Construções em análise na transferência (*)

Maria Luiza Scrosoppi Persicano (**)

Resumen
Este artículo trata de la construción narrativa en la clínica y en la produción de la teoría. La autora reanuda el concepto freudiano de construción, como mas apropiado para describir la tecnica psicoanalítica, resignificandole desde la narrativa, y denominandole construción en analisis en la transferencia. Evoluciona para el concepto de construción historico-narrativa, aquella del ángulo del narrador en el campo analítico ("paciente", analista, escrito de "caso"), diferençandole de la reconstrución de la historia y de la interpretación.

Palabras llave: Narrativa, construción, campo analitico transferencial, yo-narrador,

construción historico-narrativa

Résumé
Cet article traite de la construction narrative dans la clinique et dans la production de la théorie. L'auteur reprend le concept freudien de construction, comme plus approprié pour décrire la technique psychanalytique, en le resignifiant dès le récit, et en le denommant construction en l'analyse dans le transfert. Il évolue vers le concept de construction historique-narrative, celle depuis l'angle du narrateur dans le champ analytique ("patient", analyste, récit de "cas"), en le différenciant de la reconstruction d'histoire factuel et d'interprétation.

Mots clés: Récit, construction, champ analytique transferentiel, moi-narrateur, construction

historique-narrative

Abstract
This article goes into the question of narrative construction in the clinic and in theoretical production. The author uses Freud's concept of construction as the most suitable to describe the psychoanalytic technique. But the author re-signifies the concept based on narrative, and calls it construction in analysis of the transference. It has evolved to the concept of historical-narrative construction, from the point of view of the narrator in the analytic field ("patient," "analyst," and "written case"). The author then distinguishes the concept from the reconstruction of factual history and from interpretation.

Key words: Narrative, construction, analytic transferential field, ego-narrator, historical-narrative construction

Começarei este meu texto, endereçando-o a um paciente antigo, dos meados dos anos setenta, Walter, e aos que como ele se esforçam por tentar construir uma narrativa para a própria dor e, com ela, história e, ainda, tomando emprestado a dedicatória de FERRO (1998) _ "a todos os que sabem 'contar histórias' tecendo os fios das verdades". Esta minha narrativa é um falar da clínica que não pretende se transformar num "imaginário falar do paciente, onde o analista não estaria incluído" mas , sim, um "escrito que pretende dar testemunho da clínica" (C. da APPOA, N º 80, 2000) e produzir com ele teoria.

Penso que é construção narrativa de um caso e não um relato de caso é o que se vê nos casos clínicos de FREUD:

"Eis aqui, portanto, a infeliz história dessa moça orgulhosa, que queria amor. Incompatibilizada com o seu destino, amargurada pelo fracasso de todos seus pequenos esquemas para o restabelecimento das antigas glórias de família, com todos os que amava mortos, distantes ou separados, despreparada para refugiar-se no amor de algum homem desconhecido, vivera dezoito meses numa reclusão quase completa, não tendo nada a ocupá-la senão os cuidados com a mãe e com as próprias dores"(1885/1974, pg.193).

O próprio FREUD reconhece tal caráter narrativo nos seus escritos de caso:

"...ainda me surpreende que os históricos de caso que escrevo pareçam contos e que, como se poderia dizer, eles se ressintam do ar de seriedade da ciência. Devo consolar-me com a reflexão de que a natureza do assunto é evidentemente responsável por isso, antes de qualquer preferência minha". ( FREUD, 1985/1974, pgs. 209-210).

Considero que é cada vez mais reconhecido o lugar da construção narrativa na Psicanálise, na prática clínica e na produção da teoria, por todas as escolas de Psicanálise. A escrita de um "caso" deve ser vista como construção narrativa a partir do caldo transferencial em que está mergulhado o par analítico (campo analítico).

"Logo, não é romance ou relato da vida do sujeito que está em jogo, não se trata de um enredo. Se o analista fixa sua escuta no enredo, fatalmente se enreda. A história da doença, a história do tratamento põe em cena uma fala em transferência a ser posta em ato na escrita. O estilo de FREUD tem essa marca." ( FROEMMING, 1998, pg.125).

