O Corpo, campo de batalha contemporâneo

Daniele Breyton, Elaine Armênio

Há dias em que Ana folheia revistas femininas e se entretém com o que vê. Há outros em que isso se torna um pesadelo. É terrível quando começa a se comparar com outras mulheres, sente-se feia, um lixo, um nada. Como se caísse num abismo. Nesses dias seu nariz parece grande demais e quer sair correndo, para fazer uma cirurgia plástica. Seus seios tornam-se pequenos demais, o que também lhe dá vontade de sair correndo para colocar uma prótese de silicone. Quer ir transformando seu corpo na medida em que se depara com suas falhas. Imagina que dessa forma poderá acabar com seu sofrimento. Em uma dessas crises fez uma primeira cirurgia plástica, uma lipoaspiração na barriga, a despeito de ser jovem, esbelta e bonita.

Em uma primeira e única entrevista uma bela jovem conta com serena naturalidade os percalços somato-cirúrgicos que ocuparam grande parte de sua adolescência. Seus seios eram pequenos, "pequenos mesmo", insiste. Levada aos cirurgiões plásticos encontrou alguém que lhe confirmou tratar-se de má formação a ser reparada através de uma cirurgia razoavelmente simples. Esse diagnóstico, assim como o prognóstico, tranqüilizou seu coração aturdido e o de sua família, e assim se entregou nas mãos do salvador que lhe devolveria um corpo bem formado com o qual poderia viver melhor e ser feliz. Mas a manobra cirúrgica não foi de todo bem sucedida e as próteses embutidas não se fixaram na musculatura. Circulavam livremente pelo tronco. Isso foi apenas o começo de uma longa história.

A problemática atual das adolescentes e de grande parte das mulheres gira em torno do corpo. As adolescentes desejam ter "aqueles" peitos, ser altas, magras. Isso em si não é muito diferente das aspirações identitárias próprias a qualquer adolescência, onde se aponta um ser já não mais tão apoiado no vir a ser indefinido e ilimitado. Com as mulheres, essas questões também estão presentes mas com as exigências de uma identidade supostamente já formada, o que se interroga permanentemente em uma época com referências tão mutantes. Ou se apresentam com alguns deslocamentos, como as infinitas questões em relação à reprodução.

A novidade é que as delineações e os limites do corpo deixam de ser justamente um limite, marcas com as quais cada um de nós se relaciona, elabora, suporta ou arrasta pela vida, mas passam a ser algo que se pode transcender. Porque mais do que nunca o saber médico, as investigações científicas e tecnológicas parecem movidas por esses mesmos sintomas: não há nada que tenhamos que suportar ou elaborar, basta transformar. Se o peito é pequeno, próteses, escolha o tamanho. E freqüentemente a queixa pós primeira cirurgia é que foi pouco, muito pouco, continuam pequenos. Se o nariz é grande, mude. Se o queixo é para traz, avance. Se parece que a menina vai ser baixa, atrasa-se a primeira menstruação e ganha-se alguns centímetros. Se não consegue ter filhos, basta consultar um médico. Sem falar dos múltiplos esforços para apagar do corpo as marcas do envelhecimento, como se escatológico qualquer traço que aponte na direção de sua finitude. Envelhecer virou descuido.

Assistimos, principalmente nos últimos anos, o corpo ganhar uma dimensão na vida privada e na cultura distinta de outras épocas. A convivência é maciça, nas rodas de amigos, nos mais diversos ambientes, do que se fala é do corpo. Longos discursos sobre a última consulta médica, sobre as dietas. Na mídia, cada vez maiores especificidades sobre como tratar, aprimorar, esculpir o corpo. As intervenções médicas transbordaram de longe a intimidade dos consultórios e passaram a ocupar as imagens, os discursos, vídeos e programas de televisão. No ano passado, se esgotou o estoque de silicone no país...

E como pano de fundo, ou cenário clínico, vemos o corpo cadavérico da anoréxica à beira da morte, em seus últimos suspiros, pulsando a cada gota de soro que seu corpo ainda suporta. Um corpo quase sem carne que vai perdendo suas formas e em plena juventude se esforça radicalmente por figurar que nada, basta. Corpo personificado na poética da indignação? Uma batalha contra um ambiente pouco desejante? Acompanhado pelo corpo obeso, outra epidemia, onde se figura que nada basta.

Há uma questão com os limites e toda uma máquina a serviço da transposição. Transposição dos limites corporais. Há uma banalização das práticas cirúrgicas. Essas intervenções em série revelam uma alienação do próprio corpo, uma entrega do corpo aos padrões estandardizados de beleza e conforto corporal. As forças que habitam esses corpos são ignoradas, as marcas que cada um traz, seus movimentos desejantes naufragam diante de uma corrida frenética em direção a um fora de si.

