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A intersubjetividade nos processos de transmissão psíquica geracional
Olga B. Ruiz Correa
Resumo
Na medida em que os processos de transmissão psíquica se apoiam na intersubjetividade se faz necessário refletir encima de certas reformulações metapsicológicas em torno a esta questão a partir de conceitos desenvolvidos por Freud, Aulagnier e Kaes. A situação de intersubjetividade do sujeito solicita um importante trabalho psíquico derivada do mesmo vínculo o que nos leva a aprofundar em particular a articulação da pulsão e a intersubjetividade. São mencionadas no processo de transmissão psíquica as diversas alianças inconscientes e as figuras fóricas (suas funções essenciais) no vínculo intersubjetivo.Esta questões são consideradas nos processos de transmissão defeituosos vinculados ao conceito de "cripta" e no caso do delírio como herança psíquica geracional.
Palavras chave: intersubjetividade -transmissão- pulsão - cripta-
Resumen
La articulación transmisión psíquica e intersubjetividad es el eje de la contribución considerando las reformulaciones metapsicológicas del tema a partir de Freud, Aulagnier, Käes. La intersubjetividad del sujeto solicita un significativo trabajo psíquico, resaltando la articulacion de la pulsion en la intersubjetividad. Son destacadas para el trabajo clínico las alianzas inconscientes y las figuras fóricas en sus funciones dentro del vínculo intersubjetivoEstos aspectos son especialmente considerados en los procesos de transmisión psíquica defectuosa como el caso de la "cripta"o del delirio como herencia psíquica generacional.
Todos nós somos portadores de uma herança genealógica que é fundadora de nossa vida psíquica a qual se processa no nível inconsciente e no espaço do grupo familiar. Supõe uma transformação daquilo que é transmitido. O duplo aspecto singular-plural do psiquismo no grupo familiar evoca sua complexidade e seu paradoxo.
No texto Introdução ao narcisismo (1914) Freud assinala uma continuidade da vida psíquica entre gerações, reforçando questões já esboçadas no texto Totem e Tabú (1913) em torno do fato de ficar assujeitado a uma corrente geracional como elo na transmissão, como beneficiário e herdeiro do conjunto intersubjetivo. A dimensão narcísista e os processos identificatórios na base destes processos, foram também assinalados em diversas outras obras de Freud .
Uma das novas perspectivas abertas na pesquisa de esta problemática é a de uma reflexão sobre as exigências do trabalho psíquico intra e intersubjetivo impostas pela sua inscrição no geracional e na intersubjetividade, num cenário de violência de diversa ordem e origem Esta violência se perfila às vezes com altos custos nos destinos do desejo e na construção da subjetividade.
Visando uma melhor compreensão nos processos e na patologia da transmissão psíquica geracional e em particular, na perspectiva das alianças inconscientes, abordamos a dimensão intersubjetiva e sua articulação com diversas construções teóricas. Os conceitos desenvolvidos por Abraham e Torok, sobre cripta e fantasma assim como o delírio configurado em "herança" (Enriquez) nos levam a ponderar o conceito de intersubjetividade o qual, mesmo tendo suas fontes no pensamento de Freud, não é uma referência teórica muito trabalhada na psicanálise.
A clinica psicanalítica obteve novos modelos de compreensão a partir dos desenvolvimentos de Kaes articulados com os de P. Aulagnier, para trabalhar a problemática do vinculo intersubjetivo como fundamento da vida psíquica, a partir de pesquisas do grupo em situação psicanalítica e da clínica da "cura". Esta questão envolve a formação do psiquismo (sua dimensão grupal) na construção do sujeito e do eu.
Nesta perspectiva é importante considerar a função do Outro e de mais de um outro. Esta problemática foi revisada por Kaes, já presente na obra de Freud, antes da 2a tópica e da Psicologia das massas e analise do ego.
Não existe uma teoria do sujeito em Freud, porem ele concebe uma "pluralidade de pessoas psíquicas" que constituem a base da identificação.