Vejo, então, o "caso" como uma narrativa, e a narrativa como o protótipo, por excelência, de construção. O "caso" é uma construção, não procede de um relato de caso. O "caso", então, é uma Metapsicologia potencial, desde que submetido ao testemunho, à narrativa, à construção por parte do psicanalista que após ter estado mergulhado no campo transferencial, e nas construções narrativas feitas pelo par analítico, durante a análise, se distancia dela no tempo cronológico, construindo o caso em um novo trabalho de criação, de construção, agora metapsicológica . Por isto a narrativa-testemunho do "caso" pelo psicanalista tem mais valia para a construção metapsicológica quando já transcorreu um tempo cronológico do atendimento. O '"caso", um conjunto inicialmente vazio, "funcionaria como este objeto que nos olha e que interpela a teoria".(SOUSA., 2000), para ser com ela construído.

Neste artigo, enquanto construo aqui o caso Walter a partir de escritos do próprio "paciente", compondo com ele e através dele o tema das construções em análise, fica claro que "a matéria prima de um caso não é um conhecimento. Mas o que resiste ao saber, a técnica e a teoria." (FERNANDEZ, 1999, cit. SOUSAS< 2000, pg.17). Entendo que o "caso" não é um conhecimento produto de mera "cognição intelectiva" mas da "cognição afetivo-intelectiva" do psicanalista (PERSICANO, 2000, pg. 18), é o que resiste da memória afetiva do campo transferencial no psicanalista.

"As verdadeiras lembranças devem proceder informativamente muito menos do que indicar o lugar exato em que o investigador se apoderou delas. A rigor, épica e rapsodicamente, uma verdadeira lembrança deve, portanto, ao mesmo tempo, fornecer uma imagem daquele que se lembra (no caso o analista, no contexto de nossa formulação, assim como um bom relatório arqueológico deve não apenas indicar as camadas das quais se originam os achados, mas também, antes de tudo, aquelas outras que foram atravessadas anteriormente".(BENJAMIN, 1995, cit. SOUSA,2000).

Usarei, entretanto, aparentemente um caminho contrário, tomando lembranças documentadas, um texto manuscrito pelo paciente Walter, jovem usuário de drogas, em sessão. Enquanto construo o caso, a partir do que resistiu (de resistência e de permanência) em mim.

O tema das Construções em Psicanálise , assim como proposto por Sigmund Freud (FREUD, 1937/1975) gerou por muito tempo polêmicas entre os psicanalistas.

O conceito de construção e seu uso têm sido revisto, redefinido, melhor dito ressignificado a partir da evolução da pesquisa clínica psicanalítica, de acordo com as novas experiências da humanidade e com a constante mudança no modo de ser e pensar do humano da era virtual.

Desde Freud, o psicanalista narra uma verdade subjetiva e, em linguagem atual, uma realidade virtual, que são as "narrativas" do Inconsciente alienadas do Eu preconsciente-consciente. E quando o Inconsciente ainda não constrói narrativas?. Como fica a construção a ser feita pelo psicanalista e pelo par analítico? Muitos tem tratado desta questão, sem entretanto falarem explicitamente de construções.

Das primeiras construções históricas de fatos acontecidos logo passou Freud para construções de fatos fantasiados do paciente, já então com toda a égide virtual de verdade psíquica presente na noção de fantasia, sem a presunção de verdade objetiva. Entretanto, passou-se a denominar toda construção deste tipo como interpretação. Falou-se, cada vez mais, em interpretar a fantasia inconsciente. Teria sido melhor denominado como construção, narrativa de fatos fantasiados, construção de uma história virtual própria a ser vivida na transferência e não interpretação de uma fantasia já pronta.

