Negação da questão política nas formações psicanalíticas

Luiz Ricardo Prado de Oliveira

RESUMO

Negação da questão política nas formações psicanalíticas

Contrariamente ao que se costuma pensar, não reside na clínica o maior problema da psicanálise, mas sim na transmissão processada nas instituições psicanalíticas. Esta se caracteriza, em geral, pela negação da questão política, estabelecendo-se assim uma certa inibição e até mesmo uma repressão no que tange à criatividade requerida ao analista no exercício da clínica. São abordados alguns aspectos implicados nas formações analíticas, dentre os quais o estabelecimento do mito da análise pura na subjetividade do analista, tal como formulado por Fédida, o qual refere a uma eventual impossibilidade de o analista lograr a elaboração do luto de sua própria análise. Neste sentido, é estabelecida uma certa compulsão à análise, no analista, que dificulta a realização de sínteses que implicam o agir e a tolerância produtiva em relação a conflitos inerentes às relações intra-institucionais.

Palavras-chave: formação psicanalítica - análise pura - política - hierarquização

RÉSUMEN

Negación de las cuestiones políticas en las formaciones psicoanalíticas

Al revés de lo que se costumbra pensar, el mayor problema de la psicoanálisis no está en la clinica y sí en la transmisión que se efectúa en las instituciones psicoanalíticas. Esa se caracteriza, en general, por la negación de la cuestión política, estableciéndose así una ligera inhibición y hasta mismo una represión en lo que dice respecto a la creactividad que se requiere del analista cuando está actuando. Son abordados algunos aspectos que están envueltos en las formaciones analíticas, entre los cuales el establecimiento del mito del análisis puro en la subjetividad del analista, tal como formulado por Fédida, y que se refiere a una eventual imposibilidad del analista en lograr la elaboración del luto de su propio análisis. En ese sentido, es establecida una cierta compulsión al análisis, por parte del analista, que dificulta la realización de síntesis que acarrean la acción y la tolerancia productiva frente a los conflictos inherentes a las relaciones intra-institucionales.

Palabras clave: Formación psicoanalítica - análisis puro - política - jeraquismo

RESUMÉ

La négation de la question politique dans les formations psychanalytiques

Contrairement aux idées habituelles, la clinique ne constitue pas le problème le plus grave de la psychanalyse. Ce problème est plutôt la transmission qui se produit à l'intérieur des institutions psychanalytiques. Le plus souvent, cette transmission néglige la question politique, produisant de la sorte une certaine inhibition qui va jusqu'à la répression de la créativité nécessaire à l'analyste dans l'exercice de sa clinique. Nous abordons ici quelques aspects des formations analytiques et, essentiellement, celui du mythe de l'analyse pure dans la subjectivité de l'analyste, tel que le présente Fédida, qui indique une éventuelle impossibilité pour l'analyste de parvenir à la perlaboration du deuil de son analyse à lui. Cette situation induirait chez l'analyste une certaine compulsion à l'analyse, lui rendant plus difficile l'élaboration de synthèses, l'agir et la tolérance productrice à l'égard des conflits propres aux relations institutionnelles.

Mots-clés: Formation psychanalytique - analyse pure - politique - hiérarchisation

Negação da questão política nas formações psicanalíticas

Em trabalho divulgado no site brasileiro dos Estados Gerais, a colega Paulina Rocha menciona sua expectativa de que houvesse um grande número de trabalhos sobre instituição psicanalítica, para serem apresentados no Encontro ocorrido na França no ano passado. Paulina declara que, para sua surpresa, os trabalhos relacionados à clínica psicanalítica compareceram em número bastante superior aos dos outros campos temáticos. Também refere à hipótese de que o campo da clínica reflete uma "problemática da psicanálise na atualidade".

Penso não ser a clínica psicanalítica o campo mais problemático na atualidade, propriamente, não mais do que o foi no tempo de Freud e de seus primeiros sucessores. O método psicanalítico de investigação foi desenvolvido graças a um espírito inquieto, sempre presente entre os pioneiros da psicanálise, exatamente porque não se evitava repensar a teoria diante dos desafios suscitados pela clínica. A teoria estava, então, em construção, e pouco espaço havia para verdades dogmáticas. As cartas trocadas entre Freud e Ferenczi evidenciam, por exemplo, a enorme tensão que havia entre o exercício da clínica e a tentativa de compreender os mecanismos psíquicos no intuito da construção da teoria psicanalítica. Assim, pode-se considerar que o enfrentamento de problemas no âmbito da clínica constitui-se em uma verdadeira marca identitária, originária do legado freudiano, e que um problema de outra natureza vem afetando a continuidade da prática da clínica psicanalítica.