Um mesmo corpo pode vir a ter diversas apresentações mas não há como desvincular a composição intrínseca do Eu com sua corporeidade. Os movimentos estéticos atuais e seus apelos imagéticos debatem, assim, as complexidades desejantes do humano. O excesso de espelhos embaralha a percepção de si e do outro. Com que olhos podemos nos reconhecer?

As conquistas da medicina têm imensa importância pelas possibilidades que trazem, suas práticas curativas, as transformações no corpo que para alguns enriquecem em direção aos próprios ideais e ao próprio desejo. Não questionamos as conquistas. Nossas indagações são sobre as linhas de força que afirmam o corpo exclusivamente na sua carnalidade, na sua materialidade e quanto o corpo torna-se hegemônico na cultura contemporânea.

Figuras clínicas vão se multiplicando aos nossos olhos, buscando os limites, por vezes desesperadamente. Há quadros sombrios que desfilam pelas ruas, pelas passarelas, pelos consultórios, onde parece haver um excesso de carnalidade, de crueza da carne. Paralelamente, há também boas saídas para o prazer. "Não houve época que não se sentisse, no sentido mais excêntrico, 'moderna', nem se considerasse à borda de um abismo...", diz W. Benjamim, e nesse sentido, não nos cabe alarmismos. Perderíamos nossa capacidade de análise. Toda época e toda mudança, e é inegavelmente uma época de mudanças, traz suas quebras.

Afetadas e atravessadas por essas situações cada vez mais cotidianas nos encontramos em um território comum, nos movendo a um longo e inquietante percurso no imaginário do corpo na cultura contemporânea. Nos perguntamos o que vem sendo veiculado pelos corpos. Retornamos ao mais primário do ser e à primeira das perguntas, possivelmente ecoando algo mais coletivo do momento: como se dá a relação sujeito-corpo e quais as metáforas que a época oferece para esta relação? O que, neste contexto, seria específico do feminino, ou encontra maior pregnância no feminino? No feminino vivido no corpo da mulher, por enquanto objeto de maior investimento estético-cirúrgico, tomando as cirurgias plásticas como uma das metáforas do momento.

A estética nos pareceu um caminho a ser trilhado, o que se figura nesses corpos enquanto ideais e imagens. Ou lembrando Freud, em "O Sinistro, Unheimlich", "...quando por estética se entende não simplesmente a teoria da beleza, mas a teoria das qualidades do sentir".

Na arte contemporânea, encontramos a body-art, body modification, arte carnal. A Bienal de Veneza, em seu centenário, se dedicou ao corpo. Cada vez mais artistas utilizam seu corpo como objeto de sua arte e como objeto artístico em si. Há uma verdadeira obsessão em torno disto. Pondo abaixo as barreiras entre a arte e a vida com experiências visuais e sensuais, os artistas da body-art representam o sentimento de angústia e a desorientação individual na virada do século. O corpo é o primeiro comunicador do gênero, da raça e da classe. Vimos que a body-art reflete, portanto, a crise existente na sociedade contemporânea. Esses artistas usam seus corpos para manchar e cruzar os limites e para explorar suas implicações na identidade.

O corpo vem sendo distorcido, desfigurado..."Seu corpo é um campo de batalha", como formulou Bárbara Kruger, uma artista contemporânea, em outdoors espalhados por Nova Iorque já nos anos 70.

Orlan, artista multimídia francesa, nos ciceroneou neste cenário contemporâneo. Ela assina a autoria de nove cirurgias-performances, óperas cirúrgicas, cirurgias plásticas faciais através das quais recostura seu rosto, seu corpo, transformando sua imagem. Para cada operação Orlan deu ao cirurgião uma imagem de computador da parte corporal específica que desejou reconstruir. Se fez o nariz de Diana, a boca de Europa, a fronte de Monalisa, o queixo de Vênus e os olhos de Psiquê. Aproveitou as operações para criar ambientes complexos, convidando músicos e poetas para intervir no processo. Cada operação foi registrada em vídeo e fotografada, uma delas transmitida de Nova Iorque a 13 centros de arte no mundo, com o título "Omnipresença".

