|
A tentação do bem o caminho mais curto para o pior...
Caterina Koltai
Resumo:
Esse trabalho pretende discutir os recentes acontecimentos políticos que abalaram o mundo e pensar a questão fundamentalista e o retorno ao religioso como sendo uma re-gressão que se manifesta quando os cidadãos se deparam com a falha do discurso da mo-dernidade.
Resumen:
Este trabajo pretende discutir los acontecimientos políticos recientes que sacudieron el mundo y pensar la cuestíon fundamentalista y el retorno a lo religioso como uma regeresíon que se manifesta cuando los ciudadanos se enfrentam com la falla del discurso de la modernidad.
Résumé:
Ce travail a pour but se poser quelques questions au sujet des derniers evennements poliques qui ont bouleversé le monde et mener une réflexion autour du fondamentalisme et le retour du réligieux compris comme étant une regréssion qui se manifeste quand l'individu se voie confronté à une faille du discours de la modernité.
O século XX, como muitos notaram, terminou como tinha começado: com uma guerra nos Bálcãs. Os regimes totalitários do século XX que se caracterizaram pela tentação do bem representaram um acontecimento maior, coletivo e individual, posterior a metapsi-cologia freudiana de Psicologia das Massas: o colapso da civilização ocidental em sua fun-ção de proteção contra o reino da morte. Tal colapso, como bem lembra Zaltzamn (1999) passou a fazer parte da herança da realidade humana, herança de uma época em que o ho-mem deixou de ser homem para si mesmo e para o outro. Não por acaso, com suas duas guerras mundiais e seus dois totalitarismos, o século XX foi considerado por muitos como o mais trágico da história, aquele em que o progresso concluiu um pacto com a barbárie.
Parece que dos conflitos que marcaram esse século herdamos um ódio irredutível e insolúvel que não cessa de se repetir, tanto que estamos começando o século por uma nova guerra em nome de reivindicações identitárias de uma extrema violência, e que como lem-bra Benslama (1998) tem em comum com a experiência dos campos o fato de que o ódio dirigido ao outro pretende ir além da morte e quer abolir a própria noção de humano, fa-zendo do humano "outra coisa".
O que faz alguém se transformar numa bomba humana e por que o faz ? Na tentati-va de elaborar o medo e horror que sinto, voltei aos textos freudianos para quem sabe en-contrar alguma resposta. Freud dedicou, com 18 anos de intervalo, dois textos à questão da guerra, vejamos pois o que ele nos diz.
O primeiro, Reflexões sobre a guerra e a morte (1915) , foi escrito seis meses após o início da Primeira Guerra Mundial quando seus dois filhos estavam na frente de batalha e no qual ele se perguntava se a humanidade constituída no crime e pelo crime se dirigia ine-vitavelmente para a destruição.
Começa falando da desilusão trazida pela guerra, uma vez que era de se esperar que os povos desenvolvidos pudessem resolver suas disputas e conflitos por outras formas que não a guerra e que tivessem "...consciência suficiente da comunidade que formavam e tole-rância em relação às divergências, para que o estrangeiro e hostil não se confundissem mais como na Antiguidade" (p.11).
No capítulo seguinte, ao tratar de nossa relação com a morte, retoma o comporta-mento do homem pré-histórico perante ela e chama a atenção para sua ambivalência. O homem primitivo, diz Freud, era um ser apaixonado, pior e mais cruel que os animais, nada o impedia de matar e devorar outros seres de sua mesma espécie.
Aliás a história primitiva da humanidade é cheia de assassinatos, tanto que, o que as crianças aprendem na escola sob o nome de "história mundial" não passa de uma sucessão de assassinatos, nos diz ele.
O homem civilizado assim como o das origens, é inacessível à representação da própria morte, razão pela qual ao mesmo tempo em que honramos os mortos de nossa co-munidade tratamos com rara ferocidade um inimigo vencido. A este negamos qualquer dig-nidade, tratando-o como se fôssemos os únicos a merecer inscrição na linhagem de uma filiação respeitável.
Resumindo, podemos afirmar como faz Plon (2001) que nessas suas considerações Freud qualifica de ilusão, e sabemos o peso que essa palavra tem para ele, a idéia segundo a qual com a ajuda da cultura a coisa estrangeira pudesse vir a se tornar familiar, ou quase. O outro precisa ser desqualificado, taxado de bárbaro para que sua eliminação possa ser justi-ficada.
A primeira guerra terminou com oito milhões e meio de mortos na frente de batalha, cerca de 10 milhões de mortos civis e mais de 6 milhões de inválidos.
