A Menina de Lá
Guimarães Rosa e O Desejo do Analista

Tania Rivera

Resumo
Este artigo entrelaça o conto "A Menina de Lá", de Guimarães Rosa, à clínica e à teoria psicanalítica, construindo uma reflexão sobre a posição do analista e, mais especificamente, o que Jacques Lacan indica como "desejo do analista".

Palavras-chave: desejo do analista; literatura.

Resumen
Este artículo entrelaza una obra literaria, el cuento "A Menina de Lá", de Guimarães Rosa, a la clínica y a la teoría psicoanalíticas, construyendo reflexiones sobre la posición del analista y lo que Jacques Lacan nombra el "deseo del analista".

Palabras claves: deseo del analista; literatura.

Résumé
Cet article propose d'entrecroiser un texte littéraire, la nouvelle "A Menina de Lá", de Guimarães Rosa, à la clinique et à la théorie psychanalytique, et construit à partir de là une réflexion à propos de la position de l'analiste et de ce que Jacques Lacan nomme "le désir de l'analyste".

Mots-clés: désir de l'analyste; littérature.

A Menina de Lá.
Guimarães Rosa e O Desejo do Analista

"Palavras apenas mágicas."
Guimarães Rosa

Nhinhinha

"A Menina de Lá" se encontra, no conto de Guimarães Rosa que leva este título, atrás da serra do Mim. Ela fala pouco, e o que diz não se entende muito - ela talvez seja seu tanto tolinha -, mas assombra ou desconcerta. "Jaboticaba de vem-me-ver", ou "tatu não vê a lua...", diz por dizer, joga as palavras ao vento. "A gente não vê quando o vento se acaba...", sentencia. Isso de que ela fala é coisa pouca.

    "Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida."1

Aquilo que se vem perdendo, toda a vida, é talvez justo o que aquela menina encarna, Nhinhinha como é chamada, simples tanto quanto enigmática e tocante. A própria poesia, vagabunda, errante e precisa a um só tempo. O que fazia a menina? Ela responde, demorada: "Eu... to-u... fa-a-zendo". "Fazia vácuos", segundo o narrador. Um pouco adiante, porém, ela mesma precisará: "Eeu? Tou fazendo saudade".

O que ela diz não é em si extraordinário ou desprezível, mas tem um efeito curiosamente questionador, faz vacilar a própria escuta, tornando-a talvez falante, ou poética, metafórica: "O que falava, às vezes era comum, a gente é que ouvia exagerado: - 'Alturas de urubuir...' Não, dissera só: - '... altura de urubu não ir.'" Entre o pasmo e a familiaridade de suas palavras, o ouvinte/leitor de Nhinhinha se agita e se torna, talvez contra sua vontade, ele mesmo poeta: "(...) O passarinho estivera cantando, e, no escorregar do tempo, eu pensava que não estivesse ouvindo; agora ele se interrompera. Eu disse: 'A avezinha.' De por diante, Nhinhinha passou a chamar o sabiá de 'Senhora Vizinha...'".

Um dia, a menina deu de fazer milagres. Nada grande ou espalhafatoso, mas o tanto de suas palavras. "Eu queria o sapo vir aqui". E entra em casa, de súbito, a rã brejeira, pulo por pulinho, direto para os pés de Nhinhinha. Num outro dia, "Eu queria uma pamonhinha de goiabada...", e pouco depois aparece na fazenda distante uma vendedora dos docinhos. A fala de Nhinhinha se pusera a desdobrar sua mágica. Faz-se o que a palavra evoca, o que o desejo delineia, o que se escreve.

A palavra é mágica - não seria esta a condição sobre a qual se constrói toda literatura, e, ao mesmo tempo, este o efeito de toda ficção?

É este mesmo poder da palavra que a psicanálise explora, e é dele que ela tira sua eficácia, sua força. Em "A Questão da Análise Leiga", Freud descreve o método analítico nas seguintes palavras: "não se passa entre eles [analista e analisando] nada mais do que isto: eles falam um ao outro"2 . Mas isso não é pouco. "Afinal, lembra Freud, a palavra era, originalmente, um encantamento, uma ação mágica, e conserva ainda muito de sua antiga força"3.

Estas palavras, porém, não estão aqui, ao alcance da mão, há que escrevê-las ainda, mesmo que se suponha que elas já estejam inscritas em um lugar - lá, em algum lugar por trás do mim, no inconsciente. As palavras "mágicas", capazes de transformar alguém, de fazer sonhar, de conformar o desejo, de pôr em movimento um sintoma, essas palavras são comuns, sem dúvida, mas também únicas, singulares. Elas vêm de lá, não se sabe bem de onde - talvez de uma menina, de tempos passados, de uma infância onde rebrilham votos magicamente realizados... Essas palavras, em sua "transloucada candura", segundo a expressão de Henriqueta Lisboa4, não carregam justamente o que um dia esteve lá, e se perdeu, para seguir sempre fazendo saudade?

