As formas corporais do sofrimento: a imagem da hipocondria

Maria Helena Fernandes1

Resumo:
A partir da constatação de que atualmente o corpo ocupa um lugar estratégico nas formas de apresentação do sofrimento humano, este trabalho se propõe a pensar a diversidade dessas formas a partir do modelo psicopatológico da hipocondria. O modelo do investimento hipocondríaco do corpo, enfatizado por Freud, mostra-se um instrumental útil para a compreensão das experiências de percepção e representação do corpo, o que certamente nos permite refletir sobre as modalidades de escuta dos eventos corporais na clínica psicanalítica.

Palavras-chave: hipocondria, corpo, metapsicologia, somatização.

Résumé:
Le corps occupe une place importante dans les formes qui prennent aujourd'hui la souffrance humaine. En partant de cette constatation ce travail se propose à réfléchir à la diversité de ses formes à partir du modèle psychopathologique de l'hypocondrie. Le modèle de l'investissement hypocondriaque du corps, suggéré par Freud, semble être un outil fécond pour comprendre les expériences de perception et représentation du corps, ce qui nous amène, en outre, à réfléchir aux modalités de l'écoute analytique face aux événements corporels dans la situation analytique.

Mots-clés: hypocondrie, corps, métapsychologie, somatisation.

"Mistério e fragilidade do corpo, doença e morte, são os aspectos da hipocondria humana que nos tomam, a todos, pelas entranhas..."
Henry Ey

As novas imagens evocadas pelas formas clínicas da atualidade parecem inventar ou reinventar, com maestria, novas sintomatologias para a velha dimensão do sofrimento humano. Um sofrimento que, segundo a psicanálise, leva em consideração esse pathos que carrega a memória da alteridade na origem de toda experiência humana. Ora, se a psicanálise pode ainda se definir como a arte da escuta do sofrimento humano, pode-se pensar que esse sofrimento reclama novas formas de apresentação, cumprindo sempre a mesma exigência de se fazer escutar.

Embora novas imagens tenham surgido - reflexos da mudança dos tempos -, elas continuam, no entanto, a guardar a mesma característica das imagens dos corpos retorcidos das histéricas de outrora, ou seja, a imagem do velamento do sofrimento, do tumulto do conflito, da dor. Assiste-se, assim, à emergência de novos sintomas: os abundantes e variados transtornos alimentares, a compulsão para comprar, para trabalhar, para fazer exercícios físicos, as incessantes intervenções cirúrgicas de modelagem do corpo, a sexualidade compulsiva, o horror do envelhecimento, a exigência da ação, o terror da passividade, a busca psicopatológica da saúde ou, ao contrário, um esquecimento patológico do corpo, etc. Sintomas que denotam, a meu ver, de forma positiva ou negativa, a submissão completa do corpo.

Com o objetivo de indicar o caminho metodológico que pretendo traçar para apresentar algumas hipóteses de trabalho, começarei apresentando alguns flashs da minha clínica psicanalítica. Digo flashs porque não se tratam de casos clínicos, nem tampouco de vinhetas clínicas, mas tão somente de imagens. Imagens que evocam cenas de uma clínica, que denominei a clínica da psicopatologia do corpo na vida cotidiana.

- Flávia, 35 anos, dois filhos; aos 20, uma cirurgia plástica para diminuir os seios; hoje, 4 lipoaspirações "para tirar as gordurinhas" - diz ela - "a da barriga não ficou legal, era melhor como antes, vou ter que refazer!" Outra cirurgia, desta vez para aumentar os seios: "agora é legal ter seios grandes". Procura análise após sentir-se "esgotada e sem ânimo" depois da doença do filho mais novo, que chegou a precisar de uma cirurgia.

- Lígia, cujo corpo emagrecido esforça-se por esconder sua rara beleza, vem encaminhada pelo psiquiatra. Encontra-se muito deprimida, chegando a comer e vomitar até oito vezes ao dia. Afirma ela: "a minha mãe diz que vomito para não engordar, mas a verdade é que não posso suportar tudo aquilo dentro de mim".

