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A clínica hoje e a produção de novos conceitos
Maria Lúcia Pilla
Este texto propõe-se a trazer algumas idéias para serem debatidas no próximo en-contro. Ë portanto apenas um esboço, que exige futuras pesquisas e aprofundamentos.
Uma das importantes transformações que ocorreram no mundo no último século, deu-se sem dúvida no campo dos paradigmas que regem a ciência. Algumas descobertas e conceituações da física moderna - tanto a relativística quanto a quântica - tais como: matéria e energia são a mesma coisa - logo, não é tão grande a distância entre o visível e o invisível; também não e mais tão clara a delimitação e separação entre as coisas - uma vez que tudo está em constante movimento e interação; nossa percepção do mundo está relacionada à forma como somos construídos, sobretudo à estrutura de nosso aparelho perceptivo - fôssemos construídos de outra forma e perceberíamos diferentes realidades; não há mais possibilidade de observação objetiva, uma vez que agora sabemos que o ob-servador sempre interfere no observado. Estas e outras tantas descobertas, colocaram em sério questionamento alguns pressupostos que regiam o pensamento científico. Talvez, os principais, tenham sido: a crença na separação entre sujeito e objeto - como colocou uma participante muito aplaudida no último encontro, sabe-se hoje que esta separação não e-xiste; e a crença no determinismo da natureza - na física quântica não se fala mais em causas e efeitos, em determinações, mas apenas em probabilidades.
A Psicanálise é filha da ciência do séc. XIX, ainda regida por estes paradigmas que estão sendo agora questionados e transformados. Embora a genialidade de Freud lhe tenha propiciado, muitas vezes, libertar-se dos paradigmas que o sustentavam, como ho-mem de ciência, é inevitável que muitas de suas conceituações estejam enquadradas den-tro deles. Penso que deveríamos rever e repensar os conceitos que encontram-se neste caso.
Escolho, para discutir aqui, o conceito de transferência, de importância central tanto na teoria quanto na técnica psicanalíticas, e que é claramente sustentado pelo para-digma determinista.
Para simplificar (uma vez que há muitas visões sobre transferência), uso como re-ferência a definição do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis: "...processo pelo qual os desejos inconscientes atualizam-se sobre certos objetos, no enquadre de um certo tipo de relação estabelecida com eles e eminentemente no enquadre da relação ana-lítica." " Trata-se de uma repetição de protótipos infantis vividos com um marcante sen-timento de atualidade." "A transferência é classicamente reconhecida como o terreno on-de se desenvolve a problemática de uma cura psicanalítica, sendo a mesma caracterizada por sua instalação, suas modalidades, sua interpretação e sua resolução."
Partindo de um pressuposto não determinista e não separatista, entendemos a transferência de uma forma muito mais ampla e abrangente. Cliente e analista, ambos tra-zendo suas histórias, seus registros e recalques, estão em constante interação, ou seja, ca-da atitude (gesto, palavra, ação, etc.) de um repercutirá sobre o outro e vice versa. Assim sendo, o que é transferido o é dentro deste contexto, sendo influenciado por ele a cada momento. Não quero apenas dizer que o cliente transfere aquilo que as características e atitudes do analista mobilizam nele. Refiro-me a algo bem mais amplo, incerto e flutuan-te: a transferência é criada a cada momento segundo a interação que está se dando entre cliente e analista, que por sua vez está relacionada ao que está ocorrendo na vida interna-externa de ambos; isto sem falar do que está ocorrendo no ambiente imediato e não ime-diato em que ambos estão, e que também fará parte do contexto. Ou seja, a transferência do cliente não só será diferente com diferentes analistas, mas mesmo com o mesmo ana-lista, ela será diferente a cada momento, dependendo da interação de todos estes fatores.
Pensar a transferência a partir deste ponto de vista nos traz, a meu ver, uma nova forma de ver a clínica, que provavelmente resultará na necessidade de reformulações teó-ricas.
Maria Beatriz Breves Ramos, psicanalista, bacharel e licenciada em física, em seu livro Macromicro - A Ciência do Sentir (Ed. Mauad), no qual busca construir uma teoria a partir da física moderna, da psicanálise, da biologia e da arte, nos fornece funda-mentação teórica para esta nova forma de pensar, criando alguns conceitos para a psica-nálise.
