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Compreendidos à Luz da Psicologia Psicanalítica do Self1
Anna O. E Breuer
RESUMO
ANNA O. E BREUER
Compreendidos à Luz da Psicologia Psicanalítica do Self
Maria Beatriz Breves Ramos2
Fazendo uma leitura do caso clínico Anna O., de Breuer,, não levando em conta a teoria da sexualidade, mas a psicologia psicanalítica do self, o trabalho, apresentando alguns conceitos da teoria do self, compreende Anna como alguém com um enorme sentimento de vazio, resultado da falha empática de seus pais frente às suas necessidades narcísicas infantis. Por outro lado, apresenta, também, a leitura de que Breuer, impossibilitado de compreender que funcionava como um selfobjeto, onde através da sua pessoa, Anna podia sentir-se viva, inteira e coesa, teria sido vítima de uma transferência especular da forma mais arcaica, onde o self de sua analisanda incluía o analista pela fusão, através da extensão do self grandioso.
PALAVRAS CHAVES: self, ferida narcísica, transferência narcísica e selfobjeto
ANNA O. E BREUER
Compreendidos à Luz da Psicologia Psicanalítica do Self3
Maria Beatriz Breves Ramos4
Ao iniciarmos a leitura do caso clínico Anna O. de Breuer, somos acometidos por uma grande afeição por Anna O.. Uma moça muito inteligente, com grande capacidade de aprendizagem, possuidora de uma notável capacidade de intuição, acrescida de uma amabilidade compreensiva, além de possuir dotes poéticos e imaginativos. Essa afeição sentida logo na primeira página, evidentemente, é diretamente proporcional a afeição sentida por Breuer, pois as primeiras linhas de seu trabalho expressam claramente a sua admiração por Anna O..
Breuer descrevendo a sua paciente relata:
O elemento de sexualidade estava surpreendentemente não desenvolvido nela...Essa moça, cheia de vitalidade intelectual, levava uma vida extremamente monótona no meio de sua família puritana...embelezava a sua vida...entregando-se a devaneios sistemáticos que descrevia como seu "teatro privado" (...) todos pensavam que ela era uma mera espectadora (...) ninguém se dava conta de seu estado.5
Com essas palavras, Breuer nos transmitiu a essência da estrutura psicológica de Anna O.: uma moça superdotada, incapaz de exercer o seu potencial por sentir-se cerceada pelos pais que, possivelmente, refletiam apatia e monotonia para a filha.
Pensando em Anna O., não levando em conta a teoria da sexualidade mas a psicologia psicanalítica do self, podemos admitir a falha estrutural narcísica dessa moça. Ela era alguém com um enorme sentimento de vazio, devido à falta de empatia de seus pais, frente às suas necessidades narcísicas infantis. Isto pode ser observado através de uma de suas comunicações durante as suas crises, relatadas por Breuer: "todas as pessoas que via pareciam figuras de cera".6 Estas palavras, demonstravam a internalização de um selfobjeto especular frio, apático e mórbido.
A falha, por parte do selfobjeto, provocou em Anna uma ferida narcísica que a fez uma pessoa isolada e apática, tendo o seu exibicionismo sido totalmente contido, podendo, este, expandir-se apenas em suas fantasias, evidenciando, assim, uma estrutura defensiva a fim de cobrir a falha primária de seu self. Seguindo esta visão, fica fácil perceber o passo seguinte do seu desenvolvimento psicológico: por ocasião da fase edipiana não poderia deixar de viver o conflito edípico.
Como já foi visto, o complexo de Édipo só ocorreria na fase edipiana se os pais não puderem corresponder empaticamente aos filhos. A conseqüência desta falha empática, segundo Kohut, seria a angústia de desintegração.
Assim, Anna não pôde viver essa fase dentro da normalidade. Apegou-se demasiadamente ao seu pai a ponto que quando este adoeceu, e acabou por falecer, viveu a franca desestruturação de seu self.
Diante da doença e falecimento de seu pai, com quem vivenciava a fusão, Anna sentiu-se ameaçada da morte de seu próprio self. Isto foi demonstrado com a sua lembrança do período de doença de seu pai. Ao ter-se olhado no espelho, ao invés de ver a sua própria imagem refletida, viu a imagem de seu pai como uma caveira.
