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Dorian Gray e o pavor frente ao envelhecimento
Exercitando um olhar baseado em alguns conceitos da psicanálise

Ruth G. da C. Lopes

Resumo
O presente artigo se propõe a uma reflexão sobre o envelhecimento a partir da análise do personagem central de uma obra literária. A constituição do personagem e o seu círculo de convivência, servirão de base para analogias com o modelo social contemporâneo na maneira de lidar com esta etapa da vida. Leituras baseadas em autores de embasamento teórico psicanalítico estarão fundamentando este estudo.

Palavras-Chave: Dorian Gray, envelhecimento, narcisismo

The current article has a purpose for reflection about aging from the analysis of literary work's central character. The character's composition and his/her circle of intimacy will serve as guideline to analogies with the contemporary social model in the way to deal with this stage of life. Readings based on authors of psychoanalitical theoretic foundation will be rationalizing this study.

Key-words: Dorian Gray, aging, narcissism

CRONOS
Não é o tempo que voa.
Sou eu que vou devagar.


(Helena Kolody; Poesia Mínima)
Este artigo tem por objetivo apreender, a partir do romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wide, a inscrição do social no sujeito, através da questão do desejo. Ao estudar a dinâmica psíquica do personagem central desta obra prima, busco a aproximação com alguns dos sentidos da velhice na sociedade contemporânea.

Ao revisarmos a biografia do autor chama atenção como sua vida e obra se justapõem. Em 1891, publicou o romance que é objeto dessa análise. A esta época, conheceu Lord Alfred Douglas, um jovem de 22 anos, com quem viria a ter um desastroso caso amoroso. O pai de Bosie, como era conhecido, participou de um movimento de difamação de Wilde, escritor já célebre, levando-o a condenação máxima por crimes de natureza sexual: dois anos de prisão com trabalhos forçados.

Cabe ressaltar que o modelo de sociedade já continha, no período, valores atualmente bastante conhecidos: ênfase na singularidade, distinção pessoal e defesa do prazer.

Ao colocar-se polemicamente frente ao amor, aos papéis familiares, às maneiras de convívio social e ao que pertence a esfera pública e à privada, Wilde envolve o leitor no debate. Não cabe aprofundar, aqui, a análise entre o extremo individualismo e a instituição da propriedade privada, mas esse pano de fundo é essencial para a compreensão da subjetividade socialmente constituída e o impasse que engendra. Até que ponto o indivíduo fica imune de experimentar a sensação de ambigüidade entre ser uno e ao mesmo tempo anônimo?

Vamos dar início à tessitura dessa delicada rede, para tentar apreender as especificidades de seus entrelaçamentos.

A Construção Psíquica

Freud, ao delinear a localização do Édipo sinaliza para há uma história singular vivenciada pelo indivíduo que lhe permite a inserção no social.

As autoras citadas acima, reafirmam que as determinações de dada época, penetram até os redutos mais íntimos da subjetividade, historizando o corpo e a sexualidade. Assim sendo, cada momento sócio-histórico define certos modos predominantes de relação com o próprio corpo e com o corpo do outro. O imaginário social modela e se expressa através dos corpos. Ao mesmo tempo, a relação com a corporeidade, assim como os modos de amar, são percebidos como naturais e imodificáveis.

O fato de o ser humano ser marcado por uma incompletude fundamental lança-o à procura.

A mãe e os adultos que cercam a criança de cuidados dão, através da linguagem, sentido às suas necessidades; ao preencher esse vazio através do falo - que tem função simbólica - organiza as relações entre os sexos.

Num primeiro momento, a criança é o falo da mãe; a entrada do pai (inicialmente através do discurso da mãe), priva a criança do objeto do seu desejo e a mãe do objeto fálico. Segundo esta explicação lacaniana, o pai ao limitar o poder da mãe junto à criança, passa a ser o representante da lei, mas não o falo em si. Portanto, podemos dizer que o falo está para além da pessoa singular, circulando entre estas três instâncias: mãe-criança-pai.

A experiência de ser constituída como uma entidade separada, permite à criança representar-se a si mesma: num primeiro momento, era o ideal da mãe, enquanto perfeição narcísica, num segundo momento, o pai passa a fazer parte do ideal de perfeição, enquanto uma representação.

