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Insignificante da Feminilidade
Mirian Giannella
Resumo
Pequena reflexão sobre os erros de tradução na história da psicanálise e seu percurso na abordagem da feminilidade. A tradução de Strachey para repúdio à feminilidade de três diferentes termos de Freud pode não passar de um erro de tradução, assim como um erro de tradução constrói a noção de insignificante da feminilidade. O aberto. Homens e mulheres, somos igualmente remetidos ao não-saber pela polissemia da língua e a um gozo fálico em posição de objeto causa do desejo do Outro, o que constitui uma fantasia inconsciente que se trata de desarticular. A mulher não existe porque não se pode vê-la? Não tem representação? É o que nos faz ficar aí na borda tentando preencher com saber o vazio que nunca se preenche? Não vamos nos livrar fácil de Lacan com as feministas e nem das feministas com Lacan.
Palavras-chave: mulher, feminilidade, Lacan, feministas.
Résumé
Petite réflexion à propos des erreurs de traduction dans l’histoire de la psychanalyse et de leurs parcours dans l’approche de la féminité. La traduction de Strachey par refus du féminin de trois différents termes de Freud peut n’être qu’une erreur de traduction, ainsi qu’une erreur de traduction construit cette notion d’insignifiant de la féminité. Et si quelques uns ont trouvé cette erreur à la traduction du livre de Pommier, Exceção Feminina, je voudrais bien connaître les commentaires et travaux. L’ouvert. Hommes et femmes, nous sommes également renvoyés au non-savoir par la polissemie de la langue et à une jouissance phallique en position d’objet du désir de l’Autre, ce qui constitue une fantaisie inconsciente qu’il s’agit de désarticuler. Est-ce que la femme n’existe pas parce qu’on ne peut pas la voir ? N’a-t-elle pas de représentation ? C’est ce qui nous fait rester là aux bords essayant de remplir avec le savoir le vide que ne se remplit jamais ? Nous n’allons pas nous délivrer facilement de Lacan par les féministes et ni des féministes par Lacan.
Mots-clés: femme, féminité, Lacan, féministes.
Resumen
Una reflexión sobre los errores de traducción en la histoira del psycoanalisis y sus trajectos en el enfoque de la femeneidad. La traducción de Strachey por "rechazo de lo femenino" de tres terminos diferentes de Freud, puede ser solamente un error de traducción, asi que un error de traducción construye la noción de insignificante de lo femenino. Y si algunos han encontrado este error en la traducción del libro de Pommier "Exceção Feminina", yo quisiera conocer los comentarios y los trabajos. Lo abierto. Hombres y mujeres somos igualmente enviados al non saber por la polysemia de la lengua et a un goce falico en posicion de objeto del deseo del Otro, lo que constituye un fantasme inconsciente que se trata de desarticular. La mujer no existe porque no se la puede ver? No hay representación de la mujer? Nos hace ésto quedar en el borde tratando de llenar con el saber el vacio que no se llena jamas? No vamos a liberarnos facilmente de Lacan por las feministas, ni de las feministas por Lacan.
Palabras claves: mujer, femeneidad, Lacan, feministas.
Um erro de tradução encontrado no livro de Gérard Pommier, A Exceção Feminina, viria reatualizar a praga rogada sobre as mulheres pela psicanálise? Repúdio tornou-se palavra recorrente nas discussões para expressar o relacionamento entre psicanálise e feminismo. O repúdio à feminilidade pode não passar de um erro de tradução, um pesadelo em língua inglesa, como Rachel Bowlby interpreta ao examinar a tradução de Strachey de três diferentes termos de Freud do alemão para repúdio em inglês, tradução que esteve limitando os destinos da psicanálise, da feminilidade e do feminismo, desde então.
Assim também, a edição brasileira do livro de Pommier vem cifrar a chegada de uma abordagem da abertura que propõe a ausência de um significante da feminilidade, pela intervenção de uma tradutora “poderosa”, uma feminista talvez, pois acrescentando apenas duas letras retira toda a importância do significante ou da ausência dele, e o transforma em insignificante. Viria este ato colocar a feminilidade, a tradução, a psicanálise, Lacan, Pommier, nós todos na sua devida insignificância? Vêem como o tradutor pode ter poder?