Seguindo a leitura do texto, encontramos claramente a comunicação de Anna sobre o sentimento de que o seu self estava se desestruturando: o seu estrabismo convergente, as paredes do quarto que pareciam vir abaixo, a contratura e a anestesia da extremidade superior e inferior direita, sendo estendida inclusive aos braços, a escuridão na cabeça, a sua incapacidade de pensar, a cegueira, a surdez, a fala somente no infinitivo comunicando que não havia o sujeito, a queixa de haver perdido parte de seu tempo, os estados inconscientes e o sono.
Por outro lado, também encontramos em seus sintomas a comunicação de Anna sobre a sua luta desesperada em sentir-se viva: as suas alucinações, a sua fala em diversos idiomas e a sua raiva. Para quem não conseguia se sentir, essas experiências, mesmo que dolorosas, sem dúvida, ofereciam um sentimento de existência.
Breuer dedica-se a essa moça de forma especial. Nas palavras de Jones: "Por essa época, devotar horas inteiras, diariamente, por mais de um ano, a um único paciente, e ainda mais a uma histérica, significava qualidades muito especiais de paciência, interesse e discernimento".7 Podemos deduzir que Jones não era o único a saber disto; com certeza Breuer o sabia, assim como também Anna O..
Seguindo a nossa leitura, observamos os resultados dessa dedicação. Anna apegou-se ao selfobjeto Breuer como o único a entendê-la, a espelhar admiração e, portanto, o único capaz de oferecer-lhe alguma tranqüilidade. Quando Breuer vai à Viena, Anna apresenta-se pior em sua volta devido à ameaça de perda do seu, talvez primeiro, selfobjeto empático. Um selfobjeto que, fechando os seus olhos a noite, a colocava para dormir, dando-lhe a sugestão de que não poderia abri-los até o dia seguinte, quando o próprio viria acordá-la, a fim de que pudesse ter uma noite tranqüila. Breuer assumiu a função de uma mãe tranqüilizadora que coloca uma filha assustada para dormir.
Podemos imaginar o quão foi difícil para Breuer quando sua esposa já não mais suportava Anna, tomada por uma falta de compreensão do que acontecia. Tão difícil que ao escrever sobre Anna, não mencionou em uma linha sequer o verdadeiro desfecho deste caso.
Breuer assustado com os ciúmes de sua esposa e com os seus sentimentos, aproveitou que Anna se encontrava bem melhor e pôs fim, antecipadamente, ao tratamento.
Breuer foi incapaz de compreender que tudo se passava no plano do desenvolvimento de uma estrutura narcísica, onde apenas funcionava como um selfobjeto especular empático, que compreendia Anna nas suas necessidades, admirava o seu exibicionismo e, conseqüentemente, que era através da sua pessoa que Anna podia sentir-se viva, inteira e coesa. Breuer não pôde compreender que se Anna estava melhorando era porque, através da internalização transmutadora com o selfobjeto Breuer, vinha construindo uma nova estrutura psicológica.
Breuer e sua esposa ao se assustarem, funcionaram confirmando para Anna o temor primário da criança diante do conflito edípico. A menina teria medo do pai se tornar sexualmente sedutor ao invés de funcionar como um selfobjeto empático capaz de receber o seu afeto. Por outro lado, a menina temeria que a mãe pudesse tornar-se hostil e competitiva, ao invés de funcionar como um selfobjeto empático capaz de aceitar o afeto da filha pelo pai com admiração.
À ruptura do tratamento, Anna respondeu com uma pseudociese que, segundo Breuer, provavelmente já vinha se desenvolvendo há algum tempo sem ser percebida. Breuer não pôde entender que se Anna se comunicava predominantemente através do corpo, tal qual antes do tratamento, através da fusão com o pai, agora, ao fundir-se com Breuer, através do tratamento, sentia-se viva e nascendo; e nada mais próprio, na sua forma de comunicação, do que o nascimento de um bebê para expressar esse sentimento.
Breuer não pôde compreender que o bebê era ela mesma nascendo da fusão com ele. Ele a deixou e chegou a desejar que a mesma morresse a fim de poupar-lhe os sofrimentos por essa ruptura, visto que Anna havia piorado muito após a interrupção do tratamento.
Apesar deste triste desfecho, Anna pode internalizar muitas coisas boas dessa relação terapêutica. Pode sair do seu isolamento e colocar em prática o seu potencial, tornando-se a primeira Assistente Social da Alemanha, fundando um periódico e diversos institutos. Pode lutar pela causa feminina e como uma forma de estrutura compensatória dedicou especial atenção a crianças cujos pais haviam falecido. Na área da sexualidade, continuou assexuada, atendendo a expectativa, pelo temor da relação, de Breuer, o que provavelmente reproduziu a situação real com os seus pais.