Em 1897 esboça sua primeira definição de identificação e nos textos a seguir se desenham como já mencionamos os conceitos de transmissão psíquica, em- Totem e Tabu- (1913).
Um ano mais tarde em Introdução ao narcisismo , estuda a função do outro no psiquismo do sujeito e sua inscrição na corrente intersubjetiva -constituindo-se assim em seu próprio elo na corrente, membro e beneficiário, servidor e herdeiro de uma cadeia geracional. Em 1920 o modelo especulativo da função do outro fica delineado na Psicologia das massas.
Apesar desta preocupação inaugural e permanente da obra de Freud em torno á intersubjetividade esta questão ficou ambígua na psicanálise, na medida em que não foi construída como um conceito teórico psicanalítico propiamente dito. Ele permaneceu como objeto de estudo em particular, nas problemáticas filosóficas e psicológicas derivadas da fenomenologia e pesquisas da lingüística da enunciação.
Em especial, são a filosofia e as psicologias da consciência as que se referem ao reconhecimento do outro e sua interrogação como problema da filosofia moderna em Hegel, Husserl para mencionar dois exemplos. Nas filosofias do encontro e da reciprocidade, de Buber a Levinas, a alteridade do outro é pensada na relação com a alteridade interna.
No campo da psicanálise coexistem diversas teorías do sujeito, em Lacan trata-se da teoria do sujeito asujeitado ao desejo do outro, em particular a seu discurso.
Quando Lacan propõe uma teoria da intersubjetividade se refere aos efeitos da intersubjetividade sobre o sujeito e não em torno á consistência psíquica do vínculo intersubjetivo.
Por outro lado, o conceito de intersubjetividade desenvolvido por Kaes a partir de algumas referências teóricas de Aulagnier não pode ser confundido com as perspectivas desenvolvidas pelas corrente da interação ou inter-relação.
É a partir do espaço narcísico em que se encontram as gerações que P. Aulagnier nomeia como contrato narcisista que Kaes o assinala como conceito capital para toda tentativa de articular a intersubjetividade como problemática psicanalítica.
Este autor salienta que a problemática da intersubjetividade não pode ser reduzida a ter em conta o lugar e função do Outro ou outros (mais de um outro) no espaço intrapsíquico. Esta questão levanta o problema do reconhecimento e da articulação de dois espaços psíquicos parcialmente heterogêneos munidos cada um de lógicas que lhe são propias.
São importantes as exigências do trabalho psíquico de ligação e transformação assim como de procura de sentido imposto pela intersubjetividade na formação do espaço e da lógica intersubjetiva.
Sucintamente evocamos os termos centrais do "contrato narcisista" referido por P. Aulagnier sendo aquilo que é oferecido a criança como beneficiária do investimento narcisista de seus pais devendo esta ocupar um lugar a assumir e uma carga, permitindo-se assim adquirir este lugar que o funda, assegurando a continuidade de ser no conjunto da família e de seu contexto.
Nesta perspectiva assinalamos:
O investimento narcisista do recém nascido pelos seus pais e o conjunto intersubjetivo no qual o bebê se insere, constituem assim, uma expressão do narcisismo primário e seus derivados, dimensão presente nos contratos e pactos narcisistas. Estes pactos e alianças se situam no centro da intersubjetividade e dentro da psicanálise representam as condições constitutivas do sujeito do inconsciente tal como é assinalado por Kaes.
As alianças inconscientes se inscrevem nos processos de recalque e visam a preservação do vínculo participando da formação do nível inconsciente da construção vincular, esta dimensão de aliança comporta em si a referência de uma obrigação e um assujeitamento através de mútuas concessões.
Uma aliança como formação psíquica intersubjetiva é construída pelos integrantes do vínculo, para reforçar desde cada um, certos processos, funções ou estruturas psíquicas das quais todos se beneficiam. Esta aliança possibilita uma troca afetiva e emocional intensa e complexa que sustenta diversos registros do desejo.