Quanto a Freud ela lhe permitirá elaborar esse monstro lógico que é o conceito de pulsão de morte e o novo dualismo pulsional entre Eros e Tanatos que atravessa tanto o processo civilizatório quanto o desenvolvimento individual.
O segundo texto de Freud "Por que a guerra" é uma resposta a uma carta de Einste-in. A correspondência entre os dois começa com Einstein perguntando a Freud se existiria alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra e se seria possível controlar a mente do homem e torná-lo à prova do ódio e da agressividade.
A resposta de Freud é muito interessante. O que diz ele? Que num primeiro momen-to o tema o pegou desprevenido, mas logo se deu conta de que não estavam lhe pedindo soluções práticas para o problema, e sim que o abordasse a partir da psicanálise. A diferen-ça aqui é fundamental, enquanto analista, Freud sabe que não tem soluções práticas a ofere-cer a quem quer que seja, nem ao seu paciente e nem para aqueles que o solicitam para que ajude a resolver os problemas do mundo. Ele sabe que não há remédio para os males do mundo e que não dá para curar a humanidade do conflito pulsional, razão suficiente para que o analista se recuse a ser o arauto do bem.
Freud afirma que o que tem a dizer pode ser resumido numa constatação básica, a de que, conforme as descobertas da psicanálise: "as pulsões humanas são de apenas dois tipos: as que tendem a preservar e as que tendem a destruir (...) Nenhum desses dois instin-tos é menos essencial do que o outro: os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos (...) A dificuldade de isolar as duas espécies de pulsões em suas manifestações reais é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-las (p. 252).
Freud coloca aqui em foco as raízes pulsionais, Eros misturado a Tanatos, o ódio e o prazer de destruição misturados ao amor. De sua resposta se conclui que a guerra é inevitá-vel, é consubstancial à própria existência da sociedade. Todo o esforço de Freud reside em mostrar a Einstein que a civilização consiste em uma série de transformações sucessivas da violência e que esta não cessa de emergir e retornar, razão pela qual toda comunidade, seja ela qual for, exerce violência permanente para constituir-se, manter-se e transformar-se.
Isso posto eu não diria que seu texto termina de modo sinistro e sim por uma forte afirmação de oposição à guerra, na medida que termina com Freud perguntando a Einstein sobre porque será que ambos se revoltam tanto contra ela e, assim como tantos outros, não conseguem aceitá-la como mais uma das dificuldades da vida. Assim após ter provado que a guerra faz parte da cultura, que é mesmo uma de suas vertentes, continua militando pela outra vertente, àquela na qual as forças que trabalham pelo desenvolvimento da civilização trabalham ao mesmo tempo contra a guerra.
Freud escreve isto em 33. A segunda guerra mundial será desencadeada em 39 e terminará em 45 deixando um balanço de mais de 35 milhões de mortos só na Europa. Du-rante essa guerra, extermínio dos judeus, ciganos e doentes mentais: mais de 6 milhões de vítimas.
No campo da psicanálise será Lacan que tirará todas as conseqüências da Segunda Guerra Mundial e daquilo que Freud desconhecia, os campos e o holocausto.
De lá para cá, vínhamos vivendo um período caracterizado por guerra entre nações, comunidades de um mesmo país, etnias, raças e religiões e agora parece que desemboca-mos numa nova forma de conflito - a guerra terrorista, na qual a civilização me parece, mais do que nunca, confrontada com os princípios de sua destruição.
Não há dúvida de que o crime, a barbárie e o genocídio fazem parte da humanidade e são o próprio do homem, e que a famosa besta imunda de Brecht nada tem a ver com a animalidade e sim com o próprio homem habitado pela pulsão de morte, o que não impede tentar entender as formas que essa pulsão de morte vem tomando e se perguntar o que que-rem os fanáticos fundamentalistas. Por que se transformam em bombas humanas e o que pode estar em jogo nesta guerra?
Antes de prosseguir, gostaria de deixar bem claro que quando me pergunto o que querem os fundamentalistas não estou me referindo apenas aos islâmicos que, aparentemen-te, foram os responsáveis pelo ataque ao World Trade Center e ao Pentágono, mas também aos judeus e cristãos. Não custa lembrar que foram os fundamentalistas israelenses, aqueles que querem recriar pelas armas o Grande Israel Bíblico, que assassinaram o ex-primeiro ministro Rabin, e que é entre os fundamentalistas cristãos, obcecados pelos bons costumes e tele-evangelização, que encontramos aqueles que invadem as clínicas de aborto, assassi-nam os médicos que nela trabalham e engrossam as milícias para quem o governo federal americano representa a própria encarnação do anticristo.
