Lapsus Calami

Projeto multimídia de Artur Matuck

Resumo
Projeto multimídia incluindo: (1) texto, Modelo de Construção de uma Linguagem Hibrida, apresentando fundamentação teórica acerca da interação escritural homem-máquina; (2) um site, Landscript, que operacionaliza a proposta teórica, permitindo uma experimentação prática da criação textual co-autorada; e (3) video, Lapsus Calami, documentando teleperformance escritural realizada em videoconferência entre São Paulo e Florianópolis em 18 de maio de 2001. Neste projeto confrontam-se uma ação escritural híbrida homem-maquina, com uma outra, na qual o psiquismo e o inconsciente de um manuscritor expõem-se como sistemas produtores de 'lapsus', reavaliados como elementos disruptivos e portanto criadores de significado.

Palavras chave: 1 ações escriturais, linguagem homem-máquina, teleperformance, interativa, filosofia da linguagem

Descrição
Esta apresentação de caráter multimídia, deverá incluir, na medida do possível e do tempo disponível, a leitura e/ou distribuição de um texto, a visitação de um site, e a exibição de um video. Todos os trabalhos são de autoria de Artur Matuck.

O texto Modelo de Construção de uma Linguagem Híbrida, apresenta uma fundamentação teórica, conceitual acerca da possibilidade da interação escritural homem-máquina, do surgimento da linguagem hibrida, co-autorada por agentes humanos em interação com sistemas computacionais. O site Landscript operacionaliza a proposta teórica, permitindo uma experimentação pratica da criação textual co-autorada.

O video, Lapsus Calami, documenta uma teleperformance escritural realizada durante videoconferência entre São Paulo e Florianópolis no dia 18 de maio de 2001. Esta performance foi realizada pelo autor, na Universidade Anhembi Morumbi, campus Brás, em São Paulo, em constante interação com um grupo liderado por Yara Guasque, localizado na sala de videoconferência da Univale, no distrito de Biguaçu, Florianopolis, Santa Catarina.

A teleperformance Lapsus Calami, teve como proposta, a manuscrição em folhas de papel vegetal semitransparente colocadas sobre folhas impressas com o mesmo texto intitulado Modelo de Construção de uma Linguagem Híbrida. O efeito visual resultante evidencia a relação entre o ato continuado da escritura manual do texto concebido anteriormente, impresso e sendo reescrito reinterpretado. Na medida em que o papel transparente distancia-se ou aproxima-se das folhas impressas, a relação da manuscrição com o texto impresso se anula ou se ativa em varias gradações.

Durante a ação escritural o autor conversava a distancia com integrantes do grupo de Florianopolis e se propunha a sofrer interferência no processo de reescrita do texto. Instaurava-se assim uma situação favorável a emergência de 'Lapsus Calami', um erro involuntário do ato de escrever, descrito por Freud e posteriormente discutido por Jacques Derrida.

Conceitualmente, foram colocados em confronto uma ação escritural híbrida homem-máquina, com uma outra ação escritural, na qual o psiquismo e os processos inconscientes de um manuscritor expõem-se como sistemas escriturais produtores de 'lapsus' e reavaliados como elementos disruptivos de um projeto de enunciação e portanto criadores de significado.

Durante a interação a distancia, a proposta original da ação escritural foi contestada, discutida e alterada, num processo previsível em trabalhos de arte que propõem diálogos criativos. O vídeo apresenta uma visão complexa de uma experiência inédita, na qual um gênero novo tal como a performance escritural é apresentado no contexto de um evento de telecomunicação a distância proporcionando dialogo criativo, discussão conceitual e interação entre personalidades.

Texto:Projeto para se construir uma linguagem híbrida

Decifrar, invencionar estruturas das línguas naturais, seus processos de construção, produtividade de palavras, frases, parágrafos. Simular estas estruturas; re-construir e computacionar a re-produtividade sígnica, simular artificial da origem lingüística do signo; concepto de máquina semiótica.