Cada um de nos chega ao mundo da vida psíquica precedido pela trama de alianças estabelecidas antecipadamente. Outras alianças inconscientes se constituíram nas vicissitudes da historia de cada sujeito.
Pulsão e intersubjetividade - Apoios do psiquismo
A teoria do apoio do psiquismo ( Freud- Kaes) é importante para compreender como o outro e a subjetividade do objeto participam de forma decisiva nos destinos da pulsão considerando que a qualidade da experiência de satisfação vivenciada pelo objeto inclui a qualidade da atividade psíquica da mãe.
A formação da pulsão oral e a introjeção do seio constituem um paradigma da correlação do psiquismo com o investimento pulsional que recebe do objeto.
A fonte a da pulsão não sai só do "interior do corpo" como si ela fosse localizada num órgão num espaço do corpo.Esta fonte só fica possibilitada, na medida em que a provedora materna possa coloca-la em descoberto e fazê-la circular.
Na clínica temos observado que é decisiva a experiência de satisfação vivenciada pelo objeto do apoio, na formação da pulsão de auto-conservação e na pulsão libidinal. O mesmo acontece no caso da pulsão de morte, na instituição do vínculo e na desagregação do mesmo. Cabe considerar a pulsão de morte, além de sua determinação intrapsíquica, inclui também todas as suas vicissitudes do encontro com o objeto, não só com a experiência do mesmo mas também com a dimensão mortífera que ele transmite.
Na clínica psicanalítica nos deparamos com núcleos psicóticos em crianças nascidas durante um luto materno impossível, como a morte de um filho pequeno. O novo vínculo se sustenta na experiência de "não vínculo" e do "não sentido", transmitido na relação com o filho.O delírio como herança é outra saída na procura de sentido na transmissão psíquica geracional, M. Enriquez tem desenvolvido especialmente este tema. Ela demonstra em que forma a criança ao ser confrontada ao discurso delirante de um de seus pais, deverá gerenciar da melhor forma possível a complexidade desta violência que lhe é imposta, para não ficar esmagado pela mesma. Seguindo a linha de Ferenczi esta autora assinala que quanto mais os pais são psicóticos, maior é a identificação ao agressor, sendo esta compreendida não como defesa, senão em particular como uma reação primaria de sobrevida ao mesmo tempo em que introjeta um S.Ego arcaico e altamente repressivo. Criando-se assim uma confusão entre causalidade e culpabilidade do gênero: "sou eu a causa da loucura de meus pais"( ou um de eles) devendo ser reparada esta culpa.
Foi assinalado que a criança é herdeira e servidora do psiquismo não só das pulsões libidinais e narcisistas senão também do psiquismo não ligado afundado em si mesmo e destruidor, que recebeu de seus pais e dos vínculos destes com seus respectivos pais. A pulsão de morte se sustenta então no objeto melancólico (desenvolvido por A. Green no complexo da mãe).
Consideremos o caso de uma paciente, Arnelle, hospitalizada em psiquiatria logo de diversas crises psicóticas.
Em diversos momentos de sua existência, (37 anos) tem passado longos períodos em diversos hospitais psiquiátricos. Seu nascimento (5a e última num grupo de cinco irmãos) é precedido por diversas tentativas de aborto de sua mãe que não desejava mais filhos pela sua idade (43 anos) e "falta de interesse pela vida", Arnelle recebe o mesmo nome da avó materna - quem teve uma filha extra-matrimonial; esta falha na filiação da linhagem materna ficou como segredo de família, fazendo parte de uma aliança inconsciente dentro do grupo familiar. No processo de transmissão psíquica geracional este segredo que envolve sentimentos de culpa e vergonha, são traduzidos na função fórica (porta-sintoma) desta paciente.quem expressa um retorno do recalcado num delírio místico de redenção de pecados.A pouca disponibilidade da mãe pela sua depressão e historia vital interferiram na sua capacidade de "reverie" ou ensonhação necessária para a vida psíquica da filha. Assinalamos com diversos autores que os objetos de experiência no encontro que a mãe propõe à criança, associada a palavras, olhares, contato corporal etc. só tem o poder de criar um mondo de representações no psiquismo infantil na medida em que o psiquismo materno tem depositado neste seu investimento libidinal.