O que esses movimentos parecem ter em comum é a recusa da modernidade. Enten-dendo por modernidade o movimento que sustentou a idéia de que as sociedades recebem suas leis dos homens e não de Deus ou das tradições, e que implica na existência da ciência, saber conquistado pela razão humana e não transmitido mecanicamente de geração em ge-ração. O desenvolvimento da ciência moderna desalojou a autoridade religiosa e produziu um novo laço social onde a razão passou a ser priorizada em detrimento da fé.
Minha primeira hipótese é a de que o fanático ignora as formas clássicas de contes-tação política, religiosa e cultural e tem por único objetivo reatar o laço entre religião e po-lítica. O ato terrorista, em sua forma obscura e assassina, pode ser entendido como uma contestação global da modernidade na medida em que esta se tornou complexa demais e difícil de ser assumida.
Lacan, ao levar em consideração a subversão introduzida pelos campos de extermí-nio, chamou nossa atenção para o fato que o discurso da ciência reforça necessariamente a segregação e que o desenvolvimento tecnológico só poderia se dar em detrimento do sujei-to. Essa percepção fez com que pudesse prever o agravamento dos processos de segrega-ção, ao afirmar que o nazismo, longe de ser um acidente monstruoso, deveria ser visto co-mo o precursor de um processo desencadeado pelo remanejamento dos grupos pela ciência que faria com que: ...nosso futuro de mercados comuns encontrasse seu equilíbrio na exten-são cada vez mais dura dos processos de segregação (p.29)
O discurso da ciência, entendido aqui, como o laço social instaurado pela ciência, pretende que o outro seja igual e quer o bem do outro a qualquer custo, ainda que esse nada queira saber desse bem e se recuse a ser igual. Quanto mais se exige a igualdade mais o outro insiste em se manifestar como nada igual, totalmente diferente do que se esperava. Quanto mais o discurso científico se exercita no sentido da uniformização, tanto mais o disforme tende a se manifestar e esse disforme, estritamente particular, é o gozo, aquilo que faz do outro um outro que só me resta odiar, já que põe em xeque minha maneira de gozar que tanto idealizo.
Nesse mundo globalizado em que vivemos, uniformizado ao extremo, o disforme parece estar se manifestando na sua forma mais bárbara e retrógrada: o fundamentalismo terrorista.
Concordo com Kurz, em seu artigo no caderno Mais! de 30 de setembro que chama nossa atenção para a dialética do esclarecimento e nos lembra que a sociedade globalizada após 500 anos de sangrenta história colonial e imperialista, após um século de industrializa-ção estatal-burocrática fracassada e modernização descompassada, 50 anos de integração destrutiva do mercado mundial e sua ideologia do totalitarismo econômico ocidental prepa-rou o terreno para a resposta.
Tudo isso é verdade e é importante lembrá-lo. Acredito, no entanto, que a resposta que veio, por mais que segundo alguns seja mais do que merecida, é um retrocesso. Não consigo pensar o retorno ao religioso, a um estado anterior onde religião e social formavam uma única estrutura, senão como regressão. Reintroduzir a religião na vida cotidiana, sub-meter o mundo a Lei divina é, a meu ver, um modo de recusar a ambigüidade, a diferença e toda e qualquer heterogeneidade.
Freud já havia chamado nossa atenção para o conflito entre religião (capaz de en-gendrar sentido perante todas as questões angustiantes induzidas pelo progresso científico) e a psicanálise que não tem como preencher os vazios faltantes e trazer uma solução - mé-dica ou religiosa - ao mal estar. Com Lacan e sua reavaliação do discurso da ciência, o con-flito deixou de ser apenas entre psicanálise e religião e passou a ser entre psicanálise, religi-ão e ciência. Se a religião viesse a triunfar, afirmou ele em 74, a psicanálise desapareceria. Caso viesse a triunfar numa aliança com a ciência, não haveria como evitar o pior.
Será que não é a isso que estamos assistindo?
Benslama (1998) no artigo já citado parece ir nessa direção. Enquanto analista e muçulmano afirma que o islamismo radical, embora tente se apresentar como resposta ao discurso da ciência, integrou totalmente esse discurso e não passa de um mito identitário moderno no qual a religiosidade é um dos componentes ao lado do nacionalismo e do cien-tificismo. E quanto ao cientificismo sabemos que apesar do nome nada tem de científico já que exige um ato de fé e ao postular a transparência integral do real mais pertence ao cam-po das religiões do que da ciência.
Seus militantes, movidos por uma ideologia totalitária fundada no sagrado encaram a razão como pecado e o progresso como decadência o que não os impede de se servirem de seus produtos: satélites, vídeos e internet.