“A ausência de um significante próprio à feminilidade”, na frase já bastante enigmática de Pommier, virou “a ausência de um insignificante próprio à feminilidade...” na edição da Zahar, no início da p. 36. Conceito que Pommier tentava ecoar dizendo que “coloca uma questão que não dispensa resposta, se é que se pode chamar de resposta ao que vai do vazio à falta, da causa do desejo à encarnação do falo. Da ostentação das insígnias da feminilidade ao mistério do corpo, a falta de identificação feminina encontra sa parade” no original, foi traduzido por auge, eu traduziria mais por demonstração “em dois lugares que escapam à linguagem. O primeiro responde ao desejo do homem, ao seu gozo onde, na sua relação perversa com o falo, nega sua própria castração. Mas o segundo vai mais longe, pois o ser do falo assim encarnado se perde num gozo Outro, ao qual o homem permanece estranho.”
Catherine Alcouloumbré (http://pro.wanadoo.fr/espace-freud/), contatada através da lista de discussão Freud-Lacan, fez a gentileza de me enviar por e-mail esses dois parágrafos do original e o máximo da invenção na tradução ocorre no parágrafo seguinte:
“Le phallus ne signifie nullement qu’il n’y a qu’une seule relation au sexe” que posso traduzir por: O falo não significa de modo algum que haja apenas uma relação ao sexo, no livro da Zahar está: “O falo não significa de modo algum que só hoje haja uma relação com o sexo.” O hoje foi por conta de quem? E o in do significante? Com que intenção? Isto não ficamos sabendo. Corte no sentido, abertura de outros sentidos.
A Zahar não respondeu à minha demanda de esclarecimento, e se outros encontraram estes e outros erros, gostaria de conhecer os comentários, trabalhos e o que foi possível fazer em relação ao livro. Gérard Pommier acabou me enviando o livro em francês, em uma segunda edição aumentada de 2 capítulos finais, que retomarei antes de terminar, por fazerem laço com a atualidade.
Os outros sentidos que ressoaram para mim poderiam se expressar assim:
Primeiramente, a insignificância da tradução, de fato, os erros acontecem, são inevitáveis, como uma das possibilidades: omissão de frase, de parágrafo, de palavra fazem parte. Mas, acrescentar é mais difícil! E não foi todo significante tornado insignificante, foi apenas um na tentativa de passar despercebido. Tudo tende a mostrar que houve intenção de erro, brincadeirinha que demonstra o desejo de alguém que tendo se implicado com os significantes transcritos, e chego a supor uma recusa da aceitação do significante como podendo nos dizer algo, conota com este ato a linguagem lacaniana com o estigma do falocentrismo. Estaria recusando a aceitar o falo como o significante primordial para ambos os sexos? Estaria dizendo com isso que a ligação falo-pênis incomoda? Que falo deveria ser um significante neutro, que apenas dissesse da falta que nos impele a falar, como tentam pensar algumas feministas?
Estaria a tradutora, Dulce Duque Estrada, que é psicanalista membro do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro e traduz grande parte dos livros da Zahar, reivindicando seu estatuto de co-autora, assumindo uma posição ativa de quem sabe que interfere no texto, e utilizando-se de seu poder para inverter a mensagem, num mínimo gesto, subverter o sentido tentando indicar a insignificância de toda linguagem que tenta apreender o inapreensível? Estaria ela tentando subverter a posição da mulher no discurso masculino? Torna insignificante a elaboração sobre a abertura para o feminino que o autor tentava desdobrar, assim como nosso esforço em apreendê-lo. Pensaria ela como muitos que o esforço de apreender essa linguagem hermética não vale a pena? Olho a página que contém os nomes dos que participaram na produção editorial e há muitos envolvidos, pode ser qualquer um deles, mas sobre a tradutora recairá a culpa.
A insignificância dos significantes de Lacan assombra. Lembrou-me a pergunta que me foi feita por um amigo: “Você ainda é lacaniana?” Depois de eu ter-lhe dito que traduzia para uma lacaniana, ele disse: “Eu não vou ficar papagaiando os significantes de Lacan se ninguém quer saber.” E foi estudar filosofia. Enquanto tradutora não traduzo apenas psicanálise lacaniana, nem apenas psicanálise. Creio que cada um tem um aporte e pode ter o seu lugar. A linguagem de Bion me parece bem mais difícil. Não creio que devemos nos fechar nos idioletos: Qual é o leitor almejado? Esta pergunta deveria nos guiar.
Este erro de tradução pode também nos remeter à insignificância das mulheres. Elas, porque são castradas, nunca saberão nada, parecem pensar muitos homens, são nossos objetos de gozo, numa versão ainda atual do despotismo masculino. Elas não contaram por muito tempo, agora tentam se contar histórias, escrever uma nova história, quando não vêm com suas próprias histórias, as histórias erradas, porque não são as histórias deles!?
