Compulsão - Comunicação de uma Pesquisa Clínica

Eduardo Losicer

Resumo
Esta pesquisa visa debater a possibilidade de tomar a compulsão como denominador comum a todas as patologias contemporâneas, atrelada ao consumo ditado pela lógica de mercado mundializado de nossa cultura. Seu eixo metapsicológico remete-se à teoria das pulsões em Freud, destacando o estatuto contigencial do objeto no que concerne as rsoluções de satisfação pulsional.

Esta comunicação se propõe transmitir um esboço possível, adaptado ao tema "A Clínica hoje e a produção de novos conceitos", de uma pesquisa clínica que está em andamento e, por ser uma pesquisa aberta e não institucional, se destina a todos os nossos pares, psicanalistas clínicos, que se interessem pelo tema.

Em poucos traços, podemos dizer que se recorta dentro do campo das chamadas "novas patologias", e investiga as possibilidades de considerar a "compulsão" como denominador de todas elas.

Estaria a compulsão, para este fim de século, como a angústia "freudiana" estava para o início do século? ... é a pergunta que sintetiza a problemática conceitual e clínica aberta por esta pesquisa sobre a produção de patologia do sujeito contemporâneo. Isto é, partindo da base dos conceitos da psicopatologia freudiana, os levamos até o limite de suas possibilidades na tentativa de dar conta do mal-estar atual que a clínica nos apresenta, sustentando a hipótese que considera o ato compulsivo como o efeito que melhor caracteriza este mal-estar, que já não é mais o da angústia, característico da época precedente.

Para delimitar nosso campo clínico, destacamos um grupo de diagnósticos que, mesmo sem uma definição precisa, são reconhecidos pelos analistas clínicos (a través de publicações ou por comunicação pessoal) como os que melhor representam estas formas emergentes do adoecer contemporâneo. Drogas, pânico, anorexia, depressão e fronteiriços são os capítulos que separamos para compor este grupo nosológico , com o objetivo de examina-los como produções da contemporaneidade que colocam à prova o valor elucidativo da metapsicologia psicanalítica, sendo justamente a compulsão (repetição) seu termo teórico limite.

Logicamente, tomamos o consumo, no seu sentido mercadológico, como o ato compulsivo emblemático e característico de nossa cultura de mercado mundializado, que produz permanentemente consumidores (e usuários) potencialmente compulsivos. Para estudar os objetos de consumo, os agrupamos sob as formas de consumo de imagens, informação e bens, examinando todas as possibilidades objetais disponíveis, até o extremo de considerar as possibilidades de consumo sem objeto.

Para manter a referencia teórica baseada na metapsicologia freudiana, nos remetemos permanentemente à teoria das pulsões e ao estatuto do objeto nesta teoria. Assim, utilizamos os conceitos derivados da contingência do objeto pulsional e das vicissitudes da experiência de satisfação na produção do sintoma clínico e do mal-estar cultural atual. Entendemos, portanto, que as subjetividades produzidas por esta cultura de consumo são gestadas num mundo saturado pela totalidade de objetos, imagens e informações disponíveis. Seriam todos "objetos de satisfação" -confrontando-se aqui a acepção psicanalítica (gozo) com a mercadológica (satisfação do cliente)- que suprimem a formação de angústia (falta do objeto) e, conseqüentemente, confrontam o sujeito com a ausência radical do outro (experiência de desamparo).

Desde esta perspectiva, tentamos a leitura de cada um dos mencionados grandes quadros sintomáticos de nosso tempo, testando as hipóteses permitidas pelo conceito psicanalítico compulsão e extraindo de sua aplicação todas as conseqüências clínicas possíveis.

Destes quadros, o consumo químico é, sem dúvida, aquele que melhor explicita o círculo perverso do consumo que provoca a passagem ao ato compulsivo. A produção e consumo continuo de drogas (tóxicos) como objetos de gozo, por exemplo, demonstra que as "leis de satisfação" do mercado, são superiores e incontroláveis diante das leis do Estado. O mercado legal de drogas (psicofármacos), tão crescente quanto o ilegal, merece um capitulo especial de nossa pesquisa sobre compulsividade, porque fornece um bom modelo demonstrativo das possibilidades "auto-substitutivas" do objeto: um psicofármaco de última geração tende a substituir o anterior numa escalada que, logicamente, não tem fim.

Anorexia e bulimia também podem ser entendidas como patologias compulsivas de consumo (comer nada, comer tudo), na medida em que apresentam uma posição radical do eu diante do objeto-alimento. As examinamos como exemplo da força compulsiva provocando a alienação do corpo e das próprias condições de vida.

Do transtorno de pânico estudamos a clínica do terror súbito e do característico "sentimento de morte iminente", nas suas possíveis relações com a noção freudiana de desamparo.

Relacionamos ainda como novas patologias às depressões que nos permitem analisa-las como "clínica do vazio", que se constitui quando o sujeito é colocado diante da experiência do vazio objetal, ou seja; para além das possibilidades do luto pela perda do objeto (clinica da melancolia), o sujeito fica exposto ao trauma e aos mecanismos repetitivos.

Os chamados casos fronteiriços e as patologias narcísicas nos permitem acompanhar as vicissitudes do eu narcísico diante deste mundo de objetos excessivos, ausentes e repetitivos, assim como os transtornos identificatórios resultantes.

Ainda dentro deste conjunto de quadros, analisamos certos comportamentos potencialmente viciantes (compulsão por trabalho, tecnologia, relações virtuais, etc.) relacionados com as ameaças que lhe são próprias (desemprego, exclusão e isolamento), como sendo parte desta nova clínica.

Examinamos outras manifestações clínicas emergentes (inibição do desejo, fascínio, impostura, etc.) à luz da lógica descrita como própria do pathos contemporâneo.

Não cabe nesta síntese referirnos ao tecido conceitual (freudiano ou não) que é necessário construir/desconstruir para dar conta da nova clínica encontrada nos consultórios, nas instituições e na vida social-cultural. Nos contentamos por hora em apontar a pesquisa como uma proposta de leitura que seja evocativa de uma base conceitual reconhecível e compartilhável entre analistas clínicos, para ser tomada como ponto de partida de um trabalho coletivo que com esta comunicação deixamos aberto.

Agosto de 2001