No entanto, confesso que o texto de Paulina, desde o próprio título, "Instituições psicanalíticas: uma política de avestruz?", despertou em mim o interesse em estabelecer uma interlocução com meus pares a respeito deste assunto. Penso que a questão da instituição psicanalítica comporta talvez o problema mais difícil de ser abordado na comunidade psicanalítica, e que ele envolve, inclusive, a possibilidade efetiva de se proceder à pesquisa e à experimentação no campo da clínica psicanalítica. Creio que se observa uma certa limitação entre os psicanalistas, quando se trata de um engajamento direcionado a problemáticas especificamente geradas no contexto cultural contemporâneo, e que esta situação deriva das formações analíticas oferecidas pelas instituições. Neste sentido, procuro apontar, a seguir, alguns aspectos relacionados a fenômenos correntes nas formações psicanalíticas, que influem, a meu ver, decisivamente na citada limitação.

O primeiro aspecto é mencionado no próprio trabalho de Paulina, e relaciona-se à distinção geralmente estabelecida entre o Freud iluminista, orientado pelo desejo de promoção do desenvolvimento e do progresso do espírito humano, e da cura ou da redução do sofrimento, e o Freud cético ou realista, resignado ante a descoberta da "autonomia da força pulsional". Aqui se situa o que se costuma considerar como o Freud tardio. Geralmente, considera-se este último Freud como o que se relaciona à constituição de uma identidade psicanalítica mais pura e científica, daí se enfatizar, como o faz Paulina, a radicalidade das formulações teóricas introduzidas por Freud a partir de 1920, sobretudo no que se refere à segunda teoria pulsional. Como Paulina assinala, a noção do "indeterminado, do imprevisível e do irrepresentável", agindo na subjetividade, deveria conduzir ao aumento do índice de criatividade na produção do pensamento psicanalítico, bem como na clínica e nas práticas correntemente estabelecidas no interior das sociedades psicanalíticas. Considera-se então, que foi somente a partir de 1920 que a psicanálise se constituiu como um saber efetivamente singular e coerente internamente em suas premissas e construções lógicas. Concordo com Paulina, mas penso que a questão da criatividade no campo psicanalítico é problemática devido a outro fator, e que, quando esta ocorre, costuma tornar-se alvo de enormes resistências entre os psicanalistas. É freqüente haver uma preocupação entre os psicanalistas, quanto a se determinada prática proposta encontra respaldo na teorização estabelecida por Freud. Assim, considero ser mais produtivo procurar a razão de ser da inibição da criatividade em outro lugar que não na teoria psicanalítica propriamente dita.

Creio que um dos vetores que estariam presentes na produção destas resistências diz respeito a uma certa preocupação com a pureza da psicanálise, e com sua cientificidade, que acaba fazendo com que sua transmissão seja esterilizante. Em carta de 30/07/1912, Jones já se manifestava preocupado em garantir a recepção de uma "teoria pura", propondo a Freud que escolhesse um grupo seleto de pessoas para serem analisadas. Esta proposta relaciona-se ao que veio a ser definido posteriormente como análise didática. Assim, não deve causar estranheza que se estabeleça com freqüência uma certa idealização - ou eleição preferencial - de aspectos da teoria psicanalítica elaborada por Freud, ao tempo em que outros são desprezados, o que acaba comprometendo a força revolucionária de seu pensamento. Isto porque é preciso considerar a idealização estabelecida pelos analistas em relação a Freud, de tal maneira que se produz uma certa dificuldade em relação à possibilidade de se fazer uma leitura crítica e independente do que foi estabelecido desde os primórdios da psicanálise. Tal idealização estaria na origem do intuito de que se produzir uma recepção da obra freudiana necessariamente concebida como algo coerente e sempre revolucionário. Assim, por exemplo, como avançar com respeito ao índice de criatividade, como supõe Paulina, ao se depreciar a teorização formulada no primeiro período do pensamento freudiano, que é justamente a que teve origem no desejo de cura ou de redução do sofrimento? A princípio, seria de se esperar que esta teorização primeira é que fornecesse um maior vigor no sentido do engajamento do analista na clínica, quando esta envolve situações difíceis, inusitadas e enigmáticas.