A ampliação do conceito de interpretação dado por Freud vulgarizou tanto o uso do termo interpretação que ele perdeu seu sentido original relacionado a um elemento isolado do material e não conseguiu abarcar satisfatoriamente todo o implícito no termo construção. E marcou a Psicanálise com a busca de um Inconsciente esperando para ser interpretado. Discriminar interpretação de construção, retomando o caminho freudiano é imprescindível, por razões mais de fundamentação metapsicológica do que de precisão técnica. Aqui podemos voltar a FREUD, em "Construções em Análise" (1937/1975):

"Se nas descrições da técnica analítica se fala tão pouco sobre construções, isso se deve ao fato de que , em troca, se fala nas interpretações e seus efeitos. Mas acho que construção é de longe a descrição mais apropriada. Interpretação aplica-se a algo que se faz a algum elemento isolado do material, tal como uma associação ou parapraxia. Trata-se de uma construção, porém, quando se põe perante o sujeito da análise um fragmento de sua história primitiva, que ele esqueceu, aproximadamente da seguinte maneira: 'Até os onze anos de idade, você se considerava o único e ilimitado possuidor de sua mãe; apareceu um outro bebê e lhe trouxe uma séria desilusão. Sua mãe abandonou você por algum tempo e, mesmo após o reaparecimento dela, nunca mais se dedicou exclusivamente a você. seus sentimentos para com ela se tornavam ambivalentes, seu pai adquiriu nova importância para você...'e assim por diante".( ,pg. 295, grifo meu ).

Há os que tomaram ao pé da realidade objetiva este na verdade primoroso modelo de construção dado por Freud, que narra uma verdade subjetiva, as "narrativas" do Inconsciente alienadas do Eu preconsciente/consciente. Quando o Inconsciente ainda não constrói narrativas, quando o Inconsciente ainda não se constitui enquanto o lugar do recalcado, a construção a ser feita pelo psicanalista e pelo par analítico é algo a ser criado, construído pela primeira vez, como uma obra de arte pela dupla, enquanto vai se constituindo o verdadeiro Sujeito da análise.

Hoje a Psicanálise busca um terceiro Sujeito analítico (OGDEN,1996) a ser construído, através do qual o eu-narrador pode se manifestar ou até se constituir. Evoluiu-se para a construção narrativa, ou seja aquela do ângulo do narrador. A construção do narrador "paciente" que se esforça por construir uma história para sua dor psíquica. A construção do narrador psicanalista, quando o psicanalista é narrador da história da dor psíquica deste outro, o "paciente". Ainda, tanto o "paciente" narrador como o psicanalista-narrador de um outro-aqui-agora-na-relação-comigo, ambos constroem narrativas desde dentro do "campo bipessoal da análise" (FERRO, 1998) ou a partir do lugar do "terceiro analítico" (OGDEN , 1996).

A matriz mais profunda desta necessidade basilar da espécie humana que é a narração é encontrada no medo, no terror de alguma coisa mais primitiva, anterior ao que foi recalcado. A importância e função do narrador e da narrativa é dar respostas de sentido a medos e angústias primordiais, que surgem "toda vez que nosso narrador interno é colocado à prova além da conta" (FERRO, 1998, pg.175). O medo e angústia primários surgem na ausência de uma narrativa histórica para nossa dor, quando não há ainda forma de palavras para uma história nunca narrada, nunca representada, nunca antes mentalizada. Por isto espera por ser construída, e não está ainda lá para poder ser interpretada. É pela transformação narrativa que medo e angústia deixam de surgir como descarga maciça ou como sintomas psíquicos, pois se tornaram histórias-ficções, como poesias, filmes, contos , pinturas... A necessidade de narrar , ou de criar ficções historicas tem função elaborativa em relação a angústias e medos, sendo a narração uma resposta humana ao medo, ao terror e à angústia primitivos, colocando em narrativa conteúdos até então não submetidos ao recalque originário:

"Sob este ponto de vista, proponho reformular a gênese do medo: temos medo quando estamos sós e não suficientemente preparados diante de proto-experiências emocionais intensas demais...Esclarece-se agora a importância do narrador, o narrador dos contos de fadas, Virgílio que acompanha Dante nos círculos infernais e o especial acompanhante narrador que é o analista." (FERRO, 1998, pg-176 )