A própria Nhinhinha desaparecerá, e desaparece ao longo de todo o conto, enquanto encarnação da palavra mágica. "Deixa... Deixa...", ela sorria, diante de novidade, pedido insistente ou zanga, suave, "suasibilíssima, inábil como uma flor". Ou "Suspirava, depois: - 'Eu quero ir para lá.' - Aonde? - 'Não sei.' Aí, observou: - O passarinho desapareceu de cantar..." De falar ela desaparece a cada palavra sua, e desaparecerá de fato, morrerá subitamente: "E, vai, Nhinhinha adoeceu e morreu. Diz-se que da má água desses ares. Todos os vivos atos se passam longe demais".

De cantar se desaparece... para onde se vai? Para lá, um lugar sempre em movimento, sempre lá, nunca mais aqui; um lugar que não é mais que uma promessa, uma suposição, para situar alguém que não está em lugar nenhum, que é o próprio trânsito entre lugares, a própria transferência.

Um barquinho

Um dia eu esperava um "menino" de longe, que ainda não aceitava ficar ali, comigo, um pouco, o tempo de uma sessão de análise. Ele tinha pressa de voltar para lá, para sua infância talvez, ele que já era um menino grande.

Já vinha há alguns meses me ver, mas era sempre numa suspensão que eu o esperava: virá? Ele parecia pairar sobre o tempo; impossível lembrar dia e hora de nosso encontro. Na noite anterior a uma sessão com ele, sonhei que tinha um consultório em uma cidadezinha histórica distante algumas horas de minha casa. Eu tinha que ir até lá para atender um rapaz. Chegava na cidade carregando uma menina, minha filha, e ia depositar minhas coisas na loja de uma conhecida. Tinha que me despojar de minhas coisas, parecia, para poder livremente andar pela vila. Saía de lá vestida de maneira displicente, e me punha a vagar, sempre carregando a menina. Logo percebia, com espanto, que já era hora da sessão, e pior: que tinha marcado no mesmo horário outra sessão, com outro paciente, em minha cidade. Eu tentava reencontrar o estabelecimento onde estavam minhas coisas, sem sucesso.

Buscava desesperadamente uma solução, em uma atividade mental febril. Avistei o paciente e dele me escondi, com vergonha de minha aparência e de ter uma criança nos braços. Tentei comprar uma roupa em tendas de vendedores ambulantes, quando notei que não tinha dinheiro algum.

Atordoada, acordei me pendurando com esforço em uma borda do abismo deste sonho. O sonho queria me guardar, me manter no lugar de onde ele veio. Pensei no quanto era precária a minha situação, errante, deslocada e errando numa cidade do passado, carregando minha criança... E que era assim mesmo, me sabendo precária, e só assim, que eu poderia me prestar a ir com este menino para lá... não sei bem para onde, no caminho errante de sua análise.

Ainda ao despertar, vindo à tona, lembrei de outro sonho, feito tempos antes. Eu estava em uma canoinha bem singela, no meio de um rio profundo e caudaloso, se bem que límpido, transparente. A canoa girava, girava em torno de uma espécie de cascata circular, um verdadeiro buraco no meio do rio. Provavelmente não ia cair, mas eu me sabia próxima do abismo, sempre, circundando-o, desenhando-o em meu perpétuo e precário navegar.


Na época, vi neste uma engraçada caricatura do aforisma lacaniano segundo o qual "o inconsciente é um pequeno barco". Interpretei nele uma espécie de ponto final, ponto final de análise que é ele mesmo movimento perpétuo, circular talvez, e não firme ponto de chegada. Me vi, no sonho, em uma terceira margem - para aludir a outro maravilhoso conto de Guimarães Rosa, este muito conhecido - e este terceiro lugar, que não é nem aqui, nem lá, e nem é bem um lugar, poderia indicar a instável posição do analista. Em um lugar distante da terra firme, um lugar que não é propriamente uma margem, mas é o próprio navegar, vagar, errar. Lá, na terceira margem.