Creio que a institucionalização da psicanálise voltada para a difusão do saber, e sobretudo para a formação de agentes operativos deste saber, tem se comprometido, infelizmente, com a formulação de uma doutrina, de tal forma que se constitui uma hierarquia no interior deste saber. Assim, tem-se incorrido na tentativa de eliminar ambigüidades ou contradições originariamente presentes no corpo da teoria formulada por Freud, as quais conviriam ser honestamente identificadas e aprofundadas. Faz-se isso no intuito de purificar a teoria, acarretando conseqüências não desprezíveis à formação do analista e à sua condição de pesquisador. Quando isso ocorre no processo de formação analítica, tende a se estabelecer uma "fixação da identificação ao ser psicanalista", conforme assinala Maria Cristina Rios Magalhães, em trabalho apresentado na reunião dos Estados Gerais realizada em Paris.1 O investimento institucional na transmissão do saber e formação do analista fica então comprometido pela intensa preocupação com relação à constituição da identidade do "verdadeiro" psicanalista, derivada justamente da "purificação" da teoria. Por isso, divirjo de Paulina quando diz que "só podemos supor a possibilidade de construir instituições mais fraternas e democráticas e, simultaneamente, mais produtivas e criativas, se tomarmos como referência esse pensamento tardio de Freud". Penso que esta eleição acarreta problemas bastante graves que influem no modo de pensar os fenômenos psíquicos do ponto de vista da psicanálise, e fazem com que a dimensão de pesquisa que a mesma comporta acabe prejudicada. Um exemplo. O decantado abandono, por parte de Freud, em 1897, da teoria da sedução, e portanto da concepção do trauma como um fato real. No entanto, na Conferência XXIX, de 1932, cujo título é "Revisão da teoria dos sonhos", lê-se: "Ora, essas experiências sexuais iniciais de uma criança estão vinculadas a penosas vivências de ansiedade, proibição, desapontamento e punição". Na verdade, a teoria da fantasia nunca implicou o abandono da noção do fantasma como originário num fato real experimentado inconvenientemente. Assim, ao desprezarem o problema do evento traumático os psicanalistas costumam encontrar dificuldade na clínica que envolve pacientes vítimas de violência.

Outro aspecto, que deriva da preocupação exagerada com a pureza analítica, diz respeito a restos transferenciais não dissolvidos nas análises dos analistas. Refiro-me aqui a uma preocupação exagerada, porque avalio que, em certos casos, verifica-se a operação de um superego severo que impede no psicanalista em formação a aquisição da possibilidade da elasticidade e do tato com vistas ao exercício clínico, tal como preconizados por Ferenczi em "Elasticidade da técnica psicanalítica" (1928).

Pierre Fédida aborda esta questão, por um viés bastante interessante e relativamente distinto daquele abordado por Jones em 1912, ao apontar a "formação ideal da análise pura", cuja origem se encontraria na análise do analista.2 A impossibilidade da elaboração do luto relacionado à perda do analista e ao fim da análise dá lugar a um sentimento de grandeza em relação à experiência vivenciada na análise, a qual é associada à intimidade experimentada com a própria vida psíquica do analisando em formação, de tal maneira que este se torna "extremamente exigente e forte" no que concerne às concepções pessoais sobre a vida psíquica. Fédida considera que se constitui uma transferência intrapsíquica, no analisando em formação, relacionada a um objeto ideal que se acopla à subjetividade do futuro analista. Assim se constitui uma identidade analítica que se inclina no sentido de favorecer a tendência ao procedimento compulsório da análise. Creio que esta tese pode explicar uma certa dificuldade, habitualmente observada entre os psicanalistas, com relação à ação e ao uso do próprio corpo como um método de estabelecimento de contato ou de comunicação com o paciente, ou mesmo na vida social cotidiana e nas instituições psicanalíticas. Os psicanalistas costumam manter-se forçosamente referidos ao plano verbal de comunicação, recorrendo acentuadamente à interpretação ou ao silêncio, ainda que o paciente demonstre necessitar enormemente do contato físico ou do estabelecimento da comunicação no nível pré-verbal ou de maneira coloquial. No que tange à vida cotidiana e às instituições psicanalíticas, observa-se que os analistas dificilmente brincam e sorriem, e dificilmente praticam esportes ou dançam, costumando portar-se como indivíduos extremamente intelectualizados e burgueses, fixados em práticas sociais estereotipadas. A realização de sínteses que envolvem o agir e a tomada de decisões costumam ser muito difíceis entre os analistas dominados pela idealização da análise, o que se reflete sobretudo no esvaziamento da dimensão política no trato de questões coletivas importantes, no contexto das instituições psicanalíticas. Daí não ser difícil que se estabeleçam hierarquias nestas instituições, sejam estas exercidas de maneira carismática ou abertamente autoritária. Penso que a verticalidade geralmente estabelecida nas instituições psicanalíticas deriva de um superego severo que formata os analistas que se constituem como sujeitos assujeitados e sem memória, sem corpo e sem desejo. Outra questão, conexa à constituição do mito da análise pura, e que implica um exame mais acurado, remete a uma indispensável indagação no sentido de esclarecer se não há na própria teoria psicanalítica uma visão reacionária em relação ao fato social, às instituições e à política em geral.

