esperança. Disso fala também Volnovich quando termina o seu trabalho dizendo que "guiados pelo profundo desprezo por esse mundo em que estamos vivendo, possamos confiar que outro mundo é possível."

Outro aspecto significativo a ser considerado é a enorme influ-ência das interações através da internet nos assim chamados "chats" na maneira das pessoas interagirem. A anonímia de ambos os "inte-rescribas" permite que cada um imagine o outro à sua imagem e se-melhança e quando algo surge que surpreende ou desilude, pondo, portanto em questão a verdade da fantasia que excitava e estimulava o intercâmbio, simplesmente pode sair da chamada "sala virtual" e passar para outra. O mesmo se passa nos rituais "funks" e nas práti-cas sexuais em que as pessoas não se conhecem e somente se dis-põem a "ficar" com a outra.

Com isso aplasta-se a experiência que sob o ímpeto da veloci-dade perde a terceira dimensão e as nuances da paisagem. Há todo um empenho em restaurar o contacto com os detalhes da experiên-cia das paisagens pela moda atual de andar a pé com o objetivo de preservar a saúde e de retardar o envelhecimento. Mas é também, sem dúvida, uma busca de ultrapassar o tédio que se acumula no beco sem saída da narcisista repetição da imagem de si mesmo, fa-zendo do espaço não um território habitável, mas um compartimento feito de paredes espelhadas. É isto que constitui a esquizogênese.

Finalmente é preciso pensar na questão da proposta "produção de novos conceitos". Já se acha na rede dos Encontros o trabalho de Maria Lúcia Pilla que procurou novidades conceituais no pensamento de Maria Beatriz Breves Ramos sobre a transferência. Esta autora foi procurar, como de resto fez Freud a vida toda, na física, na biologia e na arte, os novos fundamentos para a prática psicanalítica.

Esta não é a nossa tentativa e sim a de descobrir nos concei-tos freudianos tudo aquilo que foi elidido em favor de uma uniformi-zação ratificada pela tradução inglesa de sua obra. Seus trabalhos nunca se limitaram ao estudo de um "funcionamento psíquico". São generosas as suas concepções sobre o social e não omitem as críti-cas inegáveis ao modo como a sociedade humana tem se constituí-do.

O que pode haver de novo no modo como se concebe a prática psicanalítica nos dias de hoje é poder libertar a psicanálise em seu procedimento técnico da compulsão a reduzir todas as vivências e associações do paciente à realidade interna. Os modelos que os pacientes empregam na transferência não são frutos exclusivos de sua fantasia e de sua interioridade. "Cada um de nós é portador, em parte à revelia, das estruturas, das normas, dos valores das organizações nas quais vive."8 O que precisa ser trabalhado é a maneira como essa realidade social é utilizada. Ela não pode deixar de ser interiorizada. Mas isso pode acontecer por introjeção, ou por incorporação. Na introjeção sucede todo um processamento subjetivo, incluindo a modulação sentimental que permite um enriquecimento da personalidade e uma aceitação não conivente nem acrítica dessa realidade. Este tipo de aceitação tornou-se possível pela elaboração dos aspectos persecutórios resultantes exatamente do especular narcisista que reúne fascínio e repulsa pelo "espetacular" da realidade externa em pauta. A faceta que é elaborada para haver essa introjeção enriquecedora é justamente a que quer se dar por "incorporação".

O que a análise permite, quando analista e analisando se dis-põem a esse trabalho penoso e demorado, é como que acionar pos-sibilidades de gametogênese nas relações do sujeito consigo mes-mo, com a família, com as instituições e com a sociedade, respei-tando a diferença e empenhando-se em contribuir para a criação de um sistema mais favorável no qual haja lugar mais flexível para o ser humano na rede em que estamos todos envolvidos. Para tanto não pode ser omitida a necessidade de pensar as famílias, as institui-ções e a sociedade utilizando as jóias de conhecimento que a psica-nálise traz e utilizando o conhecimento da cultura em sua influência no modo como cada indivíduo e cada instituição processa os seus problemas.

4/4/2001


1 - Sociedade Mídia e Violência, livro ainda não publicado.
2 - Sujeito Contemporâneo ; Sujeito neo-liberal? - Foro Social Mundial.
3 - Citado por ele de Paul Virilio: La inseguridad del território.
4 - Heidegger começa o seu artigo sobre "A coisa" dizendo, na tradução de Carneiro Leão: Todo distancia-mento no tempo e todo afastamento no espaço estão encolhendo.
5 - Obra já citada.
6 - Muniz Sodré - obra citada.
7 - Rouchy- Análise da Instituição e Mudança. Revue de Psychothérapie psychanalytique de Groupe - 32.