Pode fazer-nos apreender a insignificância da feminilidade, da ausência de um significante, de um traço que lhe garantiria o pertencimento à classe das mulheres e que a deixa assim desesperada atrás de uma determinação e na insegurança de não ter uma posição garantida além da objetal.
Para explicar a frase de Pommier, vários textos vieram contribuir. Os textos lacanianos convergem para este ponto de ausência de garantia de algo que defina a feminilidade, que, conforme articula Marie Christine Laznik, se apoiaria numa imagem externa associada a uma voz, a voz do espelho da madrasta da Branca de Neve: “Você é a mais linda de todas as mulheres, você é a única.”
Nossa relação com a falta de pênis na mãe é marca para homens e mulheres, é o ponto cego, o que não se pode ver. Há interdição do olhar enquanto é nele que nos situamos. A mulher então não existe porque não se pode vê-la? Não tem representação? É o que nos faz ficar aí na borda tentando preencher com o saber o vazio que nunca se preenche? A mulher não existe, mas as mulheres, uma mulher, na sua singularidade existe. Não há traço específico da feminilidade, mas especificidade da privação do traço. Ela não está toda na castração, não está toda no ser o falo, e haveria abertura para um gozo Outro que se trataria de definir mas que escapa à linguagem.
Quero abordar esta noção de não-todo, que é um outro nome da castração, através de uma vivência recente. Ao revisar o escaneamento e fazer uma atualização ortográfica para a reedição da História da Cia. de Jesus no Brasil do Padre Serafim Leite, livro magnífico com dez volumes de cartas e pesquisa histórica em português arcaico, espanhol, francês, inglês, onde o texto estava entre aspas não se devia mexer, mas atualizar o discurso de Serafim Leite na ortografia dos anos 50. Vimo-nos face à Bahia com h e Baía sem h. O outro revisor, que estava em posição de tudo saber, queria dar um comando substituir todas as Bahias com h. Eu insisti que não se podia facilitar: Nem toda Baía é com h. Havia também a Cidade da Baía, outro nome da cidade de São Salvador às margens da Baía de Todos os Santos.
A brecha para eu me colocar foi abrir um buraco no saber todo, fechado, colocando o não-toda, tem exceção. Ninguém sabe tudo, na maioria das vezes é uma questão de opção. As palavras têm diferentes sentidos conforme o contexto em que se encontram. Esta é a nova base para o tradutor na pós-modernidade.
Colocar a diferença, assim podemos dizer que nem todas as feministas são obtusas, nem todos os lacanianos são arrogantes, nem todos os muçulmanos são terroristas. Tem exceção e cada um na sua singularidade deveria ter lugar no discurso.
Na constituição do sujeito enquanto imagem de um objeto que viria tapar a falta no Outro são os significantes do amor, dos ideais da mãe que vem suportar e fixar uma imagem falicizada, idealizada, completada pelo olhar dela.
No percurso da menina, a identificação com o pai acontece numa cena fantasmática, na qual o pai vem ocultar, encobrir, vem ao lugar da falta na mãe e a menina se identifica com esse pai então, ponto cego que vem obturar a falta. A menina vem com o corpo ao lugar do falo, nesta identificação, e entra no domínio do fingir ser, do simular, do dissimular, do seduzir, pois o falo só está lá porque é velado, esta é a mascarada feminina, a de envolver o corpo em véus, se maquiar, ocultar a falta.
Há uma passagem a ser feita e a menopausa é uma grande oportunidade, momento em que o falo cai, a estrutura montada encima da beleza fálica, da maternidade deve ser desinvestida para ganhar movimento e poder fazer novos investimentos. Assumir-se enquanto sujeito singular implica fazer o luto dos ideais da mãe, deixar de ser fiel à imagem fixada pelo desejo dela, pelo seu amor. Ao reconhecer que a mãe não dá o gozo feminino, sai-se da posição de não poder receber nada do que tem para dar, e passa-se a poder receber o que o homem, os outros podem dar. Para o tradutor, até o transcritor, é saber que as palavras não dizem tudo, há algo além delas, por mais que tente, nem a transcrição é cópia fiel, inventa-se um bocado, parágrafos, pontuações tanto a escuta como a leitura implicam mal entendido, ele pode escolher de que maneira vai interferir e colocar as questões em jogo por saber que tornar o texto legível na língua de chegada faz adaptá-lo ao código usual.