A mente pode ter um fracasso circunscrito em suas capacidades para operar narrações transformadoras sobre os próprios protofantasmas (fobias psiconeuróticas por exemplo). Ou, em casos mais graves, o fracasso da possibilidade de mentalizar os fantasmas é ainda maior. Esta é a posição de FERRO, a mesma, no meu entender, de vários autores de diversas escolas, cada qual com sua terminologia (WINNICOTT, HANNA SEGAL, MELTZER, GREEN, AULAGNIER, JOYCE MCDOUGALL, MARTY, SILVIA BLEICHMAR), que tiveram o trabalho de descrever a difícil clínica e a técnica diferencial na psicanálise dos tipos de pacientes cada vez mais numerosos no mundo de hoje, casos limite por excelência, organizações narcísicas no limite entre a estrutura neurótica e as estruturas psicótica e perversa.

"O que acontece quando a função da mente de pictografar narrativamente as proto-emoções fracassa?" pergunta FERRO. Acúmulos de impensabilidade. Exemplo de quando o virtual se concretiza, quando o campo .entra em colapso e as comunicações do paciente perdem o seu estatuto de virtualidade e são "tomadas" como se fizessem parte da realidade externa e não da realidade funcional do campo. Às vezes tomam a forma de alucinações. Outras vezes, vão para a realidade "externa" corporal, quando o corpo é externo ao psiquismo por falha no processo de construção da integração psicossomática, com défice ou excesso defensivo do mental, provocando afecções psicossomáticas. Ou então afloram em comportamentos sem espessura de pensamento, como as atuações caracteropáticas, delinqüenciais ou toxicômanas.

A possibilidade de análise exige uma tecedura narrativa de tudo o que não foi, até então, possível de metabolizar; não importa em qual dos dialetos da dupla analítica se dará a construção narrativa. Tal transformação pode ser feita pelo dialeto histórico-reconstrutivo, ou pelo do fantasmático do mundo interno, ou pelo do mito da relação aqui e agora e da interpretação da transferência como projeção no analista, ou, enfim, pelo dialeto do nível emocional do campo analítico que necessita ser narrado através de personagens e compartilhado através de uma história.. Quanto maior a dificuldade em narrar do "paciente", mais temos de tender ao último dialeto, que denominarei histórico-construtivo.

Nestes casos a narração podemos ter uma tentativa de narrativa, construída pelo próprio "paciente", uma tentativa desesperada de dar conta da dor psíquica da angústia primordial. Ou uma narrativa da qual ainda não há Sujeito para se apropriar dela. Cabe ao analista acompanhá-lo no processo de construção.

Tomemos, como exemplo, uma tentativa de narrativa, manuscrita em sessão, pelo paciente Walter. que escreveu o texto que denominei Escrito n.º1. Walter, nos primeiros anos de tratamento, era freqüentemente tomado, em sessão, como de há muito em casa, de um anseio compulsivo por escrever de modo a se aliviar de violência da angústia que o tomava, "para as coisas ficarem mais claras".( sic ), o que no meu entender da época o vinha mantendo fora de uma ruptura psíquica radical.

Escrito n.º 1 (1).

E quando o corpo "não obedece"? não

Há algo segurando _ impedindo a carreira.

_ um rapaz me disse, e eu não repliquei naquele instante porque não havia trazido à tona do entendimento a minha posição sobre o tema em questão da ocasião. Agora, sim.

Falávamos sobre (psicologia e sobre) psicanálise e sobre psicologia.

Objeto indefinido

ciência / a indefinição de seu objeto a técnica ( seta apontando para apalavra psicanálise ) : os abusos do poder (seta) e então a frase "... querer fazer um indivíduo se esquecer do passado; de coisas que ele gosta."

lobotomia controle ( seta para a teia)

A TEIA

A lei é uma coisa fundamental! Tudo aquilo que realmente é "de lei "é dos bens mais caros aos homens.

o que é a lei? é o que pode ser tomado como norma de ação em qualquer situação que esteja sob vigência de tal lei. desenvolver e explicitar alguns pontos passíveis de discussão.