- Pierre, 50 anos, o cardiologista e a mulher acham importante que ele inicie uma análise. Teve um infarto agudo do miocárdio a três meses atrás: "Eu tive o infarto mas não senti nada, foi o médico que descobriu" - diz ele. Ângelo, também teve um infarto, tem apenas 42 anos, recordando-se desse dia, comenta: "Eu tive dor a noite inteira mas não quis acreditar que poderia ser algo grave".

- Eduardo está atormentado pelo temor de ter contraído AIDS após uma "transa" em que a camisinha rasgou. O resultado do exame de sangue negativo não lhe restitui a calma esperada. Queixa-se de dores nas costas, sente-se cansado e questiona-se: "e se estiver com um câncer?"

- Marília, olhar esperto, corpo miúdo, é bailarina de profissão. Não sabe o que se passa com ela, acha que tem tudo, mas não consegue se sentir "feliz"; "acho que sofro de TPM" - diz ela. Machuca-se com facilidade, chegando a precisar parar de trabalhar. Diz que parece não sentir o corpo apoiar-se, em toda a sua extensão no divã. O corpo não tem densidade, Marília flutua!

Essas imagens evocadas pela clínica psicanalítica, funcionando como espelho da cultura, refletem, de forma diversificada, a imagem do mal-estar na atualidade.

Freud afirma, em 1921, no texto Psicologia das massas, que não existe constituição solipsista do psiquismo. Se "a psicologia individual é simultaneamente psicologia social"2, pelo simples fato de que a subjetividade se constitui a partir da alteridade, da existência fundamental do outro como eixo constitutivo do psíquico, então, pode-se avançar a idéia, de acordo com Freud, de que as formações psicopatológicas falam da cultura, ou melhor, retiram dela o material de base que lhes dará forma, que lhes dará imagem!

Estabelece-se, com isso, um diálogo que, colocando em evidência os modos de subjetivação de uma época, reproduzem, conforme salienta Sílvia Alonso, "o que circula como representação coletiva"3. A partir daí, fica mais fácil entender como o imaginário da época, com suas referências estéticas, opera na construção dos novos sintomas.

A negação de toda interioridade parece nos afastar cada vez mais de uma subjetividade pautada nos ideais do romantismo de Emma de Flaubert4 ou Julie de Balzac5 - personagens facilmente identificadas ao modo de subjetivação colocado em evidência pela neurose. Se me deixo levar por um raciocínio psicopatológico, fico tentada a pensar que a evolução do pensamento psicanalítico migra do modelo da neurose para o modelo da psicose.

As contribuições de Melaine Klein, Lacan, Bion e Winnicott, criando novos conceitos e alargando fronteiras, permitiram que a ênfase fosse, de uma certa forma, colocada no modelo da psicose. Isso pode ser facilmente verificado pela quantidade e pela qualidade das publicações psicanalíticas abordando os casos-limite, as psicoses infantis, o autismo, etc. A subjetividade aparece e permanece aí enredada nos meandros do conflito, denotando toda a complexidade e riqueza da interioridade.

Contrariamente a essa ênfase na interioridade, vê-se atualmente uma ênfase na exterioridade, com predomínio das patologias da ação e do corporal6. As problemáticas internas vêm migrando progressivamente para o corpo; a ênfase na corporalidade parece sugerir que a plataforma dos conflitos migra para o exterior do sujeito. O culto ao corpo e à imagem encontra no terror do envelhecimento e da morte o negativo que lhe justifica, a condição de possibilidade de sua existência.

Em termos de publicações psicanalíticas, observa-se uma avalanche de trabalhos abordando direta ou indiretamente as problemáticas corporais. Assim como presencia-se na clínica um aumento considerável de demandas de análise que passam pelas questões corporais. O corpo toma a frente da cena, constituindo-se como problemática psíquica, fonte de sofrimento, de frustração, de insatisfação, de impedimento a potência fálico-narcísica. De veículo ou meio da satisfação pulsional, o corpo passa a ser veículo ou meio de expressão da dor e do sofrimento. Um sofrimento que parece encontrar dificuldade para se manifestar em termos psíquicos.

