Deglutindo Freud

Cristiana Facchinetti

O interesse central do meu trabalho girou em torno dos modos de inserção da psicanálise no Brasil através dos discursos que a sustentaram. Por que a preocupação com a psicanálise no Brasil, i.e, por que a preocupação com a questão local?

Através de minha pesquisa de doutoramento, foi se tornando claro que o discurso universalista na psicanálise do país funcionou, como propõe Roberto Schwarz, como um discurso fora-de-lugar, que promoveu uma ruptura com as questões locais e sua singularidade e manteve o país alienado no Outro europeu. Para que se chegue ao universal, é preciso um mergulho anterior na questão local, de modo a permitir o embate de forças entre a cultura e o novo discurso por ela apropriado: a deglutição. Sem este embate acabamos por ficar na posição denunciada por Oswald de Andrade:

    "Aristóteles de arco e flecha: falando tupi, mas raciocinando à européia"(...) "os conservadores do Brasil querem o gibão moral, a colonização do europeu arrogante e idiota e no meio disso tudo o Guarani de Alencar dançando a valsa".
Para investigar as raízes desse modo de "baixa antropofagia"(onde ao invés de deglutir e transformar, somos engolidos pelo Outro), busquei desde o século XIX o discurso que abriu espaço para a entrada da psicanálise no Brasil.

O que importa aqui ressaltar é que o século XIX foi marcado pela interpretação da realidade local na busca de se construir a nacionalidade. Tal construção foi pautada pelo projeto de modernidade europeu e pela consideração de que para viabilizar uma pátria civilizada, capaz de ordem e progresso, seria necessário extirpar a cultura indígena, negra e mestiça, intimamente relacionadas à natureza, ao instinto, à barbárie e à sexualidade excessiva. Assim, o pensamento hegemônico ao fim do século era de que seria possível a evolução da civilização desde que se retirassem os obstáculos do caminho pela via da pedagogia e da ortopedia de costumes. A mestiçagem, resultante da sexualidade desenfreada - que apesar dos esforços higienistas aumentava, passava a ser vista como a síntese de forças divergentes, a concretização dos obstáculos para a evolução da nação. Era preciso salvar este povo de si mesmo.

Na chegada do século XX, a este obstáculo aliaram-se as perdas de referências causadas pela modernização e urbanização das cidades. Em busca de uma solução, que desse credibilidade ao projeto de nação, surgiu uma rachadura que acabou por se constituir numa divisão do discurso.

De um lado, permaneceram os que pretendiam dar credibilidade ao projeto civilizatório, tal como o século XIX o pensara. É com esse intuito que se fortaleceu a proposta higienista que se fez marcar, daí em diante, como uma proposta intimamente associada à eugenia. A solução encontrada foi, portanto, a do embranquecimento paulatino da raça, e a da purgação pela ortopedia dos costumes.

De outro, surgiu um contraponto crítico à europeização e à modernização do país a qualquer preço, que acabou por desaguar no movimento modernista, movimento de amplo espectro que ultrapassou as fronteiras da arte e invadiu os campos do pensamento social.

Chegamos à segunda década do século XX, quando a psicanálise teve a primeira difusão pela cultura. A psicanálise difundiu-se, portanto, como instrumento para servir de anteparo às duas pontas do discurso: para fortalecer a visão crítica e para justificar a imposição de ordem para o progresso. Promovem-se, portanto, duas leituras bastante distintas da psicanálise e há um claro embate pela hegemonia discursiva.

Se tiver tempo, gostaria de mostrar alguns exemplos, que retirei de fontes primárias da época, da leitura distinta que os mesmos textos freudianos propiciaram. De qualquer forma, vale aqui ressaltar que é esse movimento de ruptura que influenciará modernistas como Lima Barreto, Oswald e Mário, na literatura, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre no que está se constituindo como sociologia e, por fim, na primeira sociedade psicanalítica, fundada em 1927 por um grupo multidisciplinar - psiquiatras, literatos, juristas, educadores, pintores, médicos, filósofos - que buscava uma leitura para o país pautada pela psicanálise rompida com as questões trazidas do século XIX.

Mas na década de 1930, com a entrada do Estado Novo e do Integralismo, o discurso universalista volta a ganhar força. A sociedade psicanalítica foi fechada pela mudança de rumos que o primeiro grupo foi tomando. Prevaleceu o interesse pela higiene mental e pela ação social comprometida com a adaptação e ortopedia. É nesse contexto que o grupo liderado por Durval Marcondes partiu em busca da IPA, da oficialidade e do tecnicismo.

Neste movimento constituiu-se uma desautorização do pensamento local e uma aproximação ao discurso médico, que como sabemos com Foucault, é extremamente rígido e moralista, estando intimamente associado à repressão da sexualidade e à submissão à razão. Cresceu a ideologia da seriedade e do trabalho com a entrada do novo modelo de ideal: o norte-americano. O elemento subversivo da psicanálise foi banido; a psicanálise que chegara causando escândalo e estranhamento, subvertendo códigos nas experimentações de linguagem modernistas, foi incorporada por esse discurso conservador, acrítico e repressivo. Submetida a um tratamento globalizante, cujos conceitos e práticas passaram a ser considerados como verdadeiros e únicos, a psicanálise brasileira passou a gerar um discurso divorciado das questões nacionais.

O modelo de psicanálise que passou a ser considerado pela história oficial da psicanálise como o da entrada e da fixação da psicanálise no país é, portanto um recorte que interessa ao modelo que se pretendeu fazer vigorar a partir de então. Tal modelo é hierarquizado, especialista, de incorporação colonizada, marcado por critérios de territorialidade e afiliação - signos de pertencimento. As teorias foram sacralizadas e os discursos perderam a mobilidade que o embate oferecera.

Prevaleceu para a institucionalização da psicanálise nos anos de 1940 o modelo cujos ideais foram demarcados ainda no século XIX. Vale ainda dizer, que em minha pesquisa, encontrei vários trechos de autores de décadas posteriores que apenas confirmam a manutenção deste modelo para as instituições psicanalíticas do país através das décadas que seguiram. Importa assim ressaltar que, por detrás da proposta freudiana, lacanaiana, kleiniana, bioniana, ou qualquer outra, importa menos o discurso aparente que este outro, de base, que lhe serve de alicerce.

Finalmente, gostaria ainda de dizer que quando afirmo que o discurso tomado como legítimo pela psicanálise no país foi universalista, não desconsidero a singularidade e a criação eventualmente presentes na prática da psicanálise hoje; há o jeitinho, há a anarquia nos costumes. O que há de novo, entretanto, não serve para levar movimento à psicanálise porque é visto como erro, mantendo-se às escuras, correndo à boca pequena. Não é levado ao debate, às discussões e à troca com os outros. Permanece aí a crença em uma psicanálise tomada como um discurso único, verdadeiro e último que se presta perfeitamente à repetição do mesmo, à uma leitura sagrada da escritura do Pai.