A constituição deste mito da análise pura parece operar, portanto, como um ideal inibidor da experiência analítica, e das experiências em geral, compreendidas estas como acontecimentos disruptivos em relação à lógica racional e ao verbal que se vinculam à continuidade e à ordem dominante. Esta conseqüência pode ser atribuída a restos transferenciais não dissolvidos na análise do analista e à modalidade de relações intra-institucionais geralmente estabelecida.pelos psicanalistas. Esses restos vêm sendo transmitidos transgeracionalmente, desde o próprio Freud, à medida que este se preocupou em alinhar a psicanálise entre os saberes científicos, e daí resultou, inclusive, a difusão da psicanálise de maneira bem controlada e sob a forma institucionalizada e hierarquizada. De resto, as instituições psicanalíticas têm garantido a conservação desses restos transferenciais, cumprindo o papel que lhes foi afinal designado por Freud e por alguns outros analistas. Pode-se também considerar que, ao afastar-se gradativamente do interesse psicoterapêutico, Freud imprimiu à teorização um caráter político reacionário. Ao invés de resguardar a psicanálise como um assunto privado, relativo aos esforços terapêuticos implicados na relação entre o analista e o analisando, e relacionada à escuta do inconsciente, a psicanálise tornou-se um assunto público, em torno do qual passou a ser enfatizada a validade universal do saber professado por Freud. Assim, algo do que ela tinha de melhor foi ao menos em parte silenciado. Refiro-me aqui ao compromisso ético para com a verdade do sujeito.3

Quanto à construção da teoria, cabe ainda destacar uma outra questão. Pode-se supor que, impossibilitado de reconhecer suas limitações enquanto psicoterapeuta, Freud recorreu à formulação da segunda teoria pulsional compreendendo-a como uma postulação racional e científica que justificaria os impasses terapêuticos eventualmente verificados. Não foram poucas as ocasiões em que Freud manifestou sentir-se desconfortável no lugar da transferência materna, à qual se vincula a questão da regressão que o paciente por vezes necessita vivenciar intensamente na análise. Não é outra a razão pela qual, em "Análise terminável e interminável" (1937), Freud conclui por atribuir ao repúdio da feminilidade um componente de natureza biológica. Divergindo de Ferenczi, que preferia exigir do analista e de sua teoria novas respostas a impasses eventualmente suscitados por certos pacientes, Freud preferiu recorrer, em mais este momento, à teorização justificada com base em um fator de natureza biológica e filogenética, atribuindo o impasse verificado em certos casos à hegemonia exercida pela pulsão de morte. Assim, a eficácia da análise deixou de ser uma questão de grande importância, e se evitou correr riscos, tudo podendo ser explicado e justificado teoricamente. Ou seja, o mais importante é que a pureza científica da psicanálise fosse resguardada, ou mais exatamente, que o seu próprio estatuto científico pudesse ser infirmado, apesar dos eventuais fracassos.