Marie Christine Laznik ao explicar as fórmulas da sexuação em certo momento de sua vídeo conferência em Curitiba, diz assim: “Enquanto o homem está desenhado como sujeito, $, imaginem quando as feministas americanas descobrirem que a mulher não aparece como sujeito nas fórmulas da sexuação! Já que elas têm horror ao Freud, nem sei o que vão fazer com Lacan!” Já fizeram, vêm fazendo. Nem todas têm horror a Freud e a Lacan, e muitas procuram como avançar. Ela ignora, como a maioria dos psicanalistas, o movimento feminista que através de Althusser foram remetidas a Lacan, pois este tinha algo a dizer sobre sexualidade feminina, debateram e escreveram de forma bastante aprofundada os impasses colocados no livro Between Feminism & psychoanalysis, de 1989.
O contato com a literatura feminista me vem da experiência que tive em Paris, de 1978 a 1982, ao lado de Regina Prado, que traduzia Clarice Lispector para o francês, supervisionada por Hélène Cixous. Pude acompanhar algumas aulas de Hélène, em Vincennes, e pareceu-me que utiliza Lacan e a psicanálise para seus próprios fins; da mesma forma Rosemary Arrojo, nos Estudos da Tradução na pós-modernidade, na Unicamp, em 97, vem desconstruir o tradutor fiel, partindo de Derrida e voando rápido para os Estados Unidos e os Estudos Culturais e de Gênero. Em alguns lugares, a entrada da psicanálise na universidade se deu através dos departamentos de literatura.
O trajeto que fiz na desconstrução do tradutor, em linhas gerais, compreenderia as seguintes passagens: Exige-se fidelidade do tradutor, mas o sujeito é fiel a quê? Ao autor, ao editor, ao crítico de tradução? Em última instância, ao seu desejo. Análise da posição do tradutor como uma posição feminina, servil, desvalorizada, aquele que faz trabalho braçal mal pago e até não pago. Na análise de textos, a abordagem, herdeira de Marx, Nietsche e Freud, vem castrar o autor, o texto original e a tradução. Todo discurso é determinado histórica, política, geográfica, ideológica e inconscientemente. Quem assina o texto é a orelha do leitor, sua leitura sempre particular.
É necessário conceber o fetichismo na passagem que transforma o objeto fóbico em objeto fetiche para compreender a noção de ponto cego, na tentativa de captar o desejo do autor. Trata-se de situar o objeto do seu desejo, o falo para ele, o que não pode ver, como tenta encobrir a falta de sobreposição perfeita das línguas, o que defende e assim desconstrui-lo. Quer passar despercebido se está identificado com a sombra do pai fiel ao desejo da mãe, a um suposto texto original no caso do tradutor, ou se assume como sujeito do seu discurso e das suas intervenções e torna isto explícito no texto. Não tentar escamotear a agressividade com neutralidade impossível, a morte do autor e do texto original são necessários para o tradutor traduzir. Levar a crítica em consideração para defender a sua leitura e a sua interpretação. E o texto nada mais será do que uma articulação bem construída.
Foi quando soube que havia tradutoras feministas canadenses usando de seu poder para subverter os discursos masculinos, e também quando comecei a ler o livro que tem o título em português, muito bem sacado, sugerido por Lisa Jardine na sua conferência, apostando que daria vida nova ao Movimento de Liberação das Mulheres: Para Além do Falo, uma crítica a Lacan do ponto de vista da mulher, em tradução de alguém não familiarizado com os conceitos da psicanálise - só que desse não fui atrás do original. é de difícil abordagem e creio que muito dessa dificuldade se deve à tradução. Mas também porque não é superficialmente que abordam a questão. Trata-se de uma compilação de artigos de várias feministas, algumas psicanalistas, tendo por base uma série de quinze seminários realizados na Universidade de Cambridge, no King’s College e na Faculdade de Ciências Sociais e Políticas, em 1987, organizados por Teresa Brennan, que estudou na Clínica Tavistock e tem um livro chamado History after Lacan não ainda traduzido para o português. Há feministas que aderiram a teoria lacaniana e defendem Lacan, outras usam dele para afirmar suas convicções.
Um dos questionamentos do livro Para Além do Falo é a necessidade de se repensar as associações fixas, Teresa elabora, na introdução, como idéias se fixam e porque os clichês e estereótipos mal ajustados, as oposições anglo-americano e francês, essencialista e não essencialista que ajudaram a impulsionar os debates, passam a constituir problema quando diluem as diferenças e conduzem à estagnação em relação a certos pontos capitais.