Através da aquisição da linguagem (ao ser separada da mãe pela proibição paterna), a criança constitui-se como sujeito, tomando consciência de si mesma como entidade distinta, passando a ser introduzida na Cultura.

Podemos concluir que o inconsciente que habita o sujeito é singular e atravessado pelos códigos da cultura.

Apresentando o Personagem

Em que contexto surge Dorian Gray?

Voltemos um pouco na história para nos aproximarmos melhor dessa tragédia pessoal.

O recém-nascido Dorian Gray surge na tragédia e vem ocupar o lugar do ódio que não pode ser nomeado. Bleichmar (1987), afirma que o não dito sobre o indivíduo, ou o dito sobre um terceiro, é, às vezes, mais importante na constituição de sua identidade. O personagem aqui analisado passa a encarnar a ambiguidade: ser tão belo quanto a mãe e ao mesmo tempo cruel como a interdição infligida à figura paterna.

À sua beleza encrava-se um total desconhecimento de si; assim como Narciso, não poderá se enxergar, pois corre o risco de sucumbir. Frente ao pavor de perder a única coisa que o fazia reconhecido pelos outros (a beleza), Dorian Gray faz um pacto macabro com a sua imagem retratada por um artista embevecido com a perfeição dos seus traços. Mais tarde voltaremos a este pacto, mas examinemos um pouco mais detalhadamente o que lhe diz Lord Henry, amigo e mentor, sobre como se sair bem na sociedade local:

Esquecer as raízes passou a ser uma questão de sobrevivência; o desapego permite qualquer tipo de tramóia; afinal, se não se está realmente ligado a ninguém nada se trai. Em tom alto, define o que é prazer:

Dorian ama aquilo que o faz sentir-se amado.

A vida dos outros lhe é indiferente e os vínculos validam valores preconizados pela cultura do narcisismo, implicando em compromissos escassos e sem obrigações. Passa a estabelecer relações meramente complementares e não se furta de destruí-las quando se sente frustrado nas suas intenções. Chama especialmente a atenção a crueldade com que acaba com as figuras femininas que não lhe permitem alcançar o objetivo da plenitude. Será que nesse gesto reproduz a mãe morta em plena juventude?

Num ambiente onde a sociabilidade está pautada na superficialidade das relações, a valorização daquele que se mantém jovem parece gozar de maior reconhecimento.

É nos termos acima que se expressa seu amigo e mentor intelectual sobre o pagamento das dívidas de dinheiro.

Passa a encarnar um ideal dos outros:

Aqui, salta aos olhos a intensa convivência com homens que o veneram, como se necessitasse estar numa sala de múltiplos espelhos onde só se vê na procura do amor/olhar da mãe.

Cabe salientar aqui o fértil terreno que o nosso personagem encontra no sentido de reconstituir o passado no presente. O dandismo proclama a modernidade absoluta da beleza, transformando-a num bem universal e assim, a moda passa a consumir-lhe tempo e dinheiro. Mas rapidamente, o vestir-se bem, ter maneiras particulares e influenciar a vida mundana passam a ser entediantes. Precisa de experiências cada vez mais fortes, que o afastem da angustia. Vivenciando-as, através mesmo da posse, promove a ilusão da plenitude imutável: a incorporação substitui a elaboração. Por meio desta estratégia dilui-se o temor do futuro.

De brinquedo dos outros passa, rapidamente, a brinquedo mortífero, como num filme de terror, o mesmo terror que vivenciou: abandonado por uma mãe inconsolável com a perda do amado e criado por um avô que prefere ver a filha morta a compartilhá-la.

O horror dos sinais da passagem do tempo fazem com que expresse o desejo de estancar as marcas da vida em seu rosto, transferindo para a pintura, ou seja, para um outro, o desespero frente ao estado de impotência estrutural.

Entretanto, Dorian acaba aprisionado pela cisão que estabelece como padrão da sua vida. O quadro que refletia o seu belo corpo, agora revela a sua alma. Passa a ter que viver entrincheirado, receando ser capturado na mentira e a ter que praticar maldades cada vez mais graves. É como se, mirando-se na própria imagem, ficasse aprisionado pelo que vê, tal como Narciso.