Mas, penso que esta questão da pureza analítica associada aos restos transferenciais sugeridos por Fedida não justifica toda a alienação dos analistas em relação às psicopatologias contemporâneas e, principalmente, em relação à necessidade de dinamização de suas instituições. Otto Kernberg tem sido um dos analistas que têm se preocupado com a questão da intensificação da transferência na formação analítica, chamando atenção para a influência que esta exerce no sentido da promoção da regressão e da infantilização dos analistas em formação, com o conseqüente empobrecimento da criatividade.4 De fato, a preocupação do staff nas instituições, em proceder à transmissão da psicanálise, da maneira entendida como a mais pura, compreende a redução do que é público, na instituição psicanalítica, ao âmbito do privado, do que é coletivo e político, ao particular e pessoal. Assim, continua ocorrendo o que já ocorria na época de Freud: discriminações e exclusões. Divergências surgidas no campo do saber, e que deveriam hoje em dia apenas suscitar discussões acirradas, e portanto políticas, à medida que se tornam públicas são trabalhadas como questões pessoais que envolvem diagnósticos, simpatias e antipatias pessoais. A atribuição de diagnósticos é uma prática corrente entre os analistas, quando ocorrem situações de conflitos no campo das idéias. Então, verifica-se ser marcante o fato de se propor aos candidatos em formação o aprendizado do bom-comportamento e o exercício da paciência, mediante a promessa de que chegará o dia em que serão agraciados com o título de psicanalistas. A hierarquia nas instituições é um fator que se destaca nos momentos diversos da formação, operando no sentido do acompanhamento - e da vigilância - dos passos que devem ser dados pelos que almejam o reconhecimento derradeiro.

Helena Vianna aborda a desvinculação que costuma ocorrer entre a psicanálise, o social e o político, na comunidade psicanalítica.5 Penso que esta desvinculação é uma preocupação dominante em muitas sociedades psicanalíticas, e que esta situação se apresenta sob a forma da negação nos momentos em que se verificam tensões nas instituições psicanalíticas. Neste sentido, essas tensões costumam ser esvaziadas de sentido, ignorando-se a dimensão política intrínseca às práticas estabelecidas no contexto das relações intra-instituicionais.6 Inclusive, a vinculação transferencial ao staff e a mestres, analistas e supervisores, que constituem a elite nas sociedades psicanalíticas, dificilmente chega a ser problematizada, ou quando o chega, é suscitado um clima paranóide na instituição. A propósito, Daniel Kupermann proporciona importante contribuição para se pensar possíveis soluções que evitem a cristalização de transferências nas sociedades psicanalíticas, e portanto, em oposição a uma dinâmica que é bastante favorecedora da paranóia.7 Através do estudo de um caso institucional, e com base em uma pesquisa relacionada à história da psicanálise, Kupermann aponta a importância de se dinamizar a transferência nas instituições psicanalíticas, no sentido de que possa ser estabelecido um nomadismo transferencial. Com isso, procurar-se-ia evitar cristalizações de lugares nas instituições e o autoritarismo daí resultante, ainda que este opere de maneira velada e silenciosa. Este autoritarismo está relacionado à vigilância exercida diligentemente pelo staff, no sentido de resguardar o ouro puro da psicanálise.

Evidentemente, propostas como as de Kupermann encontram resistências nas sociedades psicanalíticas, mormente nas brasileiras, pois a alienação ou a negação do político ou da dimensão política é uma característica notavelmente marcante na cultura brasileira. Discussões que envolvem o repensar as modalidades de relações de troca estabelecidas nas sociedades psicanalíticas brasileiras encontram sérias dificuldades, devido a resistências que podem ser atribuídas, ao menos em parte, ao fator cultural. Creio que a força de uma concepção colonial e familialista das relações sociais de troca, predominante na cultura brasileira, influi singularmente no destino das instituições psicanalíticas brasileiras. Neste sentido, pode-se compreender, como afirma Joel Birman, em entrevista concedida ao Jornal Gradiva no ano passado, que a clínica psicanalítica no Brasil seja bastante criativa, mas creio que isto não significa, no entanto, que esta criatividade se origine da formação oferecida pelas sociedades psicanalíticas brasileiras. É provável que esta criatividade se deva a fatores culturais que não favorecem a padronização de condutas, muito ao contrário. Ou seja, o que o analista faz privadamente não coincide necessariamente com o que ele pode dizer publicamente que faz. Assim, pode-se considerar que a tradição colonialista ainda prevalece nas sociedades psicanalíticas brasileiras, determinando o empobrecimento das trocas vivenciais e científicas, de forma que a negação da dimensão política envolvida nessas trocas costuma ser bastante acentuada. Quero com isso destacar que o autoritarismo enraizado na cultura brasileira se reflete, provavelmente, nas instituições psicanalíticas brasileiras.