A mãe ainda nos narra que, logo após seu nascimento Arnelle permaneceu no hospital até os 11 meses, porque seu pai estava com tuberculose e ela com varizes, assim sendo pensaram como melhor solução (junto a equipe médica) que esta filha ficasse afastada da família. A mãe e mais tarde o pai a visitavam portando mascaras "para evitar possível contagio". Ao reintegrar-se ao lar Arnelle sofre de terrores noturnos reiterados, posteriormente apresenta retardos na marcha e aquisição da linguagem.
Esta paciente al igual que sua mãe (na ocasião de um surto delirante aos 30 anos) sofre de delírios místicos tendo declarado em diversas sessões "eu sou Jesucristo com seios".
Pensamos na importância da função fórica da mãe, como porta-voz do sentido do "objeto" o qual é absorvido a partir do discurso materno.
Piera Aulagnier assinalou sua própria posição com uma referência a Bion, salientando que a criança não pode metabolizar em uma representação de sua relação ao mundo senão um objeto que tenha primeiro "residido" no espaço do psiquismo materno. Na sua tradução o psiquismo da criança incorpora em si um objeto marcado pelo principio de realidade e o metaboliza segundo um objeto marcado pelo principio do prazer. Segundo P.Aulagnier esta função de porta-voz é uma ajuda a pensar conduzindo à criança a participar no grupo dentro de uma comunidade de vozes. Esta dimensão aberta por Aulagnier inscreve o trabalho da intersubjetividade na formação do aparelho psíquico.
A segunda função de porta voz assumida pela mãe é a de apresentar em nome de um outro, e de mais de um outro a função de interdição. Esta se refere a uma função central no processo do recalque. A mãe exerce esta segunda função na medida em que transporta as palavras de interdição em referencia à metáfora paterna. Nesta função ela aporta também os enunciados fundadores do discurso do conjunto e as referências identificatórias necessárias para a formação de sua identidade. A noção do contrato narcisista elaborado por P. Aulagnier se inscreve dentro desta perspectiva.
Abraham e Torok pesquisaram na clínica psicanalítica o funcionamento psíquico de crianças que se identificam com o psiquismo de um dos pais portador de uma cripta.
Esta formação foi definida por estes autores como o produto de um luto impossível, comportando um conflito e uma dissociação do eu que se traduz em um segredo "encriptado" pudendo este ser vinculado a um prazer sexual clandestino ou um sofrimento inconfessável decorrente de algum tipo de violência.* Nesta dissociação egóica coexistem duas atitudes psíquicas perante à realidade que contraria uma exigência pulsional.
O sujeito criptóforo é conduzido a simbolizar alguém presente inconscientemente em seu psiquismo sob a forma de um objeto interno que o parasita as custas de sua própia vida pulsional e o aliena de seu discurso singular.
Esta questão entre outras constituem um dos nódulos das pesquisas contemporâneas sobre a transmissão da vida psíquica entre as gerações. As teses clássicas da relação de objeto não salientaram o suficiente as conseqüências da introjeção do vínculo com o objeto animado de vida psíquica própria que supõe a experiência da relação do sujeito com a subjetividade do objeto.
São os traços traumáticos e as feridas narcisistas não elaboradas os que serão transmitidos como restos do "negativo" sem modificação e de forma repetitiva nos diversos vínculos, contendo o sofrimento que configura diversos sintomas. Só no vínculo transferencial será possível a retomada dos processos de transformação interferidos.
* Ruiz Correa O- O legado familiar- cap 4- Ed. Contracapa - Rio de Janeiro.
Olga B.Ruiz Correa, psicanalista
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