Esse raciocínio - na medida em que se utilizou das formações psicopatológicas para pensar os modos de subjetivação vigentes na cultura e, portanto, presentes na clínica psicanalítica - me permite avançar a hipótese de que a hipocondria, justamente pela sua capacidade de transitar entre a neurose e a psicose, entre o normal e o patológico, entre a psique e o soma, se apresenta como um modelo fecundo capaz de permitir, a partir do instrumental psicopatológico freudiano, pensar as vicissitudes da emergência do corporal na clínica da atualidade.

O Método de Freud

A leitura de Freud revela o quanto a sua maneira de raciocinar por comparações e analogias entre os diferentes quadros clínicos - entre histeria e neurose obsessiva, entre neuroses e perversões, etc. - mostrou-se fecunda, na tentativa de explicar as vicissitudes do funcionamento psíquico. Pode-se mesmo dizer que esse método lhe permitiu colocar em relação entidades nosológicas diferentes, nomeando-as e descrevendo as especificidades de cada uma delas7. Outros dois importantes procedimentos presentes no método da escrita freudiana devem ainda ser aqui evocados.

O primeiro consiste na comparação entre as "formações do inconsciente", do qual o sonho é um exemplo, e os estados patológicos8, o que implica em colocar o normal e o patológico na raiz mesmo do poder explicativo dos conceitos. O segundo procedimento consiste numa adjetivação das palavras, que transforma os substantivos, extraídos da linguagem psicopatológica da época, em adjetivos que servem para qualificar as produções normais do psíquico.

Em 1917, Freud nos oferece dois exemplos surpreendentes desse procedimento, a saber, a comparação do trabalho do sonho com a esquizofrenia e o fato de qualificar de hipocondríaca a capacidade do sonho em antecipar o reconhecimento de modificações que estão ocorrendo no interior do corpo. A respeito desta última, vejamos como se expressa Freud: " Nos sonhos, a doença física incipiente é, com freqüência, detectada mais cedo e mais claramente do que na vida de vigília ". Apontando para o fato de que no sonho " todas as sensações costumeiras do corpo assumem proporções gigantescas ", Freud diz que esta amplificação das sensações é de " natureza hipocondríaca " e " depende da retirada de todos os investimentos psíquicos do mundo externo para o ego, tornando possível o reconhecimento precoce das modificações corporais que, na vida de vigília, permaneceriam inobservadas ainda por algum tempo"9.

Essa formulação supõe que o sono, pela sua própria regressão, permite o olhar do sonho sobre o interior do corpo. O estado de sono, e certamente o sonho, são aqui os instrumentos de uma abordagem que me parece permitir uma compreensão metapsicológica do modo de relação do inconsciente com o corpo.

Essa transformação do substantivo hipocondria (palavra que serve para nomear uma doença) no adjetivo hipocondríaco ( palavra utilizada para qualificar uma função do sonho em relação ao corpo) me interessa particularmente aqui. Podemos nos perguntar: quais são as conseqüências, para o pensamento teórico, da utilização de um qualificativo psicopatológico (hipocondríaco) para nomear uma característica normal do sonho?

Sem dúvida, Freud reafirma aqui o seu esforço de nominação, sua busca das palavras, tanto na linguagem da psicopatologia de sua época, quanto na língua comum: "Os nomes são certamente de um uso corrente, porém as coisas que eles designam são indeterminadas e incertas"10. Retomando a lição metodológica de Freud, não seria útil continuar a deixar o normal e o patológico se aproximarem e se influenciarem de tal forma que eles pudessem se esclarecer mutuamente? Ou, dito de outro modo, não poderíamos nos servir dessa marca da escrita freudiana para pensar a diversidade de formas de presentificação do corpo na clínica?