Literatura. Não importa nada nada saber, por antecedência, sobre qual curso este - ou - aquele que farei na escola; importa agora, sim, ler, ler, ler, sempre que possível, e ler disso e daquilo, sem deixar de mencionar a importância dos grandes clássicos.

A EVOLUÇÃO ESPIRITUAL É REAL UM FATO

E LÁ VOU EU AOS GREGOS, OS GRANDES SÁBIOS.

estou em todos os sentidos retomando os fios soltos da meada. . Desde a origem.

A confusão do presente. É preciso desfaze-la.

Ah, AH, GRÉCIA, GRÉCIA, por que fostes sucumbir aos poderosos romanos? Se sobrevivieis ( parte ilegível pois muito rabiscada ) talvez não

Provavelmente o pepino que hoje teríamos não seria da mesma qualidade do que o é realmente.

De que fala Walter? De poder pensar a verdade, a verdade que, em grego, é ALETHEIA, de A privativo, mais LETHE, o esquecimento. Walter fala do "não esquecimento", do que precisa ser "lembrado", ou melhor testemunhado como experiência, portanto conhecido como representação, enfim narrado pelo Sujeito a si próprio, e ao outro, e não apenas inscrito como mera vivência afetiva. Walter fala de algo que sucumbiu...a Grécia sob os romanos...a história antes da lei de .Roma. O que sucumbiu foi a história de Walter a ser transcrita no e pelo recalque. A indefinição do objeto. A história que ficou inscrita em afetos não metabolizados, que ficou expressa apenas em ação. Esta história de inscrições que necessitam ser decodificadas pela narrativa testemunho de um Sujeito Walter, para poder ser daí de fato esquecida e não agida. E continuar podendo ser lembrada como narrativa ficcional A história de Walter, a ser construída como história, para ser recalcada, esquecida. Só se pode de fato esquecer o que se pôde um dia testemunhar, contar, narrar. Se apenas vivenciar sem dar testemunho a si, e ao outro, nada ficará narrado, só agido, atuado.

Na tradição grega, o que merece ser louvado, lembrado, pelo poeta são os fundadores. O que merece ser louvado, o que precisa ser testemunhado por nosso Eu são nossas vivências fundantes, sob a forma de construções, ficções históricas,

verdades constituídas deste modo, referendadas como verdades por um Eu e refendando como verdade este mesmo Eu, que se reconhece na história construída por ele enquanto se constitui. Esta história, por si só, é construtora de um Eu enquanto ela história se constrói. Ao mesmo tempo, esta história é construída na medida da possibilidade do Eu que vai se construindo com a história. E quando o Eu é incapaz de dar testemunho narrativo de sua história pessoal ficcional, que resta como objeto indefinido, como no caso aqui pensado, caberá sobretudo ao psicanalista a tarefa de construção narrativa, na transferência.

O caso Walter relata o processo de construção de uma narrativa para se libertar da angústia, na transferência, de ter a mente controlada e lobotomisada, a ameaça de um vazio representacional vivido, neste caso, como intrusão do outro. A posição da analista aqui era, nestes momentos iniciais do tratamento, não só a de acolher e a de vivenciar, muitas vezes pelo paciente, sua dor de terror, mas , sobretudo, a de nomear, num início de trabalho de construção, esta sua busca e esforço por conseguir tornar as coisas claras para ele. Depois, aos poucos, aos fragmentos de construção, que procurava um fio para tecer o que se lhe passava de modo a poder me contar como fazia, sentia e pensava. Para garantir que marcava direito o que queria que eu soubesse do que se lhe passava e esperava que eu o ajudasse nisto sem me intrometer na sua vida e nos seus pensamentos ( como sentia mãe e o pai ). E que para isto as escrevia. Esta interpretação da transferência eu não lhe dava. Enquanto isto falávamos, construindo ali na sessão, a respeito do que escrevia e de como ficava construído para nós dois o que ele havia dito por escrito.

Escrito n.º2 (1).