Quanto a Breuer, pensando que isto aconteceu ao final do século XIX e, portanto, há, aproximadamente, cem anos, o vejo como uma vítima. Uma vítima de uma transferência especular da forma mais arcaica, onde o self do analisando inclui o analista pela fusão através da extensão do self grandioso. Sempre é bom lembrar que Breuer nunca havia feito análise e com certeza também possuía as suas falhas narcísicas e os seus conflitos não resolvidos.
A forma como Breuer dedicou-se a Anna, explicitava o grau de envolvimento nessa relação, a perda dos limites da relação médico-paciente. Breuer viveu com Anna um estado fusional onde os sofrimentos de Anna eram os seus sofrimentos, as vitórias de Anna eram as suas vitórias e os medos de Anna eram os seus medos.
Se o self de Anna incluía Breuer, o self de Breuer também incluía Anna. Pensamos ser esta a causa do porque logo após a pseudociese de sua paciente, Breuer teve que, pela fusão com a sua paciente, conceber uma filha com a sua esposa, não apenas por culpa, mas, e principalmente, como uma forma de manter viva aquela que também lhe serviu de selfobjeto, Anna O..
1 - Trabalho publicado no Boletim Científico - extra - 03/91 - da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro e, reproduzido,; no livro "Introdução à Psicologia Psicanalítica do Self - a teoria de Heinz Kohut desde as suas origens em Sigmund Freud", RJ: Ed. Mauad, out/2001.
2 - Psicanalista Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro; Psicóloga, Bacharel e Licenciada em Física, com Especialização, Lato-Sensu, em Física Moderna com Base na Física Clássica pela Faculdade de Humanidades Pedro II; Presidente (98/99) da Sociedade de Psicoterapia Analítica de Grupo do Estado do Rio de Janeiro; Professora de Psicofísica do Curso de Pós-Graduação, Lato-Sensu, em Psicossomática Contemporânea da Universidade Gama Filho/RJ; Autora dos Livros: Macromicro - A Ciência do Sentir (Ed. Mauad, RJ, 1998), O Homem Além do Homem (Ed. Mauad, RJ, out/2001) e Uma Introdução à Psicologia Psicanalítica do Self (Ed. Mauad, out/2001).mbbramos@gbl.com.br ou mbbramos@unisys.com.br; tel: 00-xx-21-2256-6094; fax: 00-xx-21-2256-2329.
3 - Trabalho publicado no Boletim Científico - extra - 03/91 - da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro e, reproduzido,; no livro "Introdução à Psicologia Psicanalítica do Self - a teoria de Heinz Kohut desde as suas origens em Sigmund Freud".
4 - Psicanalista Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro; Psicóloga, Bacharel e Licenciada em Física, com Especialização, Lato-Sensu, em Física Moderna com Base na Física Clássica pela Faculdade de Humanidades Pedro II; Presidente (98/99) da Sociedade de Psicoterapia Analítica de Grupo do Estado do Rio de Janeiro; Professora de Psicofísica do Curso de Pós-Graduação, Lato-Sensu, em Psicossomática Contemporânea da Universidade Gama Filho/RJ; Autora dos Livros: Macromicro - A Ciência do Sentir (Ed. Mauad, RJ, 1998), O Homem Além do Homem (Ed. Mauad, RJ, out/2001) e Uma Introdução à Psicologia Psicanalítica do Self (Ed. Mauad, out/2001).mbbramos@gbl.com.br ou mbbramos@gbl.com.br
5 - BREUER, Caso 1 Fraülein Anna O. in: BREUER e FREUD, Estudos Sobre a Histeria, pp. 64-65.
6 - ibid, p. 68.
7 - Ernest JONES, O Período com Breuer, in: Vida e Obra de Sigmund Freud, pp.237-238
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BREUER, J.. Caso 1 Fraülein Anna O. in: BREUER e FREUD, Estudos Sobre Histeria, Vol. II. ESB. RJ: Imago Editora, 1974.
JONES, E.. O Perído Com Breuer. in: Vida e Obra de Sigmund Freud. RJ: Zahar Editores, 1979.
RAMOS, M.B.B. Anna O. Breuer, Compreendidos a Luz da Psicologia Psicanalítica do Self, Boletim Científico - extra/03/91/SBPRJ e Introdução à Psicologia Psicanalítica do Self - a teoria de Heinz Kohut desde as suas origens em Sigmund Freud: cap. 6, RJ: Editora Mauad, out/2001.
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