As origens do conceito de pulsão de morte: introdução à obra de Sabina Spielrein
Renata Udler Cromberg
Este texto faz parte de um duplo projeto: uma pesquisa que venho realizando na qual analiso os documentos encontrados no início dos anos setenta e nomeados como
Dossiê Spielrein, que trouxeram a tona a psicanalista, Sabina Spielrein, através do seu diário e da sua correspondência com Freud e Jung, bem como seus escritos principais e a iniciativa da publicação de sua obra completa em português, projeto em curso através da Editora Casa do Psicólogo, previsto para 2006. A análise do dossiê e dos seus textos permite afirmar que ela foi a visionária, introdutora e inventora do conceito de pulsão de morte em psicanálise. Isto se deu no seu texto de 1911, A destruição como causa do devir, apresentado parcialmente, em sua primeira parte, em novembro daquele ano, na Sociedade Psicanalítica de Viena, da qual ela foi a segunda mulher a tomar parte e se filiar. A análise deste texto permite localizar as origens do conceito de pulsão de morte em Sabina Spielrein como antecipador do percurso freudiano e em profunda ligação com a ruptura entre Jung e Freud. Além disso, a ausência de seu nome por seis décadas das obras fundamentais da história da psicanálise aponta para um soterramento histórico que precisa ser compreendido. O escrito
princeps visionário de Sabina Spielrein foi seguido de escritos importantes, principalmente de
As origens das palavras infantis Papai e Mamãe (1922), lido no VI Congresso Internacional de Psicanálise, o mesmo em que Freud leu
Mais além do Princípio do prazer, em 1920, (publicado, então, como
Sobre o problema da origem e do desenvolvimento da linguagem) e
Algumas analogias entre o pensamento da criança, o do afásico e o pensamento subconsciente (1923), que esboçam uma teoria psicanalítica da origem e do desenvolvimento da linguagem nas crianças e da formação do símbolo. Tendo trabalhado com Jean Piaget no Instituto Rousseau, em 1920, tendo sido sua analista e tendo ambos pertencido nesta época à Sociedade Suíça de Psicanálise, sendo que Piaget leu seu trabalho
O pensamento simbólico e o pensamento da criança no VII Congresso Internacional de psicanálise, em 1922, podemos afirmar o pioneirismo destas idéias e de um solo comum na discussão das questões sobre a formação do pensamento e da linguagem que deram origem tanto à teoria piagetiana como à teoria psicanalítica proposta por Spielrein.
A verdade, que vem à tona da análise de seus três principais textos e de algumas observações feitas em seu diário e suas cartas é que Sabina Spielrein é uma teórica inovadora em psicanálise e uma pioneira em vários sentidos: primeira analista mulher de crianças, primeira a escrever sobre esquizofrenia usando este termo, primeira a escrever uma tese sobre psicanálise em uma universidade, primeira, junto com Stekel, o que ela logo reconhece, a pensar e formular o componente destrutivo da pulsão e a presença de uma força além do princípio do prazer, que busca o desprazer, que seria nomeada posteriormente por Freud de masoquismo primário. Uma original teórica, pois, embora partindo sempre de imagens, pois para ela, o pensamento parte sempre de imagens, não fica nelas. Trabalha com argumentos, desenvolve raciocínios e avança hipóteses metapsicológicas.
Palavras-chave: pulsão de morte, Sabina Spielrein, destruição, linguagem.
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