Para finalizar, enfatizo ser imprescindível o incentivo a discussões sobre a dimensão política subjacente à produção da psicanálise, de modo a impedir sua negação. Não me parece ser mais possível, desde o pensamento de Foucault e de outros filósofos, conceber o saber relativo ao desejo de conhecer a verdade como dissociado do poder e da prática do sujeito psicanalista em relação a si próprio e ao outro. Foucault chama atenção para o equívoco de pensar a questão do poder de forma apenas negativa ou repressora, bem como relaciona esta forma de pensá-lo a um sistema de representação comum à burguesia e à monarquia.8 Acredito que uma das grandes dificuldades observada entre os analistas diz respeito à forca da identificação estabelecida, desde Freud, com relação à elite social e econômica. Ao reagirem assepticamente à política estabelecida nas relações intra-institucionais - porque pensam o poder como nefasto à medida que apenas repressor e contrário ao desejo e à liberdade -, os psicanalistas dão margem à constituição de gestões notavelmente hierárquicas, em suas instituições, meramente administrativas ou maniacamente religiosas, que acabam mais cedo ou mais tarde se configurando na condição de autoritárias. Creio que um dos problemas que aí se coloca é o da governamentalidade da instituição psicanalítica, tal qual esta noção é concebida por Foucault.[9] A noção de governamentalidade implica o "campo estratégico de relações de poder, no sentido mais amplo do termo e não simplesmente político -, portanto, levando-se em conta o que ela comporta de mobilidade, de transformabilidade, de reversibilidade". "Uma ética do sujeito definido pela sua relação consigo mesmo", e compreendida como prática de liberdade, constitui-se em uma das indicações de Foucault que visam ao questionamento de relações de poder dominadoras. Nada mais recomendável a uma instituição psicanalítica: articular uma concepção ética do sujeito a um permanente questionamento da governamentalidade nas instituições psicanalíticas.

Luiz Ricardo Prado de Oliveira
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[1] "Le transfert: la transmission de savoir en psychanalyse et la formation du psychanaliste".
[2] "Entrevista com Pierre Fédida. In: Jornal de Psicanálise, Instituto de Psicanálise da SBPSP, v. 30, 1997, n° 55-56, p. 319 e sgs..
[3] A respeito do compromisso ético com a verdade do sujeito, considerando-se aí a questão do sujeito psicanalista constituído em relação à dimensão política, recomendo a leitura de uma trabalho de Luiz Eduardo Prado de Oliveira, intitulado "La formation des psychanalystes et leurs instituitions: revue et comentaires des principales contributions critiques notamment au sein de l'IPA", a ser ainda publicado em Le Coq-Héron.
[4] Por exemplo, em "La situation actuelle de la psychanalyse", artigo publicado na Revue Française de Psychanalyse, tome LVI, avril-juin, PUF, Paris, 1992.
[5] "Relação da psicanálise ao social e ao político". Trabalho apresentado na reunião dos Estados Gerais da Psicanálise, realizada em Paris em julho de 2000.
[6] A este propósito, ver Philippe Julien, em "La transmission de la psychanalyse", trabalho apresentado na reunião dos Estados Gerais, ocorrida em Paris. Este autor afirma que "a instituição é o lugar fundado continuamente mediante a experiência vivida pelos jovens analisandos na condição de analistas". Julien aponta a tensão necessariamente existente, no interior da instituição psicanalítica, entre a psicanálise enquanto saber a ser transmitido e as relações institucionais ou públicas entre os psicanalistas.
[7] Kupermann, D. "Transferências cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições", Rio de Janeiro, Revan, 1996.
[8] Foucault, M. "Les mailles du pouvoir", in Dits et écrits, IV, Paris, Gallimard, 1994, p. 185.
[9] Foucault, M. "Cours du 17 février 1982", in L'hermenéutique du sujet, Paria, Gallimard, 2001, pp. 241-242.