Mas se o inconsciente não é mais do que um barquinho, e a análise consiste apenas em embarcar e acompanhar sua deriva, uma queda d'água no rio se esconde, perigosa, atraindo e pondo em movimento seu leito, reversa e talvez inatingível. Não é fácil se pôr à deriva. É grande o risco de se tentar manter a criança aqui - a menina em meus braços, no sonho -, de se aprisionar a menina de lá. De se fazer desta queda d'água firme âncora, umbigo perpétuo. De trancar a deriva, alcançar a margem, não dar ouvidos ao sonho que, ele, veio sabe-se lá de onde, e em vez disso procurar na teoria um porto seguro.

Mas perto deste ponto de queda, deste umbigo que se retorce e leva a um lugar impossível, buraco, só nos resta girar mais uma vez, e sempre, não com a pretensão de atravessá-lo, mas, simplesmente, deixando que o giro se faça - fazendo saudade.

Saudades

Só ousei, aqui, expor sonhos, e convidar o leitor a dar mais atenção à minha vida psíquica do que ela mereceria, por acreditar que estas formações do inconsciente podem dizer algo sobre o efeito mágico das palavras de Nhinhinha, sobre o seu "canto", suas reverberações e o desaparecimento que ele necessariamente opera, à maneira do "passarinho que desaparece de cantar". Porque me parece que o sonho - transferencial sem dúvida, tanto quanto seria um sonho do paciente com a sua analista - permitiu naquele momento que eu retomasse e assumisse a posição do analista, o que se refletiu no trabalho com este paciente.

Atualmente os psicanalistas tendem a evitar escrever "estudos de caso", e limitam-se a fazer eventuais e breves relatos de atendimentos, enfocando privilegiadamente o analisando, sua história, seu sintomas. É certo que dificuldades inerentes à natureza do trabalho analítico apresentam-se contra a escrita: não é possível transcrever fielmente o que se passa em uma análise, e a transposição em relato de um trabalho tão efêmero e delicado muito deixa a desejar. Talvez esteja também em jogo uma certa relutância do psicanalista em se expor, visto tratar-se de uma atividade em que ele se implica tão intimamente, apesar de toda a abstinência que pratica. Ou justamente graças à abstinência que ele pode praticar, pois quanto "melhor" analisado o analista, segundo Lacan, maior a possibilidade de que ele esteja em relação a seu paciente "francamente apaixonado ou francamente em estado de aversão, de repulsão"5.

Freud aponta como essencial à escrita do analista o reconhecimento do poder da transferência, ou seja, do risco que sua posição de analista implica. É tomado pela transferência com Dora que ele escreve:

    "Quem, como eu, invoca os mais maléficos e maldomados demônios que habitam o peito humano, com eles travando combate, deve estar preparado para não sair ileso dessa luta."6

Assumindo este risco, o analista se faz presente, e sua "presença" é ela própria, como diz Lacan, uma "manifestação do inconsciente"7. Tal presença diz respeito fundamentalmente à palavra do analista. O que diz ele? O que Nhinhinha diz, no conto de Guimarães Rosa, em sua presença silenciosa, é vago e absurdo, não parece se prestar a nada, está à beira da tolice. Mas isto que ela fala reacende o poder mágico, transformador da palavra, essa infância da palavra que faz de "altura de urubu não ir" a poesia: "alturas de urubuir". Diante de Nhinhinha, da presença que é sua fala, é o narrador do conto que se fará poeta.

O que a fala do analista torna presente é desejo. A fala vinda de lá (do inconsciente, sem dúvida, da transferência...) que é meu sonho talvez também possa emprestar novas palavras ao obscuro fator que Lacan denomina "desejo do analista", caracterizando-no, in extremis, como o que opera na psicanálise8. Seria tal desejo do analista capaz de suscitar a magia das palavras, explorar sua inquietude, despertar na associação livre um sujeito-poeta? Este desejo talvez clame por novas palavras, ele que é inominável:

    "Este desejo do analista, não diria que ainda não o nomeei, pois como nomear um desejo? Um desejo, nós o cercamos."9