Teresa Brennan situa os impasses da discussão visando a maneira de superá-los no debate entre psicanálise e feminismo. As questões são: “o estatuto do “simbólico” lacaniano, a diferença e o conhecimento sexuais, a influência do essencialismo sobre a política feminista e a relação entre a realidade psíquica e o social. Se tivesse, a tese seria de que a reflexão sobre estas questões atingiu um impasse por terem sido ignorados os contextos político ou psicanalítico, a problemática política e a psicanalítica foram embaralhadas na escritura feminista. Diz que a psicanálise é uma entidade inteiramente política, a questão sendo de contexto e ênfase. A ênfase nos processos psíquicos necessita ser levada em consideração, antes que uma crítica política possa ser elaborada plenamente, antes que a política possa figurar de modo produtivo, levando em conta as questões psíquicas, em vez de fechar os olhos a elas.
Mais adiante, situa as divisões no movimento em termos geográficos, as francesas pensam as mulheres como diferentes, as anglo-americanas como iguais. As britânicas, em especial, Juliet Mitchell defendem Lacan e Freud. As francesas, Irigaray e, principalmente, Hélène Cixous têm tentado achar caminhos para contornar a dominância fálica implicada na lei do “simbólico” de Lacan. Nos Estados Unidos, o projeto granjeou mais simpatia e tem se desdobrado criativamente.
A teoria de Lacan não contempla só a ordem patriarcal da língua, cobre também a organização psíquica, o simbólico como organizador das relações humanas, fora da lei simbólica, o custo de desistir do simbólico é a psicose. Mitchell e Julia Kristeva partilham este ponto. Para esta última, a teoria de Lacan conta para muitas coisas, mas não todas. A constatação da valorização do masculino na sociedade e do elo entre a diferença sexual e a dominância fálica vai ser elaborado. Este vínculo parece mais duro de romper.
O falo é a marca da falta e da diferença, em particular, da diferença sexual. Como marca da falta, refere-se ao fato de que o sujeito não é completo. Como marca da diferença, o falo está ligado ao logos, ao princípio de que o reconhecimento da diferença é condição para a lógica e para a linguagem. O pensamento enquanto tal exige a diferença. A diferença sexual é crucial para que se possa falar e pensar. O reconhecimento visual da diferença sexual liga a experiência heterogênea do corpo sensível, sensorial, à estrutura diferencial da linguagem; a linguagem que lhe permite nomear a diferença.
Ao ligar o corpo a este processo de reflexão, confiamos na representação visual da diferença sexual. O vínculo entre falo e pênis insiste e persiste. As feministas, influenciadas por Lacan, enfatizaram que ambos os sexos podem ocupar o lugar masculino e feminino; estes se alternam e se deslocam, nenhum deles contém o falo.
A idéia de que o falo é representado pelo pênis implica que os homens são mais capazes de se diferenciar. E as mulheres, por serem mais indiferenciadas, estariam mais propensas à psicose. Daí surge um paradoxo: O simbólico patriarcal é uma condição para a sanidade com exceção da das mulheres? Esta trapalhada lacaniana é o contexto da maior parte da obra de Irigaray.
O falo e o logo estão firmemente atados por meio de uma identificação especular. O falo marca uma identificação fixa, o problema é a natureza da identificação com o signo, e o modo como os signos se fixam uns aos outros, formando blocos estagnados de identificação, e Brennan tenta pensar como nos movemos para além das identificações. O simbólico fragmenta o imaginário mas não sem a ajuda de um interlocutor. A questão passa a ser: o que um simbólico não patriarcal acarretaria?
Irigaray e Cixous partilham a crítica feita à metafísica de Lacan por Derrida, argumentando que Lacan privilegia a diferença sexual e liga a sexualidade a um conhecimento dependente de oposições binárias, no qual a masculinidade domina pela presença, e a racionalidade é estabelecida por intermédio da exclusão do feminino. Pode parecer que a escolha se dá entre ser racional e lógico ou ser feminista, escolha entre razão e revolução. Isto nos leva aos debates sobre a epistemologia, a dependência da metafísica ocidental da presença e da exclusão ou ausência do feminino. Debates que são cruciais, quer em termos de sua trajetória, quer na sua relação com a psicanálise. Eles são um modo de lidar com a noção de que a feminilidade não tem conteúdo, de que é um termo negativo; de que a diferença sexual é diferença em relação ao falo.
Mas, dado o fato de que para Lacan a negatividade do feminino é uma necessidade psíquica simbólica, permanece a questão: pode a reformulação dos termos da diferença sexual levar em conta a questão da organização psíquica? Será que esta questão e a da crítica metafísica, do conhecimento podem ser reunidas? Pergunta-se Brennan.
O essencialismo caiu em descrédito, teorias que acreditam em algum aspecto essencial da “natureza humana”. Algo de inato, natural, biológico, pré-estabelecido, algo que não possa ser mudado. Esta crítica ao essencialismo foi construída no contexto das mudanças do começo dos anos 70, dentro das visões recebidas do marxismo. Seu foco tornou-se mais nítido: as teorias essencialistas são aquelas que apelam para a biologia sexual. E fecham a abertura para a possibilidade de mudança.