Fazer do sagrado novamente o fundamento da organização social e política não é coisa simples, o sujeito só recorrendo a essa posição extrema quando se depara com a falha do discurso da modernidade. Essa é a razão pela qual a luta fundamentalista parece assumir múltiplas formas e conhecer distintos graus de virulência, sempre em nome de Deus e de um Absoluto, num total desprezo da própria vida e da dos demais. O desejo de conquistar o paraíso, desejo impossível, tudo parece justificar. Tornar-se mestre da morte, anjo extermi-nador implica num gozo de destruição para além da própria morte.
O fanático fundamentalista, independentemente do seu credo (e aqui é interessante lembrar a cena de algumas semanas atrás onde católicos irlandeses apedrejavam crianci-nhas protestantes a caminho da escola) é movido pela paixão e pelo ódio. Pelo fato da vida ser complexa e desconcertante, o fanático escolhe "a verdade" contra a realidade, nem que seja ao preço da própria vida.
Num artigo publicado na revista Le Nouvel Observateur de abril de 1996, F. Rous-tang lembra que os homens detestam a liberdade que remete a nossa radical solidão e para evitá-la aderem à "verdade". O fanático extremista é frágil, precisa de certezas que o pre-servem das incertezas da escolha e do peso da responsabilidade. Odeia a vida porque a vida inventa, renova, desconcerta. Para não ter que existir por si mesmo apela para uma verdade que vem do outro, uma verdade cujos fundamentos não precisa verificar e se submete a um sistema de pensamento que evita que tenha que se defrontar com a realidade, nega a vida tornando-se ele próprio uma abstração.
Há no fanatismo uma cultura do sofrimento, sofrer é uma forma de existir. Ficar na complacência do sofrimento e autodestruição exacerba, através de um curto circuito, um pseudo-sentimento de existência. Sofro, portanto existo, seria a fórmula princeps que abre a porta para todos os sacrifícios (a começar pelo da mãe que como todos sabemos se define por sofrer no paraíso). O fanático que se suicida faz de sua morte a verdade absoluta em ato, o que o fascina é antes de tudo o triunfo da causa. Já dizia Lacan que: ...a oferenda a deuses obscuros, de um objeto de sacrifício, é algo a que poucos sujeitos podem deixar de sucumbir, numa captura monstruosa (...) há certamente poucos que não sucumbam à fasci-nação do sacrifício em si mesmo - o sacrifício significa que no objeto de nossos desejos, tentamos encontrar o testemunho da presença do desejo desse outro que eu chamo aqui o Deus obscuro (p. 259)
No início era o Verbo. No discurso fundamentalista a palavra se torna sinônimo de Deus e é evidente que este só pode querer o nosso bem, é pois preciso impô-lo, pela força e azar daqueles que nada querem saber desse bem. Cruzadas ou Jihad, pouco importa, o apelo à palavra divina funciona sempre como motor de massacres e guerras religiosas e é preciso de muito pouco para que o mais fiel dos devotos se metamorfoseie num "criminoso sem remorso".
Este não precisa de análise já que o objeto de seu desejo já está inscrito no lugar do sagrado e por isso mesmo inacessível à linguagem. E é justamente na linguagem que está nossa única saída: A palavra ou a morte afirma Safouan (1993).
A escolha é sempre entre a palavra ou a morte, visto ser impossível permanecer su-jeito falante e matar aquele que supostamente está à escuta da palavra. A palavra ou a morte remete à idéia de que quando o sujeito passa ao ato, deixa de ser sujeito falante e que para sair desse impasse e transformar o ódio mortífero em ciúme simpatizante é preciso passar pela palavra. Nesse sentido a análise cessa onde e quando começa a violência.
A psicanálise não é nem uma religião, nem uma filosofia e muito menos uma ideo-logia ou visão de mundo e sim como afirma Houbballah (1996) ...uma lenta ruptura, sem-pre renovada, com tudo aquilo que embarca, se aloja no discurso universal na forma de ideais, valores, slogans, falação sobre o dever e o direito.
E só para terminar, gostaria que não nos esquecêssemos que a psicanálise só pode vigorar num regime democrático por estar mais próximo das leis da linguagem. Nele o lu-gar do poder é vazio e seus dirigentes, por pior que sejam, intuem que a impossibilidade é originária e que eles não passam de substitutos de um soberano impossível. Os líderes tota-litários e religiosos ao pretenderem tudo compreender, julgar e reger, outorgando-se o mo-nopólio do saber e da violência, escamoteiam essa impossibilidade e não tem outra saída que a de se apoiar no caráter puramente formal da fé e do sacrifício.
Caterina Koltai
caty@osite.com.br
|
|