O fato de os desenvolvimentos de Freud sobre a hipocondria serem, em sua maioria, proposições alusivas e pontuais, não nos autoriza a falar de uma teoria da hipocondria em Freud, da mesma forma que podemos falar de uma teoria do sonho. Entretanto, essa evidência não deve velar o interesse pelas relações que podemos estabelecer entre sonho e hipocondria.

Sabe-se que Freud, desde a época da sua interlocução com Fliess, recusava todo tipo de sistematização da representação corporal no sonho, o que se traduzirá mais tarde por sua recusa em fazer um dicionário de sonhos, a recusa do caráter simbolista de algumas abordagens do sonho, conforme já salientei num outro momento11. Entretanto, ele vai retomar essa idéia da representação corporal para assinalar, precisamente, a necessidade de pensar o sonho enquanto uma formação hipocondríaca. O que Freud testemunha aqui não é simplesmente uma intuição que seria desprovida de interesse psicanalítico, mas o mecanismo mesmo da hipocondria: o hipocondríaco exagera sua dor, assim como o sonhador amplifica suas sensações corporais.

P. Fédida um dos primeiros a chamar a atenção para essa relação entre hipocondria e função onírica salienta que: "O aumento hipocondríaco das sensações corporais do momento em uma escala gigantesca não nos remete a uma leitura somatizante dos sonhos, mas atesta simplesmente que esses restos diurnos infinitesimais, a maior parte das vezes dificilmente perceptíveis durante a vigília, são tratados como representações de coisa e sofrem, então, os efeitos de condensação máxima e deslocamento, produtores de imagens principalmente visuais"12. Essas observações sugerem que, se há uma natureza hipocondríaca do sonho, isso não quer dizer que o sonho contenha uma queixa hipocondríaca, mas sim que ele próprio é linguagem de órgão e que, enquanto tal, submete as representações de palavra ao mesmo tratamento que as representações de coisa.

Evocando o fato de as experiências analíticas com os casos "difíceis" alargarem o campo do analisável, P. Fédida recusa-se a seguir um certo pessimismo de Freud quanto à possibilidade de se analisar os pacientes hipocondríacos e nos propõe escutar esses pacientes "como escutamos os sonhos na análise - nada mais, nada menos. Pretender, no limite, que o sonho é linguagem de órgão dependeria de uma regra metódica que não imporia nenhuma variante no caso de pacientes hipocondríacos em análise"13. Fedida nos indica aqui o caminho não somente para uma compreensão teórica, mas também para uma disposição de escuta desses pacientes que nos chegam trazendo suas queixas somáticas. De fato, evocando Ferenczi, Fédida nos convida a considerar a hipocondria "como um modelo fantástico de uma clínica psicanalítica das afecções somáticas engendradas pelas paixões da alma"14.

Sugiro, então, ampliar o alcance dessas formulações, pois a presença do corpo na clínica psicanalítica, sobretudo atualmente, vai muito além daquelas situações em que uma queixa somática é formulada. Conforme já enfatizei, a presença do corpo se faz, insistentemente, também pelo negativo, o que nos leva necessariamente à pergunta: o que permite ao corpo existir enquanto objeto psíquico?15

O Modelo Hipocondríaco

Além das aproximações da hipocondria com a somatização e a histeria e, no campo das psicoses, com a esquizofrenia e a paranóia, outras aproximações foram estabelecidas. Depois de Freud, a tradição psicanalítica retomou a idéia da relação entre a hipocondria e a melancolia e a depressão, chamando a atenção, desta vez, para os mecanismos de introjeção e projeção16.

Se é verdade que Freud não confrontou explicitamente suas hipóteses sobre a hipocondria com os novos conceitos que introduziu nos anos 20 - como a pulsão de morte, o masoquismo, o fetichismo e a segunda teoria da angústia -, a possibilidade de enriquecer a compreensão da hipocondria à luz dessas inovações não deixa de ter interesse. O fato de a pulsão de morte ter sido descrita como a pulsão sem representação vem igualmente acentuar uma forma de eficácia psíquica que se situa aquém da simbolização, abrindo, assim, todo um campo de possibilidades para se pensar o irrepresentável na metapsicologia.