Do começo dos anos 80 em diante, importantes feministas britânicas endossaram a teoria lacaniana como não-essencialista porque teorizava a feminilidade como uma construção não biológica, proclamava que a feminilidade não tem conteúdo e tornava a posição feminina disponível a ambos os sexos. Jane Gallop vem se perguntar a razão do endosso à teoria lacaniana se a feminilidade que teoriza não é nem biológica e nem histórica. E conforme inúmeros críticos assinalaram, esta descrição da feminilidade ainda implica biologia: a feminilidade como termo negativo da diferença sexual é construída em relação ao falo, e o pênis essencialista e totalmente natural presta-se à representação do falo. O simbólico depende desta construção e é uma ocorrência essencialista universal. Feministas simpatizantes de Lacan e de uma tradição socialista, dizem que Irigaray é essencialista, e portanto estava errada, pois invocava o corpo feminino e que por contraste a teoria lacaniana da feminilidade é não-essencialista. É irônico que essa crítica não levasse em conta a preocupação de Irigaray com o simbólico. Há outra divisão diádica oclusiva: de um lado estão os que reconhecem a lei simbólica e se opõem ao essencialismo; do outro, estão os essencialistas. Estas palavras fizeram a ponte entre a teoria marxista e a lacaniana. Proporcionam um meio de conciliar pontos de vista políticos e psicanalíticos que poderiam estar em conflito. A preocupação aqui é com o não-essencialismo como uma suposta virtude, independente do contexto ser político ou psicanalítico.
Em termos gerais, algumas se fundamentam nas críticas a Freud e Lacan elaboradas principalmente por Irigaray e Cixous. Um dos textos deste livro Para Além do falo coloca a importância de Clarice Lispector para Hélène Cixous, e Teresa interpreta como se Hélène procurasse e encontrasse em Clarice um ponto de identificação para o que tentava dizer e que as palavras não conseguiam dizer por completo. Teresa é psicanalista, percebe e explicita o ponto de identificação como fixação do qual se trata mais de se desgrudar, explicita assim o ponto cego de Hélène.
Brennan passa a pensar, em termos freudianos, a fixação de idéias e o processo analítico histórico de voltar atrás, suspender o habitual, reconstruir a história a partir de suas premissas para ver se as coisas parecem diferentes. A reconstrução consiste não só em lembrar o que seria melhor esquecer, mas também, citando Spivak, uma das autoras do livro, em “esquecer ativamente” o que seria melhor lembrar. Desconstrói as identificações enganadoras, que constituem bloqueios imaginários à compreensão, e reconstrói outra história.
A nossa questão do erro de tradução na passagem de Freud para o inglês é trabalhada por Rachel Bowlby, no segundo capítulo, num texto chamado Doida ainda, depois desses anos todos, onde explora o termo repúdio também como repúdio do feminino pela psicanálise e da psicanálise pelo feminismo. Ela diz coisas importantes para o trabalho que vinha fazendo sobre o tradutor, e sua maneira de se colocar é singelamente inventar uma ficção, uma viagem pela história da menina que não sabe onde quer chegar. Começa mexendo no sótão e encontrando um papel numa linguagem estranha que vai tentar decifrar. E então diz: “Se não encontrei a solução para o enigma, talvez eu tenha pelo menos tropeçado em algumas das razões pelas quais continuou insolúvel. Em outras palavras: acho que encontrei a chave da porta, mas não sei se existe algo do lado de lá.”
Ela está analisando a barra, o que liga e separa, mas enfatiza a intersecção: “Psicanálise e feminismo têm estado juntos fixados em algo que parece ter se tornado uma relação interminável, marcada por expressões de sentimento violento de ambos os lados.”
O “nascemos um para o outro”, no momento seguinte, mais amargo, torna-se “a relação já nasceu condenada.” A única constante é que nenhum dos dois abre mão, em algum lugar, sempre estiveram na mente um do outro. Cada lado acusa o outro de se conformar às imposições culturais que deveriam estar desafiando. Para muitas, Freud é a imposição da lei do patriarcado pela qual as mulheres sempre foram oprimidas, o que é prejudicial à causa da emancipação feminina. Para outras, o problema reside, mais exatamente, no pressuposto do feminismo de que a identidade da mulher está dada de forma não problemática, ou de que as dificuldades da sexualidade e os conflitos da subjetividade nada mais são que o efeito da opressão social contingente. Pergunta-se: Onde se supõe terem começado as dificuldades das mulheres, e para onde o feminismo pensa estar indo? A psicanálise seria um desvio do objetivo principal, ou o feminismo que ignora a psicanálise buscou um atalho que, somente irá devolvê-lo às mesmas questões?
