Por uma Comunidade Psicanalítica Internacional

Glaucia Dunley

(texto apresentado no primeiro Encontro no Rio de Janeiro em torno dos Estados Gerais, realizado em 11/12 de setembro de 2000)

Ao considerar os Estados Gerais da Psicanálise, realizados em Paris em Julho último, como algo da ordem de um Acontecimento para a psicanálise, pretendo começar a elaborá-lo como repetição e diferença no contexto de um teatro trágico do inconsciente.

Trata-se,a meu ver, de um encontro-Acontecimento que se inscreve como repetição de uma dupla deposição violenta e cruel : um parricídio e um regídio. Na sua diferença, considero que o que foi deposto nestes Estados Gerais tenha sido a soberania do saber psicanalítico, ou seja o saber psicanalítico como Um e , por conseguinte, a derrocada de qualquer efeito imaginário de que este saber fosse detido por um, ou por alguns. Abrem-se com isso alguns ou muitos caminhos possíveis ; entre eles, o de se estabelecerem livremente as formas de agregação de uma Comunidade Psicanalítica Internacional, plural, capaz de uma prática política livre do jugo das sociedades de psicanálise.

Voltando à tripla deposição, lembro Derrida em sua conferência ao afirmar que não há Estados Gerais sem teatro e que este teatro encena uma certa crueldade, assemelhando-se a um primeiro teatro da crueldade, ao qual os próprios Estados Gerais da Psicanálise resistiriam de forma auto-imunitária.Isto é,resistiriam em reconhecer como próprios os seus desejos ou tentações"parregicidas" especulares e espetaculares.

Foi então na tensão entre querer e não querer o assassinato do pai, a cabeça do rei , e o expurgo de um saber totalitário ou soberano da psicanálise, ou seja, na dimensão trágica desta divisão, que se pode talvez falar em uma catarse (citada ontem aqui na primeira noite deste Encontro no Rio) durante os Estados Gerais.Evidentemente não se trata de uma catarse no sentido da purificação ou purgação de uma falta moral ou religiosa (que é o sentido trágico mais comum) e muito menos o de uma catarse como simples descarga de afetos reprimidos no silenciamento dos psicanalistas instituídos ou isolados, mas no sentido da catarse como representação rigorosa no plano cênico de como funciona a praxis, a ação política em torno de uma falta (faute ) ou transgressão, que é a ação que a tragédia põe em cena.Neste sentido , a peça encenada no (anfi-) teatro da Sorbonne colocou em evidência a transgressão efetuada pelos atores-psicanalistas que, na esteira de Freud ,nosso Oidipous-Tyrannos,teriam desejado tornar soberano (divino ou royal) o saber psicanalítico, assim como encenou a sua reversão. Surge então a idéia de que a política é a tragédia dos psicanalistas, pois é a cena onde os psicanalistas se dão como espetáculo, expondo as contradições e os paradoxos entre o saber psicanalítico e a sua prática.

Qual então o pathos implícito nesta cena política que foram os Estados Gerais? Crueldade, tirania, soberania, vassalagem, horror , na tensão com o desejo novo de resistir a isto através de um caminho que poderá construir uma nova praxis. Derrida nos diz que a soberania e a crueldade resistiram à psicanálise e a psicanálise resiste a elas. Gostaria de colocar um "na medida em que". Ou seja ,a soberania e a crueldade resistem à psicanálise na medida em que a psicanálise resiste a elas. E no que consiste este resistir da psicanálise (a elas) ? Estaria ele relacionado à resistência dos psicanalistas em reconhecer, analisando, o desejo soberano e cruel do analista presente nas transmissões de qualquer ordem e no convívio entre psicanalistas ?

Saber que a pulsão de domínio ou de apoderamento, a soberania e a crueldade são expressões da pulsão de morte e ,portanto, indestrutíveis como princípios ou tendências , não quer dizer que os psicanalistas não possam agir à contra-corrente deste gozo e pautar sua ação política de modo que estas incidências sejam diminuidas por"meios indiretos",como diz Freud em "Por que a guerra". Por meios indiretos Freud está fazendo referência ao antagonismo passível de ser exercido por Eros , e que estaria presente inclusive no poder de uma Comunidade diante da qual as forças pulsionais destrutivas ficariam enfraquecidas... "Quando os menbros de um grupo reconhecem esta comunidade de interesses, aparece entre eles vínculos afetivos, sentimentos gregários que constituem o verdadeiro fundamento do seu poder...As leis ou princípios desta associação determinam em que medida cada um de seus membros há de renunciar à liberdade pessoal de exercer violentamente sua força para que seja possível uma vida em comum."Possível e prazerosa !

A oportunidade que hoje se nos apresenta é a de efetuar a passagem de um estado de direito natural, familiar, feroz e que rege na maioria das vezes as relações de poder dentro das instituições, mas às vezes também fora delas, para um direito ético-político onde o poder se configura como poder de uma Comunidade Psicanalítica Internacional, espraiando-se pelos seus formatos nacional, regional, local.

No seu desejo de fazer o luto dos generais da banda, dos pretensamente detentores de um saber soberano sobre a psicanálise, que imaginariamente lhes daria o direito de destituir narcísicamente o outro, de achincalhar, e usar uma série de sutis e cruéis maneiras de aniquilar e torturar simbólicamente o seu semelhante psicanalista, os Estados Gerais da Psicanálise da Psicanálise relançam o empreendimento freudiano naquilo em que ele é um empreendimento rico e generoso ao dar aos homens instrumentos para tentar diminuir a sua miséria erótica.

Para instituídos, isolados e desolados da psicanálise lembro ainda que, além dos benefícios diretos de uma tal associação ( como o prazer da autonomia, por exemplo, e a livre troca de idéias), esta servirá também para, através do exercício de uma "cidadania psicanalítica"(que , paradoxalmente, parece se fazer via uma internacionalização),ajudar a levantar o jugo do poder a que se submetem os psicanalistas instituidos e não instituidos (como por exemplo, no caso do poder transferencial que se quer soberano).

Rio de Janeiro.12 de Setembro de 2000

Glaucia Dunley
glauciadunley@aol.com