É importante também acentuar o interesse que reveste a questão da percepção, como também a do auto-erotismo, para uma melhor compreensão da hipocondria, habitualmente vista como patologia narcísica17.

Num trabalho anterior, cujo objetivo era pensar a questão da percepção do corpo, enfatizei a dimensão auto-erótica da hipocondria salientando que nesta, mesmo se o prazer é travestido pela dor, permanece a presença de um investimento libidinal no corpo. Colocando em relação o excesso de sinais somáticos dos hipocondríacos e a completa ausência desses sinais em alguns pacientes orgânicamente doentes formulei a hipótese de que, nesses últimos, tem-se a impressão de que a experiência do corpo parece ter ficado ancorada no registro da necessidade, num tempo anterior ao auto-erotismo. Isto me permitiu enfatizar que um certo investimento "hipocondríaco" do corpo é necessário a toda organização psíquica18.

Ora, a palavra hipocondria recobre então numerosas questões relativas a diversos planos psicopatológicos: o plano da percepção da realidade, o da alucinação, e o da crença; em suma, questões relativas a diversos modos de funcionamento psíquico referentes à experiência do corpo. Essa fecundidade semântica da palavra levanta múltiplas questões: ao falar de hipocondria, falamos de uma síndrome ou de um sintoma, de neurose ou de psicose? Trata-se de um modo de organização psíquica temporário, como sugere A. Gibeault19, que pode aparecer em diferentes períodos da existência (adolescência, menopausa, terceira idade)? Estaria ela ligada a determinados momentos da análise? Faz ela referência à expressão de um mal-estar psíquico que, na cultura atual, se traduziria mais facilmente como uma queixa corporal? Ou seria ela uma forma de antecipação de uma doença somática ainda não identificada?20

Para estudar a hipocondria, seria necessário analisar cada aspecto desse quadro tão variado e rico, tarefa que não poderia fazer parte de nosso projeto aqui21. Não se trata de realizar um estudo aprofundado como a hipocondria de fato exige, mas apenas de retraçar brevemente um caminho que nos permita enfatizar a fecundidade do modelo psicopatológico da hipocondria para nos ajudar a pensar a diversidade de questões relativas à emergência do corpo na clínica psicanalítica.

A qualificação de modelo nos convém na medida em que Freud emprega igualmente a palavra modell e a palavra Vorbild para designar tudo que tem o valor de protótipo (bild = imagem e forma). O protótipo da hipocondria, ou melhor, a imagem da hipocondria, nos será útil ainda para pensar as questões relativas à experiência do corpo na situação analítica, onde muitas vezes é o corpo do analista que é solicitado a dar ouvidos àquilo que a palavra não tem condições de expressar22.

Insistindo na idéia de que a transferência é, na situação analítica, essa via privilegiada que permite ao sujeito "aumentar a competência do psíquico sobre sua vida somática"23. Fédida dirige nossa atenção para uma reflexão que deve passar necessariamente pela metapsicologia dos processos transferencias. Ele diz: "o paciente hipocondríaco se dirige ao corpo do analista ao mesmo tempo como se esse corpo pudesse receber os reflexos produzidos pela queixa somática, conservar esses reflexos como traços de inscrição (valor atribuído por esses pacientes à presença vigilante e atenta do analista) e como se esse corpo pudesse ao mesmo tempo reconstituir um sonho e um sono, colocando o paciente ao abrigo de seus tormentos"24