Histórias

    _ ele tinha
    _ ele tem calças velhas, de brim.
    _ velhas, "fora de época"?
    _ que besteira, sô. calças velhas apenas.
    _ é, e camisas, poucas e velhas, tembém: o mais, são roupas apertadas ou largas, e ele ,não gosta de usar roupas incômodas.
    _ é , apesar de tudo, ele tem muito amor pela vida, que corre ( inclusive ) por seu corpo.
    _ como, "apesar de tudo "?
    _ eu digo, a vida dele.
    _ como assim, a vida dele?
    _ a vida social dele, eu quero dizer.
    _ aí é que está: ele poderia ser de tudo, ele pode ser, e no entanto, o que ele é?
    _ e o que você acha que ele é?
    _ bem...eu posso achar que ele seja muitas coisas, mas agora eu estou achando que ele é apenas um menino trapalhado, sem maturidade num mundo que é mais do que ser diplomado em ser astucioso. Olha,basta basta dizer que ele atravessou sua época toda de crescimento e de conhecimentos novos, com os olhos completamente cegos
    _ isto é verdade?
    _ é uma forma de expressão; digamos, os olhos do espírito.
    _ outra "forma de expressão", suponho.
    _ ei, espere aí, meu caro: não vamos agora nos remeter a uma discussão filosófica epistemológica, não neste momento.
    _ e por que não?
    _ ora porque é evidente que não é necessário, agora; não se esqueça que estamos falando a respeito dele, e ele é quem tem a espa o papel e a caneta nas mãos.
    _ ah, sim; êle.
    _ bem, onde é que eu estava...ah, sim, na cegueira do espírito. E então, é isso, e há toda uma época na vida dele que só surge em pequenos fragmentos: ele age assim,
    _ assim, como?
    _ como se vive quando se está escondendo de si mesmo alguma algumas coisas importantes.
No Escrito n.º 2, vê-se que o processo de estabelecimento da capacidade narrativa no paciente, num início de incorporação primitiva do par analítico e da função analítica. Este escrito foi percebido por Walter como uma conversa entre duas pessoas a respeito de um ELE do texto que era ele próprio. Ainda não podia escrever EU. Posteriormente Walter terá, paulatinamente, uma redução de seus escritos em sessão, passando a escrever textos em casa, com forma literária, alguns revisados e datilografados, a partir de seus sonhos noturnos, que passaram a substituir suas alucinoses por drogas e seus erráticos devaneios diurnos, antes muito mais intensos e freqüentes. Passa, então, a usar EU. Inaugura-se o Eu-narrador no paciente.

O texto abaixo foi extraído do Escrito n.º3, seis laudas datilografadas, trazidas à sessão por Walter, em inícios do terceiro ano de tratamento, escritas a partir de um sonho noturno, guardadas em casa e trazidas a mim algum tempo após ter sido escrito.

Escrito n.º3 (1).

( Decerto você já caminhou )Eu estava caminhando por um bosque, uma mata, ou mesmo uma floresta; então ( você já terá ouvido) ouví o grito das aves, o sussurro de folhas e vento, coisetal...

A imagem se definiu aos poucos, eu (então) pude me ver justamente com as pessoas mais ligadas afetivamente a mim, e nós estávamos _ um pequeno bando _dependurados nos galhos de uma árvore enorme, e pulávamos de galho em galho, e subíamos e descíamos, brincando naquela imensa árvore, e seu tronco era grosso e retorcido, como se as suas raízes não se contentassem com o debaixo da terra, e subissem para abraçar (riscado ininteligível) o seu tronco, enrolar-se nele, e de repente tudo começou a girar, primeiro lentamente, depois mais depressa, e (riscado ininteligível) a terra se abriu num lodo, e tudo ficou marrom marrom marrom marrom, e o lodo agora ( se trans ) se transforma em águas barrentas, num redemoinho, e no meio disso, girando, pedaços de tronco onde eu me apoiava, e algo como uma grande plataforma de madeira, redonda e achatada, foi se tornando mais próxima, eu sabia que _ fatalmente _ iria parar em cima dela, aquela certeza anterior que a gente às vezes vê nos sonhos.