Inserir um processo maquínico, algorítmico, desescrever maquinalmente, mecanografar, variabilizar, instabilizar, numerizar, intensificar, alfanumerizar, deslocar fortuitamente.

Atuar, re-atuar, tele-atuar sobre estes sistemas deduzidos da língua, de línguas naturais, gerando desescrituras, desordenar, deconstruir, çãotizar; generar textos provisórios, estranhos, estrangeiros, inconcebíveis.

Desescrituras que sugerem desescrição, reescrição, sendo desescritas, reescritas. Textos sendo refeitos, desfeitos pelos próprios mecanismos, [desescrituras], ou por agentes humanos, [reescrituras], gerando novos signos, retroatuando numa série infinita.

Invencionar o eletroescrito, linguagem de fricção, de uma textualidade a ser reprocessada; instabilizar o pensamento, ou re-pensar o discurso num contínuo processo de se re-textualizar.

Propor um modelo para se instaurar uma linguagem construída no diálogo-fricção homem-máquina, pensar híbrido, intersignificar, formular alternadamente o texto no frentamento entre a mente humana e sistemas artificiais.

Necessariamente provocar reflexão sobre as estruturas de-criativas das línguas, dos processos combinatórios de signos, conceptuar as máquinas semióticas, desencadear processos re-escriturais, instabilizar os textos, re-pensar a língua, linguajar.

Eletroescriturar.

Submeter cada palavra-matriz a um processo específico de desescritura de modo a decentrá-la de seu discurso, ideologia, certeza, direção;

Propor um sistema de recombinação para que um pensar insano, desconexo, ficcional, friccional, ir-racional, in-sensato, possa emergir; ocasionar um deslocamento da razão discursiva, fragmentar o sujeito falante, enunciador.

Projetar um método escritural que possa fazer ressurgir um re-conhecimento textual. Um re-conhecer o jogo contrinatório da linguagem; deslocar do sujeito; contestar arbitrário as formas instituídas do dizer, do escrever, do transmitir.

Conceber uma escritura de insurreição, ocasionalmente invadida por processos-performance, por tele-máquinas semióticas, por sistemas híbridos de interação; instanciar a escritura projetada para o remoto, distante, adiante, futuro.

Expandir a possibilidade do conhecer através do lúdico; a linguagem desescritada apresenta-se como conhecimento, re-conhecimento numa inversão de sentidos, num jogo poetológico no qual o desconhecido da linguagem interroga a língua em seu estado manifesto.

O arqui-texto, ainda permanecendo presente, surgindo por detrás do papel, estando eclipsado, ocultado. Para se transparecer o texto imaculado pressione seu instrumento contra o papel. As máquinas escriturais também deixam vestígios do que havia antes.

Um sujeito-escritor tornando-se híbrido, substância composta, simbiose de enunciadores humanos e artificiais, de sistemas produtradutores de linguagem.

Linguajar da escritura, mecanoescritura, desescritura, manuscritura, reescritura, eletroescritura, teleescritura.

Desestabilizar a língua, do cânone lexical, dos mapas de leitura e da escrita. Alterar códigos além dos limites.

Necessariamente refletir sobre autoria e tecnologia. Desafiar a autoridade do autor como criador de linguagem e de seus usos prescritos.

Inserir o coletivo enquanto tecnologia no processo da escrição. Enquanto discurso que se escreve através de uma regra contínua ou descontínua.

Representar o eletroescrito como a resultante atual de uma linha histórica de autoria extra textual. Autorizar o autor como meta autor de sistemas escriturais.

Reconhecer a mediação, da escrita como veículo, do alfabeto como tecnologia, do significante como elemento formatador, do pensamento como combinatória, da matemática enquanto linguagem.

Inscrever a máquina, a lógica, o jogo, o algoritmo, o alfabeto, enquanto meta-elementos formativos do pensamento coletivo, no processo da escrita.

Artur Matuck
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