E mais adiante:

Mas o que será que a velhice lhe revela, que é tão insuportável? Seria o limite da onipotência infantil? Expor o quadro significa escancarar essa ferida narcísica impossível de ser tocada por um sofredor como Dorian Gray. E o que lhe é insuportável fica fora.

À medida que se esconde, resguardando o que o quadro denunciava, torna-se mais cruel e indiferente ao sofrimento alheio.

O que é espantoso é que Dorian não causa nenhum estranhamento, nem incômodo, nem dúvida no seu entorno. Interessante como se dá a construção de um cidadão acima de qualquer suspeita. Que cumplicidade é essa que encontra no olhar dos outros? O que ninguém quer ver de si? Em que querem acreditar? Num sonho? Corromper e ser corrompido faz parte do jogo. A composição da tessitura é complexa e o autor sugere um final que é trágico, por um lado, e incólume, por outro. O Narciso sobrevive e o seu séquito é eliminado para que não restem testemunhas. Um prazer mórbido envolve a própria apreciação dos contrastes:

Os meios para atingir os fins passam a não ser questionados. O mal passa a ser um elemento necessário para atingir a beleza.

A pergunta que se coloca é: que jogo auto-punitivo e ao mesmo tempo prazeroso Dorian estabelecia com o quadro?

O conflito faz parte da existência humana, sendo constitutivo do desenvolvimento psíquico. Narcisimo e agressividade fazem parte do mesmo sistema, na medida que produz-se uma tensão quando o sujeito vê seu próprio corpo na imagem do outro. O controle da onipotência se produz entre o desejo e a lei. Dorian Gray não conta nem na infância, nem na vida adulta, com o olhar impeditivo; ao contrário, aninhou-se onde lhe reafirmassem que ele permanecia sendo o Rei, o mais lindo de todos.

Comentários

Cabe indagar agora como a análise do personagem Dorian Gray nos ajuda para a compreensão do envelhecimento contemporâneo. No universo desse personagem, alguns ideais são especialmente prezados. Dentre eles,

- a abolição do conflito em prol do êxito e da eficácia
- o descompromisso para com laços e limitações, edificando o homem pragmático
- a busca de fama e do poder

Comentários"El protótipo podrá optar también por mostrarse casi indiferente ante su vida y la de los otros; atenuará sentimientos solidários, ai tiempo que podrá permanecer casi insensible ante la muerte misma. Ligero y desapasionado, mostrará una actitud despreocupada ente el riesgo y la posibilidad misma de perder la vida. En cuanto a las relaciones humanas que estabelezca, las nuevas discursividades pregonan y validan un vinculo a su vez leve, que implique escasos compromisos y obligaciones. Esto supone una desinvestidura parcial, que da lugar a lazos distantes en los que el outro se toma facilmente intercambiable; mercancia incluída en la lógica misma del consumo." (Rojas.M. C.e Stembach, S.:1994:133) Estas características levam ao hedonismo e ao individualismo, ou seja, ao predomínio de formas narcisistas; sua dimensão erótica se reflete no investimento na beleza e na valorização do prazer vital.

Como será que o culto de Narciso se recoloca nos tempos atuais? Para quais objetos o afeto é transportado? Qual conflito perdura ? Qual é a medida, própria dos tempos atuais?

Freud, em "O mal-estar na civilização" (1969), busca explicar as derivações das necessidades humanas frente às sensações decorrentes da experiência primitiva de desamparo do bebê.

Dorian Gray usava e abusava da arte e das substâncias tóxicas, mas os derivados voltados para a construção social pareciam não ter eco, nem nos seus conteúdos particulares nem no seu ambiente social. Mesmo os primeiros não se completavam como possibilidades de deslocamento da libido: a dependência é o mito da liberdade paradoxalmente escravizante. Toda cultura exige, para sua sobrevivência, o sacrifício das exigências pulsionais, impondo um montante de insatisfações que entram em conflito com as promessas de felicidade feitas pelas diferentes propostas históricas. Portanto, não há épocas que não produzam sofrimento; ele é intrínseco à cultura.