Eu estava então meio oculto pelas folhagens, observando uma estranha tribo, numa estranha cerimônia: (pareciam) eram, de início, negros africanos, e estavam sentados, próximos a suas cabanas, e no meio do grande círculo (2) havia um buracão, escuro e fundo, e no fundo e (fo) vermelho de fogo brilhava. Ao lado do buraco havia um pequeno braseiro circular, parecia uma churrasqueira, e ao lado disso estavam sentadas uma menina e uma mulher. (acho que era uma mãe)

(algo como um sentimento atávico tomou conta de mim, algo como uma)

Sentí algo como uma volta ao meu passado atávico, algo como um encontro com as origens, e aquilo se tornou muito importante para mim.

Notei que toda atenção daquele povo estava voltada naquele momento para o pequeno braseiro, eles estavam a adorar o fogo.

Surgí em cena, certo de que não havia nada a temer, era como se eu pertencesse a eles, era um povo lindo, e agora já não eram apenasd africanos, e sim um mixto de negros cigsnos mongóis (chinos) índios latinos tudo misturado, num cenário de tribo, de natureza, e do passado e eu me integrando com eles, dois tempos distintos, anacrônicos, mas profundamente ligados...

Senti que ali havia algo que eu devia fazer, o fato de eles cultuarem o pequeno braseiro enquanto que, logo ao lado, no grande buraco é que estava o grande fogo, a própria divindade; aquilo foi para eles como um grande acontecimento, e era _ uma modificação estrutural num ritual, um salto no tempo, uma mudança no próprio pensamento, uma contribuição valiosa, ousada, etc...

Eu já ia começar a atirar as brasas do braseiro no grande buraco quando a meninazinha se aproximou e me disse, mais por gestos que por palavras: "deixe, vocêe vai queimar as mãos, deixe que eu faça isto". _ e jogava, e pegava as brasa com as mãos, mas suas mãos não queimavam, e eu estava encantado com aquilo tudo, aquele povo maravilhoso.

Aí a menina começou a falar com a mulher a seu lado (parecia ser uma mãe), e falavam num dialeto estranho.

Então aquela linda garota voltou-se (para mim) de novo para mim, com o sorriso mais lindo desse mundo e a maior naturalidade, começou a despir-se e falou: "você quer brincar, vamos?"......

Este texto é longo e a partir daí ( início da folha 3 ) prossegue com material edípico e transferencial, para encaminhar-se, através deste novo cenário, desta nova organização psíquica que se insinuava, pronta a se definir após o encontro das origens, capaz de sonhar durante o sono e de criar em vigília, através dos conteúdos angustiantes e ameaçadores experienciados agora em nova dimensão.

...e eu comecei a sentir a impressão de que mais uma vez iria acontecer uma daquelas "sessões da verdade", que eu sempre detestara mas que sempre me atraiam, como se eu tivesse que sentar no banco dos réus cada vez que se reunia muita gente (folha 4). Senti que não adiantava insistir porque estava lutando contra minha própria cabeça.( idem, folha 6)

O trabalho com este paciente durou quatro anos, quando decidiu interromper o tratamento. Só hoje reconheço o trabalho de construção na transferência pelo par paciente-analista mergulhados no campo transferencial. Reconheço, ainda, a evolução na capacidade de simbolização e de mentalização preconsciente do paciente, enfim da capacidade narrativa. Também reconheço que utilizei para este caso, poucas interpretações de fantasia inconsciente e da transferência. Considero, hoje, que este paciente pode permanecer em análise por eu ter podido ser seu acompanhante narrador nas construções de histórias ficcionais como ele me pedia, sem por isto ter saído do lugar de psicanalista. Foram necessárias contruções "históricas" ficcionais, apenas construções nomeativas no início, depois construções narrativas simples, a psicanalista utilizando em suas construções o próprio material narrativo do paciente, inclusive de suas narrativas escritas, e raras interpretações de qualquer tipo. Só assim foi possível o início do estabelecimento do recalque e de uma mudança na organização psíquica.