Temos tanto em comum! Se a psicanálise e o feminismo parecem estar enredados num combate ou cópula até a morte, e a escolha depende da perspectiva do espectador, então estiveram juntos todo esse tempo. Analisa o funcionamento humano nas suas rivalidades e amores infindos, projetando um no outro aquilo por que anseia ou abomina. Se cada movimento, pergunta, resposta forem já conhecidos de antemão, forem uma perfeita cópia de um roteiro imutável, então a ironia do encontro às escuras no sótão não acontecerá.
Vai examinar a palavra repúdio e o que acontece com ela no caminho de Viena a Londres, na tradução do alemão para o inglês de Strachey e vai tomar o partido de Lacan. Uma das palavras alemãs traduzidas como repúdio, verwerfen, é também a palavra da qual, em um dos usos encontrados em Freud, Lacan extrai o conceito de foraclusão associado à psicose. Pode-se argumentar que existe uma diferença crucial nos dois movimentos, o de Strachey e o de Lacan e Brennan então diz:
“Lacan está admitindo abertamente estar derivando implicações que não estão tematizadas no texto original, ao passo que Strachey, que nada diz sobre o que pretende, está contrabandeando pela porta de trás, sob a mascarada de uma versão direta, sua praga sobre as mulheres. Mas os termos morais podem ser invertidos. Strachey é um simplório que não percebe o alcance do que está fazendo, enquanto Lacan está arrogando como fielmente freudiana uma coisa que na verdade não consta do original. Distinguir entre a interpretação criteriosa e a obtusa apenas envolve o mesmo apelo ao texto original como a rocha que abriga o minério em bruto do significado incontestável. Na tradução de Strachey, torna-se indistinguíveis o correto e o espúrio. Mesmo que se pudesse demonstrar que o repúdio da feminilidade não corresponde ao que Freud realmente declarou ou queria dizer, isso não eliminaria todas as querelas sobre psicanálise em língua inglesa que têm sido travadas nesse meio tempo.”
Um dos significados de die Verwerfung é o de falha geológica: invertendo a liberdade tomada pelo tradutor, ela a coloca de volta no trecho de Análise terminável e interminável. Pareceria que a “rocha viva biológica” não era o repúdio da feminilidade e sim a falha da feminilidade, deixando em aberto, no deslizamento entre os estratos, a possibilidade de que haja mais para onde avançar, uma falha ainda mais básica que não tivesse sido vista anteriormente.
No outro trecho em questão é o significado de weisen von sich, exilar ou banir, no texto Homossexualidade Feminina. A própria palavra repúdio exilou e baniu a feminilidade que talvez não tivesse sido banida do texto original. Essa história de exílio forçado é também a história da percepção súbita e esmagadora que a menina tem do significado de seu sexo e de sua partida com passagem só de ida para a terra distante da feminilidade, que nunca vem ou a qual jamais se chega.
Raquel Bowlby relata a história de Rita, a menina psicanalítica, com suas ilusões arruinadas, forçada a imigrar do mundo de Mecenas para a civilização, tendo de fazer uma opção entre três roteiros que, no fim, não representam opção. [Os três roteiros indicados por Freud que não representam opção pois todos decorrem do desejo de pênis, são: o caminho para a inibição sexual ou neurose, para o complexo de masculinidade ou para a feminilidade normal.] O agente de viagens que já viu tudo na vida, cobra o preço excessivo de sempre e explica as várias opções: “Vai ser a viagem da sua vida”. Entrega-lhe a brochura standard com 24 volumes muito pesados para a viagem. Ela olha e joga com repugnância: “Isso para mim é inglês.” Porém, é tarde demais, o navio está saindo, e a mãe dela, no cais, diz adeus com um aceno repressor.
Muitos milênios depois, a menina ainda viajando. Esteve na Frigia, a cidade do protesto. Esteve em Viena, Berlim, Paris; atravessou o mar para Londres e singrou o oceano para Nova Iorque. Depois, novamente esteve na França e ultimamente vem freqüentando muitos encontros internacionais.