"Meu trabalho emergiu nos anos 70", diz Orlan, "...Tive que ser operada com urgência, meu corpo era um corpo doente que subitamente precisou de atenção. Decidi fazer o máximo desta nova aventura...tinha uma câmera e um vídeo na sala de operação e os vídeos e as fotos foram exibidos como se tivesse sido uma performance planejada...eu tinha certeza que algum dia, de algum modo, eu trabalharia novamente com cirurgia...Uma performance visando o futuro, usando técnicas atualizadas(...). Foi lendo um texto de Eugenie Lemoine-Luccioni, uma psicanalista lacaniana, que me ocorreu a idéia de colocar isto em prática...No começo das minhas operações-performances lia este trecho de seu livro 'La Robe' ( O Vestido):

'A pele é enganosa...na vida, nós só temos nossa própria pele...há um equívoco nas relações humanas pois jamais somos o que temos...eu tenho uma pele de anjo mas sou um chacal...uma pele de crocodilo mas sou uma boneca de pelúcia, uma pele negra mas sou branco, uma pele de mulher mas sou um homem; eu nunca tenho a pele do que sou. Não existe exceção à regra pois nunca sou o que tenho...'".

"Manifesto da Arte Carnal", de sua autoria. Alguns trechos:

"DEFINIÇÃO: A Arte Carnal é um trabalho de auto-retrato (...). Oscila entre desfiguração e refiguração. Inscreve-se na carne porque nossa época lhe dá esta possibilidade..."

"DISTINÇÃO: (...) A Arte Carnal não se interessa pelo resultado plástico final, mas pela operação-cirúrgica-performace e ao corpo modificado, tornado lugar de debate público."

"ATEÍSMO: (...) A Arte Carnal transforma o corpo em língua e reverte o princípio cristão do verbo que se faz carne em proveito da carne feita verbo; apenas a voz de Orlan ficará imutável, a artista trabalha sobre a representação.

"PERCEPÇÃO: de fora posso ver meu próprio corpo aberto sem sofrer. Posso me ver até o fundo das entranhas, novo estágio do espelho. Posso ver o coração de meu amante e seu desenho esplêndido não tem nada a ver com as maravilhas simbólicas habitualmente desenhadas.

- Querido, eu amo seu baço, amo seu fígado, adoro seu pâncreas e a linha de seu fêmur me excita."

"LIBERDADE: a Arte Carnal afirma a liberdade individual do artista e nesse sentido luta também contra os aprioris, os ditados: porque se inscreve no social, na mídia (onde faz escândalo porque mexe com o senso comum) e irá até o judicial."

"ESTILO: (...) A Arte Carnal é anti-formalista e anti-conformista."

(obs. fim do manifesto)

O corpo de Orlan é o suporte de sua produção. Interroga o estatuto do corpo e do corpo feminino e desnuda a relação Eu-imagem-corpo. Seu trabalho enfoca questões da ordem do corpo, do desejo e da identidade, denunciando comportamentos consumistas e auto-destrutivos. Toca nos limites do corpo, na fronteira corpo-sujeito.

Nos manifesta os gritos da estética vivida no corpo da atualidade. Seu corpo-carne se transforma em coisa a ser recortada e recosturada, sem dor, como corpo coisa. A serviço da imagem, de um ideal, de um ilimitado: "Apenas a voz de Orlan ficará imutável", ela diz. Faz das manipulações sobre a carne viva de seu corpo performances artísticas, manifesto e muito barulho. Toma sua carne como argila, o sangue como tinta, escritos psicanalíticos como recitais e as mãos dos médicos como operadores. Ela é a artista, com um projeto, um conceito, um público, um impulso e olhos arregalados. Seus olhos são os pincéis para esse quadro contemporâneo, com os quais persegue as moradas da identidade. Orlan não está só, na arte e na clínica várias figuras se interrogam aí: o que podemos ser se nossos corpos deixam de ser o que são?

Há aqueles que nessa investigação fizeram palco à sua morte. Schwarzkogler, do grupo de Viena da body-art, seccionou sistematicamente o próprio pênis com uma navalha. Na elaboração de uma "escultura de si", feita de subtrações e perfurações, ele propôs a passagem do nu artístico para o nu total, passagem que se "colocaria acima dos sentidos, como uma imagem, ora temporal, ora espacial, através das diversas possibilidades de seus gestos repetitivos e de sua repetitiva presença". Esse exercício culminou com a sua morte em 1969 aos 29 anos.

Orlan quer desmistificar o ato cirúrgico, participar dele, entrar em contato com seu interior corporal. Ultrapassa uma fronteira e quer ver seu próprio sangue, suas próprias entranhas. Orlan sorri na sala cirúrgica.

O ser humano está além da própria pele, da própria imagem. Orlan se desprende de sua imagem original, de seu corpo original e cria novos habitats. Ser em pele estrangeira, ser com os olhos de Psiquê. Quer descobrir novas formas de ser? A artista se atribui o direito de recortar seu corpo. Toca em um território sagrado, faz uma profanação. A intervenção sobre o corpo não é mais justificada pelo viés da saúde e da doença, através do qual a medicina sempre justificou sua intervenção.

