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Mal-estar na Globalização
Eduardo Losicer
"Mal-estar na Globalização" é o tema que vamos debater na próxima Quarta feira (17-01) nos nossos "Encontros Brasileiros de Psicanálise", aqui no Rio, e também é o tema geral das Oficinas que apresentaremos - junto com analistas do Brasil e de outros países - no Fórum Social Mundial em Porto Alegre (25/30-01).
Quando propus escolhê-lo como tema-chave, tinha em mente três fatores: em primeiro lugar, permite reconhecer, entre nós, o instigante texto freudiano de reflexão sobre a cultura contemporânea, tão pertinente ao nosso interesse atual; em segundo lugar, se centra no termo "globalização", do qual não podemos mais escapar; e, por último, se coloca particularmente da perspectiva do "mal-estar", isto é, no meu entender, da perspectiva clínica.
As circunstâncias que resultaram nesta iniciativa, inédita dentro da comunidade psicanalítica, não podiam ser mais auspiciosas: analistas mobilizados por vontade política para além de suas próprias instituições e teorias, com disposição para agir e pensar entre pares, de forma auto-gestiva, para além das diferenças, e também com disposição para se entender com o "outro" público (externo, heterogêneo, político), para além do habitual "público interno" à psicanálise (institucional).
Tudo isto constitui um verdadeiro desafio para todos os analistas implicados e acredito que vale a pena o esforço necessário para ficar à altura daquilo que nos convoca.
Da minha parte, como dizia, achei importante enfatizar a perspectiva clínica do tema pelos motivos seguintes: a experiência da clínica analítica, no seu sentido mais amplo (consultório, instituições, movimentos, etc.), nos coloca numa posição privilegiada que nos permite um saber sobre os efeitos perversos (mal-estar cultural, sofrimento ou patologia clínica) que a globalização provoca nas pessoas, ao mesmo tempo que nos permite perceber as diversas formas de solidariedade e de resistência que podem se opor a esta dominação totalitária.
Cultura do narcisismo, pensamento único, sociedade do espetáculo, individualismo auto-centrado, ditadura dos mercados, negação do Estado ... são denominações críticas que descrevem bem as formas de totalitarismo a que estamos sujeitados junto com nossos contemporâneos. Estamos todos compelidos a aceitar e "gozar" destas produções da modernidade, que se nos impõem como se fossem modos de vida estabelecidos de uma vez e para sempre, ou então... nos considerarmos definitivamente excluídos. Estaria este sistema global todo-poderoso agindo sobre nós como o primitivo pai tirânico agia sobre a horda selvagem?. Não deveríamos, através dos meios que nos são próprios, declarar-lhe a mortalidade? (não esquecer que Freud antecipava que quem tenha reconhecido o pivô da prática analítica "...pertence para sempre à nossa horda selvagem").
É difícil escapar do império destas formas de subjetivação contemporânea. Porém, a prática clínica e a nossa implicação nela nos apontam diversas brechas e linhas de fuga que precisamos saber aproveitar.
Adotar o ponto de vista clínico e crítico diante deste sistema global perfeito significa, como ponto de partida, penetrar nestas brechas e denunciar-lhes a falha. Sabemos que não há modelo eterno e que a "falha global" é inexorável. Podemos pensar no pressuposto desta falha não apenas como tese teórica ou como premissa dialética que procura a contradição.
Com efeito, como analistas implicados na prática, sabemos que a falha pode ser encontrada todos os dias nas pessoas que se aproximam de nossa clínica, assim como também na leitura do jornal ou nas diferentes manifestações do imaginário social cultural, da vida institucional e da cidadania.
Nosso dispositivo nos coloca em boa posição para detectar as falhas sintomáticas desta hipotética decadência (feliz ou infelizmente, para tudo há uma decadência), ao mesmo tempo que nos permite descobrir as diversas formas de resistência e potência para a produção do novo, tal como se nos apresenta na vida das pessoas e no nosso vínculo com elas. Todos estamos dentro do mal-estar da globalização ... todos somos casos clínicos dela.
Não é por outro motivo, pelo que eu entendo, que a tematização da clínica com seu novo páthos está na ordem do dia.
Encontramos dezenas de bons trabalhos apresentados na sessão "Clínica psicanalítica" dos Estados Gerais em Paris e ainda estamos em dívida com eles.
O âmbito proporcionado pelos nossos "Encontros ... ", por ser extra-institucional e entre pares - bem dentro do espírito do movimento iniciado em Paris - pode ser bom para resgatar esta dívida. Ainda podemos aproveitá-lo para buscar as sintonias possíveis para nos apresentarmos em Porto Alegre - num aspecto internacional e heterogêneo - com uma coerência maior.
Bem; pretendi escrever sobre as reflexões a respeito de nosso próximo encontro de quarta feira, para dividi-lo antecipadamente com todos os participantes da reunião. Aqui está, uma apertada síntese de minhas preocupações. Também pensei escrever, como comunicação previa, alguma coisa a respeito da pesquisa clínica que venho desenvolvendo e que teria relação bom "globalização". Tal vez este não seja o melhor momento. De qualquer maneira, posso adiantar que trata, precisamente, das ditas "novas patologias..." e, em particular, da "compulsão" como signo de todas elas (estaria a compulsão, para este fim de século, como a angustia "freudiana" estava para o inicio do século?). Como se pode perceber, os problemas teóricos e clínicos que se precisa resolver para dar conta destes enunciados são complexos e requerem de um esforço conjunto. Por isso que é uma pesquisa clínica aberta, isto é, pesquisa (não-acadêmica e não-institucional) disposta a se desenvolver com a participação dos "pares clínicos" que se interessem na mesma direção. Seria bom que este meio permita identificá-los e somá-los ao trabalho.
Eduardo Losicer - 14-01-01
losicer@marlin.com.br
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