Na tarefa de evitar o sofrimento, inerente ao homem e seus relacionamentos,que coloca a obtenção do prazer em segundo plano, alguns métodos são usados:

O afastamento do sofrimento caminha ao lado da procura de uma satisfação inalcançável. Assim, mal-estar e desejo caminham juntos, num movimento contínuo e sem fim. Cada época produz formas específicas de mal-estar, mas na obra de Oscar Wilde encontramos os mesmos fios que tecem a construção do fundo do painel em que vivemos. O incômodo frente aos sinais do envelhecimento se colocam como um desespero frente ao incontrolável: a fínitude.

Com que perfídia Gray sujeitava quem se encantava/seduzia por ele?

Em um ambiente que tinha como valor supremo ausência de trabalho, a possibilidade de retirada de satisfação por esse meio fica socialmente impedida.

A aposentadoria (quando alcançável!) nos coloca em patamar semelhante.Um direito induzido a ser visto como sobrecarga por aqueles que estão na ativa, passa a ser vivenciado como culpa; esvazia-se a possibilidade de retirar prazer do trabalho ou do reconhecimento da atividade realizada no passado.

Dorian Gray corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade.

Atualmente o desespero pelo consumo de qualquer proposta que evite ou postergue os sinais tão temidos da passagem do tempo pelo corpo são consumidos avidamente como uma poção mágica.

Mas o que chama a atenção é a conivência social na partilha desse delírio; é a cumplicidade entre o personagem principal e seu ambiente. Nesse sentido, todos são cúmplices: o grupo se preserva, escoando a hostilidade contra 'aqueles' que considera intrusos.

Os sinais da velhice são vistos como de responsabilidade única e total do indivíduo, retirando os demais do processo. O velho é transformado em uma pintura que deve ser evitada, como o retrato de Dorian Gray.

A felicidade da vida, ao ser predominantemente procurada na fruição da beleza, oferece pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, já que é transitória. Mas vejamos aonde estão as suas raízes:

Retomo aqui a abordagem inicial deste texto, voltando aos componentes individuais e coletivos das possibilidades de descobrir a felicidade humana.

O homem predominantemente narcisista buscará suas satisfações em seus processos mentais internos. O choque que se dará diz respeito ao sofrimento oriundo da constatação do poder superior da natureza e da fragilidade dos nossos próprios corpos.

Mas a felicidade é algo essencialmente subjetivo no jogo de proteger os homens contra a natureza e de ajustá-lo aos seus relacionamentos mútuos. A civilização exige a renúncia/privação da satisfação em prol da construção social. Essa será a eterna queixa contra ela e o pressuposto da necessidade de controlar a manifestação dos impulsos agressivos. Pode-se administrar uma boa representação de si, já em idade precoce, só que na velhice será difícil não cair na crise propiciada pela crença na decrepitude e inutilidade atribuídos à idade avançada.

Se no mundo competitivo o êxito implica na adesão a modelos calcados no encantamento Narcísico, administrar o confronto com a finitude propiciador da reconstituiçao de registros primitivos se toma um tormento inafiançável.

Apreendidas a partir das diferentes atividades que desenvolvo junto aos idosos, o que vejo é uma busca pelos seus iguais para enfrentar o desafio de continuarem senhores dos seus desejos.
Bibliografia
Bleichmar, H. O Narcisimo. Estudo sobre a enunciação e a gramática inconsciente Artes Médicas, Porto Alegre, 2a edição, 1987
Garcia-Roza,L.A. "O sujeito e o eu" in Freud e o inconsciente. Zahar, RJ, 196-229, 1998. Freud, S "O mal-estar na civilização" in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Imago, RJ, 75-171,1969.
Rojas, M.C. e Stembach, S. "Capítulo I: Cultura y subjetividad: Un desencuentro fündante
in Entre dos Siglos. Una lectura psicoanalítica de Ia posmodemidad. Lugar Editorial S. A, Buenos Aire, 1994
Wilde.O O retrato de Dorian Gray, Imago, RJ, 1993.