Escrito n.º4 (1)

Cruzo cipós à procura de palavras. É que palavras são muitas, são tantas, que se trançam. Como cipós formam teias. Teias que se enredam, que conduzem, que mostram, que ocultam, que enriquecem, que floreiam, que despistam, que às vezes matam, que fazem amar, que consomem, que são consumidas...importa a trama da teia, o artezanato da aranha, da abelha, do casulo, ou da linha. A todo momento teces uma teia, a tua teia, para isto ou para aquilo, para lá ou para cá. E há mesmo

quem nem saiba ou não se interesse por saber para quê tecer. Tecem, simplesmente. Tecemos. Atenção aí, no tecer, agora, aqui!

Que melhores palavras do que estas para definir a tecitura de sentido que a narrativa possibilita ao Eu narrador, enquanto este se constitui e se define? E para definir construção narrativa em análise feita pelo par analítico dentro do campo?

FREUD (1937/1975) já relatara que as construções se dão aos fragmentos, como no trabalho arqueológico, mas que se diferenciam deste último na medida em que um fragmento de construção elaborado pelo psicanalista é sempre seguido de uma comunicação ao paciente, agindo sobre ele. Temos aqui nas palavras de Freud a clara indicação de que ele vislumbrava que as construções do psicanalista a respeito do paciente eram narrativas de fragmentos de uma história pessoal possível do paciente, que teriam um efeito sobre este, que corresponderia com novas associações, novas narrativas de sua história pessoal. O analista constrói, então, um outro fragmento da construção e o comunica ao paciente, que reage a ela.... Está já aqui, nas palavras de FREUD, o trabalho de construção como tarefa do par analítico e o lugar do Sujeito da análise, o "paciente", na construção de sua narrativa ficcional a respeito de sua própria história junto com o psicanalista. Chega a afirmar: "Os delírios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construções no decurso de um tratamento analítico _ tentativas de explicação e cura..."( pg. 303). Seria correto, portanto, dizer que FREUD se prendia à realidade ao fazer construções? Que "realidade"? As narrativas do Inconsciente que Freud tão bem colocou em seu exemplo paradigmático de construção. Realidade ficcional construída por um Eu narrador, Eu-sujeito de sua própria história. Que pode ser o psicanalista narrador.


(*)Versão revista e modificada da palestra "Construções em Análise na Transferência", proferidada em 18/04/1999, durante os SEMINÁRIOS SOBRE TÉCNICA PSICANALÍTICA, realizados pelo Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
(**)**Psicóloga. Psicanalista. Membro do Departamento Formação em Psicanálise e Professora do Curso Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Membro da Sociedade Psicanalítica de Campinas e Professora do Centro de Psicanálise de Campinas. Mestranda do Nucleo de Psicanálise do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUC-SP e Pesquisadora do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP. End. Com- Travessa. Lúcia Albertina Soares Quadros, nº 5 - Itaim Bibi -CEP 04531-020 - fone/fax 853-2366 - e-mail: mlspersicano@sol.com.br
(1)Foram respeitados os erros de grafia e de pontuação dos originais, dos dois manuscritos e do texto datilografado. As palavras e sílabas em negrito estavam riscadas, para correção, nos originais. Os grifos e quadros também constam nos textos do autor.
(2) Ao lado do texto, nesta parte, há um desenho da grande plataforma de corte de tora de árvore, em perspectiva, tendo sobre ela desenhada esta cena de tabas de índios, braseiro circular, buracão escuro e vegetação em volta, com uma X para demarcar o lugar onde Walter se vira no sonho.

Referências Bibliográficas
FERRO, A. Na sala de Análise. Emoções, relatos, transformações. Rio de Janeiro, Imago, 1998, 248 p.
FREUD, S. (1895). Estudos sobre Histeria, Rio de Janeiro, Imago, 1974, 393 p. (Edição Standard Brasileira, II)
__________ (1937). "Construções em Análise". In:______ Esboço de Psicanálise.
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FROEMMING, L.S.F. "Freud: Prêmio GOETHE de Literatura".Psicanálise e Literatura, VIII (n15): 125-127, 1998.
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