A banalização da mentira como uma das perversões da sociedade contemporânea e sua internalização como destrutividade psíquica
Angela Caniato
Na contemporaneidade a mentira constitui um dos principais atributos das relações sociais, instituindo-se como valor eticamente perverso e destrutivo em todos os níveis da vida dos homens. Manifesta-se escamoteada como ideologia ou é expressa cinicamente como "mentira manifesta" (Adorno), normatizando as relações entre os indivíduos sob o signo da hipocrisia, do impedimento de trocas entre indivíduos diferentes (padronização narcísica) e seu poder de coerção promove a simbiose da pseudo-individuação entre os sujeitos. A mentira se revela/desvela sob diferentes matizes desde a ideologia da indústria cultural (Adorno), passando pela mentira manifesta, pelas sutilezas enganosas e opressivas da burocracia, por certas justificativas cínicas de segredo ou exigência de sigilo até às formas de impedimento ostensivamente disruptivas de manifestação de certas formas de desejar, sentir, pensar e agir e/ou de expressões de autenticidade e respeito à alteridade de indivíduos distintos. Assim, a mentira transforma a relação entre os indivíduos em mesmice e farsa. O seu caráter destrutivo assenta-se fortemente na cumplicidade dos indivíduos que, mesmo inconscientemente, dão adesão e reproduzem às suas diferentes expressões. Ela tem a sua eficácia garantida pela permeabilidade e maleabilidade da estrutura psíquica, em especial quando vulnerabilizada porque atingida pela violência social da mentira internalizada. Porém, a sua dimensão perversa e auto punitiva se explicita na falsa verdade com que é acolhida pelo indivíduo e porque interpretada por ele como oriunda de seu mundo interno (Freud - sentimento inconsciente de culpabilidade e fragilidade egóica). O poder de difusão da mentira entre os indivíduos se constrói por meio da banalização das diferentes expressões da malignidade que atravessa a vida dos homens na contemporaneidade. (Hanna Arendt, C. Dejours) Em âmbito mundial, a mentira produz e sustenta a atribuição de periculosidade a certos grupos e/ou nações - "os terroristas" - para justificar ações bélicas contra povos com fins prioritariamente econômicos. (Noam Chomsky).
Palavras-chave: mentira, indústria cultural, banalização da malignidade, normatização social, cumplicidade dos indivíduos, destrutividade psíquica.
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