Beatriz concebe o ser humano como "um complexo vibratório macromicro". A estrutura humana, com seus limites, só nos possibilita ter acesso a alguns aspectos da natureza. Em função disto, para fins de estudo, os cientistas dividiram a matéria existente no universo em dois níveis: o macrocósmico e o microcósmico. O nível macrocósmico, que trabalha com os aspectos da natureza que nossos sentidos alcançam, é estudado pela física clássica, iniciada como estrutura científica por Galileu e Newton, e que baseia-se no pressuposto do determinismo, da precisão das causas e efeitos dos fenômenos físicos. O nível microcósmico, que trabalha com os aspectos da natureza que nossos sentidos não alcançam, é estudado pela física quântica, iniciada como estrutura científica por Heisen-berg e Schröndinger, e que tem como pressuposto o indeterminismo, a imprecisão das causas e efeitos dos fenômenos físicos. Então, o ser humano, como um complexo vibrató-rio macromicro, manifesta-se ( para a percepção humana), em nível macrocósmico, co-mo um ser biológico (material), e em nível microcósmico como um ser psicológico (e-nergético). Mas esta fronteira entre o material e o não material, entre o visível e o invisí-vel, entre matéria e energia, na realidade não existe - ela apenas se faz presente em fun-ção das limitações da estrutura humana, ou seja, em função da forma como a evolução do universo "construiu" o homem; se tivéssemos evoluído de outra forma, por exemplo, que nos possibilitasse entrar em contato com o nível microcósmico, perceberíamos a nós mesmos como um complexo energético e não como um ser material. Pois sabemos hoje que a estrutura da matéria é o átomo, átomo que em seu interior possui um enorme poten-cial de energia; e o ser humano, ou seja, suas células, também são constituídas de átomos.
Sabemos também que, no mundo quântico, as velocidades se dão próximas a ve-locidade da luz. Beatriz propõe, então, que o Sistema Inconsciente, ao invés de ser atem-poral, tem um tempo próprio, funcionando à velocidade da luz e estando inserido no con-texto de 4 dimensões, onde o tempo é variável e é a 4a. dimensão; e o Sistema Conscien-te, por ser passível de capacidade simbólica, está inserido no contexto de 3 dimensões, sendo a consciência apenas um instante da totalidade inconsciente, em que o tempo se torna fixo, dando condições à capacidade simbólica. Maiores detalhes sobre estas com-plexas hipóteses, podem ser encontrados no livro de Beatriz acima citado, onde ela de-monstra suas afirmações através de uma pesquisa sobre os sonhos.
Sendo o ser humano um complexo vibratório macromicro, as relações humanas pro-cessam-se sempre através de pulsos vibratórios, tanto a nível perceptível (quando, por exemplo, a voz é uma onda mecânica emitida, e a visão é uma onda eletromagnética cap-tada), quanto a nível inconsciente; e, em sendo assim, é impossível sequer observar outro ser humano sem interferir nele e sem ser interferido por ele. A esta relação vibratória en-tre seres humanos, Beatriz denomina Princípio da Interação, que é o princípio que rege a transferência, vista a partir do novo enfoque acima exposto. Cria assim um novo concei-to, A Consonância Analítica, que amplia o conceito de transferência, incluindo também a contratransferência, vendo a ambas, não apenas como fenômenos referentes à repetição, mas também como novos fenômenos que se produzem no momento presente da relação analítica.
Finalmente, Beatriz propõe que o instrumento adequado para captar a totalidade do que se passa na transferência, a cada momento, é o "sentir": o sentir engloba tanto as sensações (manifestação do sentir a nível macrocósmico), quanto os sentimentos (mani-festação do sentir a nível microcósmico) e é, segundo ela, a vivência vibratória que po-demos experimentar, do complexo vibratório que somos nós mesmos e os outros. Este é portanto o 1o. momento do trabalho analítico, o momento da captação da transferência.
A interpretação é o 2o. momento, o momento da versão dada ao sentir, no qual tentaremos simbolizar, em palavras, aquilo que foi captado através do sentir.
Ao escrever estes pensamentos, lembro-me de um Encontro sobre Winnicott, no qual um dos expositores afirmava: "Com Winnicott, a psicanálise deixa de ser a cura pe-la palavra e passa a ser a cura pelo setting, do qual faz parte o analista" (e, naturalmente, também a palavra do analista). Parece-me que tudo que acabo de escrever é uma outra forma de dizer a mesma coisa, tendo, talvez, a pretensão de dar uma maior fundamenta-ção para esta nova forma de cura.
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