A diversidade de imagens que evocam o corpo na clínica psicanalítica da atualidade, conforme vimos, nos convida a ampliar o alcance e a fecundidade dessas palavras de Fédida para além da escuta dos pacientes hipocondríacos, ou seja, para além da escuta da queixa somática propriamente dita. É através da imagem da hipocondria que Fédida expressa a preciosa idéia de que o que se passa na situação analítica, sobretudo, eu diria, em certos momentos de uma análise, se dirige ao corpo do analista. Ora, uma melhor compreensão dos processos transferenciais implica em considerar seriamente que o analista escuta com o corpo inteiro e, à semelhança da alteridade materna, acolhe em seu próprio corpo os efeitos do sofrimento do outro. Sendo assim, somente uma escuta essencialmente "hipocondríaca", capaz de reconstituir em sua sutileza o clima onírico do sonho, pode nos ajudar a compreender a diversidade do funcionamento psíquico que se revela através das formas corporais do sofrimento.

E-mail: mhfernandes@terra.com.br
1 - Psicanalista, Doutora em Psicanálise e Psicopatologia Fundamental pela Universidade de Paris VII. Pós-doutorado no Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina - UNIFESP (financiado pela FAPESP). Professora do Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae e autora do livro L'hypocondrie du rêve et le silence des organes: une clinique psychanalytique du somatique, Paris, Ed. Presses Universitaires du Septentrion, 1999.
2 - FREUD, S. (1921). " Psychologie des masses et analyse du moi " in Oeuvres Complétes, vol XVI, P.U.F., pp. 5-83.
3 - ALONSO, S. L. (2000). " O que não pertence a ninguém... e as apresentações da histeria " in A Clínica conta histórias (org. Lucia B. Fuks e Flávio C. Ferraz), São Paulo, Ed. Escuta, pp. 81-102.
4 - Madame Bovary, Gustave Flaubert.
5 - A mulher de trinta anos, Honoré de Balzac.
6 - Sobre as novas formas psicopatológicas da atualidade, remeto o leitor ao artigo de Mário Fuks, " Questões teóricas na psicopatologia contemporânea " in A Clínica conta histórias (org. Lucia B. Fuks e Flávio C. Ferraz), São Paulo, Ed. Escuta, pp.201-216
7 - Por exemplo, Freud escreve que " a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão " in FREUD, S. (1905). Trois essais sur la théorie sexuelle. Paris: Editions Gallimard, 1987. p.80. Ou ainda: "Em nenhuma outra neurose as fantasias que se transformam em sintomas aparecem com maior evidência do que na histeria ; em compensação, as resistências ou formações reativas dominam o quadro da neurose obsessiva ; e, de um outro lado, o que nós chamamos de elaboração secundária, ao falar do sonho, ocupa na paranóia um lugar de destaque a título de falsa percepção, etc. " in FREUD, S. (1916-1917). Introduction à la psychanalyse. Editions Payot, 1961. p. 360. Ainda um outro exemplo: " A neurose de transferência corresponde ao conflito entre ego e id, a neurose narcísica (melancolia) àquele entre ego e superego, e a psicose àquele entre ego e mundo exterior." in FREUD, S. (1924). " Névrose et psychose" in Oeuvres Complètes, vol. XVII. Paris: P.U.F.,1992. p.6.