Isto, o desejo do analista, está fora da teoria, descentrado e enigmático, e é justamente como enigma que ele pode dar ao trabalho analítico seu impulso, na medida em que não permite que este seja enfim aprisionado em fórmulas (que fariam dele uma técnica) ou na possibilidade de uma "relação intersubjetiva". O próprio trabalho analítico apresenta-se descentrado, deslocado, pois o que seria seu lastro pode apenas ser indicado, sem se deixar nunca apreender numa definição. O que define o analista como tal, o sutil ponto de referência que permitiria um certo "manejo" da transferência, não indica senão o que mais evanescente dele se apresenta: seu desejo. Ele de alguma maneira comparece na análise, na transferência, ou num sonho, como o que relatei. Mas é negativizado, tomado na abstinência, que ele pode operar. É aparecendo como despojamento de todo recurso e como inadequação do analista, em meu sonho, que o desejo pode indicar a posição do analista: sempre móvel, flutuante como uma canoa, nunca estável em uma "posição" determinada. Mas é importante reconhecer nesta leitura apenas uma dentre outras vias de associações e interpretações, sem dúvida sobredeterminadas e infinitas, que o sonho pode suscitar. Ele com certeza inclui e realiza o meu desejo, "positivo", de adquirir vestimentas, revestimentos, capazes de fazer de mim uma analista "adequada", menos precária. Mas a menina adormecida (sonhadora?), ou morta em meus braços, não me deixaria esquecer do que devo carregar, eu mesma perdida, sem milagres, sem votos magicamente cumpridos, mas portando uma transloucada candura que em todos nós pode fazer poesia.

O analista depõe seu desejo, em análise: ele o deposita e o depõe (como quem depõe suas armas), ou melhor, o desejo de que ele se reconhece sujeito o depõe, e é assim deposto, sem recursos, sem técnica, despojado como eu de minhas coisas, no sonho, que ele poderá ir para lá - embarcar na aventura de uma análise.

É justamente por ser assintótico e enigmático, mesmo ao próprio analista - pois este não detém o desejo, mas é situado por ele - que o desejo do analista desdobra-se em efeitos. Este ponto de interrogação institui o analista como tal, estrangeiro, vindo de lá, assujeitado a um desejo outro e portanto, estando de passagem, podendo enunciar, nas palavras de Guimarães Rosa, "a pura vida" das "coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo". O desejo do analista dá lugar então, primeiramente, à angústia. Ele é, segundo o Seminário IX do psicanalista francês, "sempre presumido, jamais definido, e pode por isso mesmo, a todo instante, tornar-se esse lugar do Outro de onde surge para o analisante a angústia"10. O desejo do analista convoca a angústia, da qual toma seu élan o trabalho analítico. No seminário seguinte, que porta justamente sobre a angústia, Lacan afirmará ainda que o desejo do analista

    "Me põe em questão, me interroga na própria raiz de meu desejo como a, como causa deste desejo e não como objeto; é porque é isto que ele visa, em uma relação de antecedência, em uma relação temporal, que eu não posso nada fazer para romper esta captura, a não ser nela me engajar. Esta dimensão temporal é a angústia, e é esta dimensão temporal a da análise. É porque o desejo do analista suscita em mim esta dimensão da espera que eu estou tomado neste 'algo' que é a eficácia da análise."11

Na espera que para Freud define a angústia, na expectativa diante (antes, no original alemão: vor) de alguma coisa, desde que esta espera se caracterize por uma "indeterminação" e uma "ausência de objeto"12, está não apenas o analisando, mas também o analista. A atenção flutuante não seria uma longa espera de não se sabe o quê? "Eu quero ir para lá", diz Nhinhinha. Para onde? "Não sei". O desejo do analista aponta para o que nele é errância, ou seja, uma espera que se assume como espera sem fim, de algo que nunca será um firme ponto de chegada, mas apenas o recomeço de outras intermináveis associações. Afinal, como diz Nhinhinha, "A gente não vê quando o vento se acaba...". Assim, em meu sonho, erro pela cidadezinha da história, do passado, e me sei errada.

Se na transferência o analisando suporia (como em todo amor) que o analista teria algo a lhe dar, o analista sabe, ele próprio, que nada possui. Ou melhor, ainda segundo Lacan, o analista tem de fato algo para dar, diferentemente do parceiro amoroso. Isto que ele tem não é mais do que seu desejo. O psicanalista prossegue em sua repetida pergunta:

    "O que pode ser tal desejo, o desejo do analista nomeadamente? Desde já, podemos apesar de tudo dizer o que ele não pode ser. Ele não pode desejar o impossível."13

É de forma negativa, portanto, que se delineia o desejo. Ele se situa em torno do luto14. Luto quase impossível de uma infância, luto em torno do qual o desejo gira, repetidamente, refazendo perda, contornando o angustiante buraco em seu precário barquinho. O desejo do analista está à beira da angústia. E não é carregando uma criança morta que o analista poderá trabalhar? Apenas com sua própria perda o analista pode suportar a angústia e suscitar a palavra mágica, como Nhinhinha.

    "Outra hora, falava-se de parentes já mortos, ela riu: - 'Vou visitar eles...' Ralhei, dei conselhos, disse que ela estava com a lua. Olhou-me, zombaz, seus olhos muito perspectivos: - 'Ele te xurugou?' Nunca mais vi Nhinhinha."