Jamais conseguiu passar sequer nas vizinhanças do prometido destino do Normal, no estado de Feminilidade e em todo o caso, jamais conseguiu evitar o sentimento de que nenhum desses nomes soasse como um lugar onde gostaria de chegar. Ela está exausta e decepcionada com a viagem que lhe custou tanto, ansiosa por chegar em casa, apesar de tudo, está inclinada a achar que o agente de viagens a enganou. Com muita dificuldade procura uma passagem de volta para Mecenas. Ela viaja por muitas milhas e a paisagem começa a lhe parecer familiar. A velha cidade parece a mesma, quando ela desce do trem, parece-lhe que a estação foi modernizada. Não tem mais relva, mas uma grande árvore, na qual um zeloso burocrata fixou uma placa com a palavra “árvore”. E aqueles sinais colocados encima daquelas duas portas? Quando menina, não os tinha visto. Pula de volta para o trem e segue. Ela pensou que amava, que estava cheia de amor. Mas o estranho esplendor de sua presença, uma maravilhosa irradiação de vitalidade intrínseca, era uma luminosidade de supremo repúdio, nada mais que repúdio. Esse estado de repúdio era um sofrimento também. Por que continuar repudiando? Estava livre disso tudo, podia procurar uma nova união em outro lugar.”
Depois desta viagem, voltemos ao erro de tradução no livro de Pommier. Se a intervenção que transformou o significante em insignificante fosse obra de uma tradutora que sabe o alcance do seu trabalho, ela teria assumido suas intenções, o que avalizaria o erro como uma opção explicitada no texto, e não assim, tentando passar despercebido, nos supondo desavisados submissos ao seu poder. Este fato vem demonstrar que nosso trabalho de revisão, de comparação de versões ganha relevância no contexto psicanalítico.
O que Pommier escreve nos dois últimos capítulos da nova edição de Exception féminine me pareceu importante, ainda mais neste momento de ruptura em que uma nova ordem mundial se anuncia, em versão minha resumida e livre, para ficar registrada aqui. Pommier volta-se ao político, passa pelo mito da horda primitiva para situar os irmãos e dizer que a mulher será mais uma irmã que uma mulher ou uma mãe. Analisa os sistemas políticos de acordo com o tipo de opressão exercida sobre eles e elas.
“Aos olhos do déspota, todas as mulheres serão objetos potenciais de gozo, são todas escravas, e a poligamia corresponde a tal posição do pai. As mulheres serão objetos de gozo intercambiáveis assim como os homens, a homossexualidade masculina será valorizada e as mulheres serão ainda mais desvalorizadas. No sistema monárquico, ao contrário, o desdobramento da paternidade terá como conseqüência a idealização da mulher e a proscrição da homossexualidade. A organização republicana permite que a qualquer momento possa se pedir a cabeça do presidente, mas a cada vez que uma cabeça rolar, os irmãos ao sentirem-se aliviados da angústia de serem castrados pelo pai de ficção que se dão, verão diminuir a injunção de martirizarem e alienarem suas mulheres, a fim de se assegurar da própria virilidade. Todo período revolucionário é a ocasião para um progresso na liberação das mulheres. Na história contemporânea, cada modificação revolucionária da sociedade dos irmãos foi seguida não apenas por direitos novos para as mulheres, mas mais profundamente pelo alívio da pressão alienante exercida sobre elas.” (p. 250-253)
Temos a abertura de, neste apocalipse, nos apropriarmos mais de nossas singularidades e potencialidades, dando autonomia para autodeterminação. A maior autoridade no mundo não pode ser parcial e defender apenas os interesses dos capitais financeiros. Não seria a democracia americana uma mascarada de um totalitarismo das grandes corporações financeiras? Como pessoas esclarecidas não percebem que a miséria de uns é a riqueza de outros? Se não conseguimos não repudiar, podemos repudiar a subjugação. Nem todos os homens querem a guerra e as mulheres afegãs, que estão atravessando a fronteira, estão tirando os véus...
São Paulo, setembro de 2001
Mirian Giannella
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http://sites.uol.com.br/giannell/
Bibliografia
BRENNAN, Teresa. Para Além do Falo – uma crítica a Lacan do ponto de vista da mulher. Tradução de Alice Xavier, Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997.
GIANNELLA, Mirian. A Tradução e A Mulher, Boletim da Pulsional, nº107, mar. 98, Revista Seele, mar. 99. http://www.roadnet.com.br/seele/numero.9/9mirian.htm
LACAN, Jacques. Le Séminaire, livre XX, Encore (1972/73), Paris: Seuil, 1975, p. 10-16.
______________. O Seminário, livro XX, Mais, ainda (1972/73), tradução de M. D. Magno, Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
POMMIER, Gérard. A exceção feminina, os impasses do gozo, tradução de Dulce Duque Estrada, Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
______________. L’Exception Féminine, (versão minha, pp. 250-253), Aubier, 1996.
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