8 - A obra de Freud é rica nesses tipos de exemplos. Saliento aqui apenas alguns que me chamaram a atenção no que diz respeito a comparação entre: 1) Sonho e Fobia: "O conteúdo de uma fobia é para ela mesma o que a fachada visível de um sonho manifesto é para o sonho propriamente dito." (FREUD, S. (1916-1917). " L'angoisse " in Introduction à la psychanalyse. Editions Payot, 1922, 1961, p. 387); 2) Sonho e Psicose: " O parentesco interno dessa psicose (a amência de Meynert) com o sonho normal não pode ser desprezado. Além do mais, a condição do sonhar é o estado de sono, cuja característica principal é o completo afastamento da percepção e do mundo exterior. " (FREUD, S. (1924). Névrose et Psychose in Oeuvres Complètes, vol. XVII, P.U.F. 1992, p. 5.); 3) Histeria e Estado afetivo normal: " A crise histérica pode ser comparada a um estado afetivo individual normalmente constituído, e o estado afetivo normal pode ser considerado como expressão de uma histeria genética, que tornou-se hereditária " (FREUD, S. (1916-1917). " L'angoisse " in Introduction à la psychanalyse. Editions Payot, 1922, 1961, p. 373.)
9 - FREUD, S., " Complément métapsychologique à la théorie du rêve " in Métapsychologie. Editions Gallimard, 1968, p.125.
10 - FREUD, S. (1916-1917). " La nervosité commune " in Introduction à la psychanalyse. Editions Payot, 1922, 1961, p. 367.
11 - Cf. o segundo capítulo de meu livro L'hypocondrie du rêve et le silence des organes: une clinique psychanalytique du somatique. Ed. Presses Universitaires du Septentrion, 1999.
12 - FEDIDA, P. (1995). "L'hypocondriaque médecin."in Monographies de la Revue Française de Psychanalyse (sous la direction de M. Aisenstein, A. fine. G. Pragier). P.U.F., pp. 113-136, p. 131 (O itálico é do autor)
13 - Op. cit. p. 131.
14 - Op. cit. p. 118 (Os itálicos são do autor.)
15 - Cf. Meu artigo " A hipocondria do sonho e o silêncio dos órgãos: o corpo na clínica psicanalítica ", Percurso - Revista de Psicanálise, n. 23, 1999.
16 - A esse respeito, remeto o leitor às contribuições da Escola Inglesa, e, ainda, ao bem documentado artigo de A. Fine já citado, ao artigo de B. Brusset, in Revue Internationale de Psycopathologie, 20, 505-530, e à totalidade dos trabalhos de P. Fédida em relação a esse tema.
17 - Sobre a questão da percepção e do auto-erotismo remeto o leitor aos textos de: BRUSSET, B. (1995). " Psychopathologie de l'expérience du corps: l'hypocondrie " Revue Internationale de Psychopathologie, 20, 505-530. p. 522; FAIN, M. (1990). " A propos de l'hypocondrie ". Les Cahiers du Centre de Psychanalyse et de Psychothérapie, 21, 73-82,p.76; PRAGIER, G. (1995). " Enjeux métapsychologiques de l'hypocondrie ", in Monographies de la Revue Française de Psychanalyse, (sob a direção de M. Aisenstein, A. Fine, e G. Pragier),. P.U.F., p.73-90, p. 86.
18 - Cf. minha tese de doutoramento realizada no Laboratoire de Psychopathologie Fondamentale et Psychanalyse da Universidade de Paris VII, defendida em outubro de 1997 sob a orientação de Pierre Fédida e posteriormente publicada pela Ed. Presses Universitaires du Septentrion em 1999.
19 - Cf. A . Gibeault, "La solution hypocondriaque" in Monographies de la Revue Française de Psychanalyse - L'hypocondrie (orgs. M. Aisenstein, A . Fine, G. Pragier), Paris, P.U.F. , 1995, p. 99.
20 - Cf. o caso descrito por M. Aisenstein no seu texto "Entre Psyché et soma: l'hypocondrie " in Monographies de la Revue Française de Psychanalyse - L'hypocondrie (orgs. M. Aisenstein, A . Fine, G. Pragier), Paris, P.U.F. , 1995, p. 95.
21 - Para um estudo detalhado sobre a hipocondria, remeto o leitor a M. Berlink (org), Hipocondria, São Paulo, Ed. Escuta (no prelo) e R. Volich, Hipocondria, São Paulo, Ed. Casa do Psicólogo (no prelo).
22 - A esse respeito remeto o leitor ao trabalho de Ivanise Fontes, "Psicanálise do sensível: a dimensão corporal da transferência", Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. II, n.1, 1999, pp. 64-70.
23 - FEDIDA, P., "L'hipocondriaque médecin..." loc. cit. p.115.
24 - Op. cit. p.132. (os itálicos são meus)