A estranheza ("estranhez", na pluma de Guimarães Rosa) das palavras de Nhinhinha interpela: "Ele xurugou?". A palavra tornada estranha põe o sujeito em questão, estranho - ela é marca, diferença. Esta diferença provocada pela palavra, e explorada em seus usos poéticos e psicanalíticos, talvez seja a diferença visada pelo desejo do analista, conforme mais uma fórmula de Lacan.

    "O desejo da análise não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta, aquela que intervém quando, confrontado ao significante primordial, o sujeito vem pela primeira vez em posição de aí se assujeitar."15

Visando a "diferença absoluta", é o analista que desaparece, deve necessariamente desaparecer (e está já desaparecido, em sua poltrona, atrás do divã), enquanto surge um sujeito à poesia. O analista se esvanece à maneira do passarinho que "desaparece de cantar", na fala de Nhinhinha. Ele desaparece em sua fala: a palavra se encarna, ele se subtrai. A fala infantil vem de lá, carregada de palavra mágica, e o analista não pode mais estar aqui.

Fica apenas um sussurro antigo: "Deixa...Deixa...". Nhinhinha morre. Foi "um de-repente enorme. A Mãe, o Pai e Tiantônia davam conta de que era a mesma coisa que se cada um deles tivesse morrido por metade". Sua tia revela então aos pais da menina o desejo, por esta expresso algum tempo antes, de ter um caixãozinho cor-de-rosa, com brilhinhos verdes. O pai não consente, seria como "tomar culpa", ajudar a filha a morrer; já a mãe quer realizar sua vontade. Desesperados, eles discutem, até que a mãe subitamente serena, "o sorriso tão bom, tão grande", descobre que assim há de ser, como sua filhinha queria, tinha de ser! Pois já tinha sido; a palavra de Nhinhinha já o realizara. A menina desaparece, ela que desde sempre desaparecia em seu canto, para permanecer, transformada em palavra mágica e gratuita, não tanto milagrosa: poesia. Com seus brilhinhos verdes e cor-de-rosa, com delicadeza, virá o seu caixão, como for. Deixa... Deixa... Nhinhinha continuará fazendo saudade.

Tania Rivera
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1 - Guimarães Rosa, J., "A Menina de Lá" (Primeiras Estórias), in Ficção Completa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994, vol. II, p. 401-404. Considerando a brevidade do conto, tomarei a liberdade de não indicar a página de cada citação, visando uma maior fluidez do escrito. As eventuais itálicas em citações são do próprio autor.
2 - Freud, S., Gesammelte Werke, Londres, Imago, 1955, vol. XIV, p. 213.
3 - Ibid., p. 214.
4 - Em um ensaio que, apesar de enfocar o infantil, não faz menção ao conto "A Menina de Lá": Lisboa, H., "O Motivo Infantil na Obra de Guimarães Rosa", in Guimarães Rosa, J., Ficção Completa, op. cit., vol. I, p. 134.
5 - Lacan, J., Le Séminaire Livre VIII. Le Transfert, Paris, Seuil, 1991, p. 220. Eu traduzo esta e as demais passagens de Lacan citadas abaixo.
6 - Freud, S., "Fragmento da Análise de um Caso de Histeria" (1905 [1901]), in ESB, op. cit., vol. VII, p. 106.
7 - Lacan, J., Le Séminaire. Livre XI. Les Quatre Concepts Fondamentaux de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1973, p. 115.
8 - Cf. Lacan, J., "Du 'Trieb' de Freud et du Désir du Psychanalyste", in Écrits, Paris, seuil, 1966, p. 854.
9 - Lacan, J., Le.Séminaire. Livre XI. Les Quatre Concepts Fondammentaux de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1973, p. 229.
10 - Lacan, J., El Seminário IX. Aula 18 (02/05/62), RD Ediciones Electrónicas, Buenos Aires, s/d.
11 - Lacan, J., Le Séminaire Livre X. L'Angoisse, texto inédito estabelecido pela Association Freudienne Internationale, p. 204.
12 - Freud, S., "Inibição, Sintoma e Ansiedade" (1926), in ESB, vol. XX, p. 189-190. No original, Gesammelte Werke, vol. XIV, Londres, Imago, 1955, p 198.
13 - Lacan, J., Le Séminaire Livre VII. L'Éthique de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1986, p. 347.
14 - Cf. Lacan, J., El Seminário VIII. Clase 28 (28/06/61), RD Ediciones Electrónicas, op. cit.
15 - Lacan, J., Le Séminaire Livre XI. Les Quatre Concepts Fondammentaux de la Psychanalyse, op. cit., p. 248.