Se a identidade tem ancoragem no corpo e na imagem, Orlan levanta a âncora e vai navegar por mares desconhecidos. Mas o que possibilitaria um corpo mudar tanto sem enlouquecer? Nômade em seu próprio corpo, não haveria um ponto de ancoragem, mas muitos diferentes. Brinca com as certezas sobre a identidade: até que ponto se é capaz de reinventar o corpo e sua imagem? Em Orlan há muitos corpos... em Fernando Pessoa muitos eus. Quais intersecções e quais diferenças haveria aí. Duas obras, duas poéticas, duas épocas.

José Gil, filósofo português, discorrendo sobre Fernando Pessoa, cria o conceito de espaço interior. Seria o lugar da metáfora, da poesia. Uma de suas características seria estar sempre em expansão. Haveria abismos dentro do eu, verdadeiros infinitos, sem um centro estável. "O espaço interior é como aqueles territórios de que os selvagens marcam os limites com um traço na areia, em que se desenrolam os rituais mágicos: aí também, o iniciado ou o paciente viverá experiências próximas da loucura. Que tudo se passe dentro da fronteira do território sagrado do ritual, é a condição para que o caos não trasvase e se apodere dos corpos, contaminando o grupo e a aldeia inteira."

Escreve Fernando Pessoa: "Todo estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim, uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito".

O espaço interior protegeria Fernando pessoa da loucura e possibilitaria ao poeta transitar por seus vários heterônimos. "O espaço interior funciona como um universo fechado que possui uma textura especial, adequada à construção de outros universos. A heteronímia vive assim ladeando a loucura sem nunca nela cair. O espaço interior distingue o poeta do louco: permite ao primeiro entrar e sair do caos, enquanto o louco raramente de lá volta".

Da poesia à arte carnal de Orlan...por quais metáforas o espaço interior vem sendo representado?

Orlan declara que em seu trabalho o corpo torna-se língua, linguagem. Leclaire diz que tudo que se escreve, toda literatura, toda arte, toda verborréia constitui uma forma de reelaborar um texto já sempre aí, mesmo que esta reelaboração tenda para uma revisão ou recomposição.

Não haveria um a mais em Orlan, traço da contemporaneidade, neste excesso de corpo?

Segundo Foucault, o corpo foi o primeiro objeto a ser socializado no capitalismo que se desenvolveu a partir dos fins do séc.XVIII e início do séc.XIX. O corpo enquanto força de produção, força de trabalho. Para ele, o controle da sociedade sobre os indivíduos não se operou pela consciência ou pela ideologia, mas no e com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que a sociedade capitalista investiu. Considera o corpo como uma realidade bio-política.

Inegavelmente estamos às voltas com os avanços frenéticos do capitalismo. Há forças perversas do aspecto mercadológico nas atividades cirúrgicas, nos fármacos e na mercantilização do corpo. O corpo sai da esfera privada e passa a emergir no domínio público, diz Stella Senra, ensaísta, na análise que faz de uma notícia de jornal em que um homem é preso por apresentar-se nu na rua. Não considera exibicionismo ou um desafio à norma, diz que ele "...apenas reivindica sua 'condição humana', como se recaísse sobre a materialidade do corpo ou sobre sua inocência a luta contra tudo o que atinge o homem, não exatamente no corpo, mas no que ele tem de imaterial - a sua humanidade." Cita um teórico português, José Bragança, que tem como tese a substituição do "mundo", como categoria do utópico, pelo corpo, na subjetividade contemporânea, e as conseqüências desta substituição. O "corpo utópico" implica não só na substituição do "mundo" pelo corpo, mas uma crise do próprio corpo, que explode e se dissipa ao tomar o lugar do mundo. "Um corpo que resume em si todas as esperanças e ameaças, que traz a chave da felicidade, mas se precipita para a destruição, um corpo problemático. Talvez a substituição do 'mundo' pelo corpo esclareça a urgência de o interrogar e de o explicar e justifique a interpelação, insistente hoje em dia, da ciência e da arte como práticas que sondam potencialidades e exploram possibilidades."

Orlan insiste que faz uso dos recursos científicos e tecnológicos de nossos tempos. Assim como as adolescentes e mulheres, e alguns homens, insatisfeitos com suas formas. Os muitos que julgam ter nas marcas de seu corpo as razões de sua infelicidade. Ou de seu aprisionamento. Talvez Orlan, diferentemente da massificação de clientes dos cirurgiões plásticos e lipoescultores, tente retomar em suas mãos os destinos de seu corpo e seus campos de inserção. Poderíamos atribuir ao seu trabalho uma proposta de abertura dessas alcovas cirúrgicas, em um certo desvelamento dos pactos, alguns sinistros, dos nossos tempos. Orlan quer provocar, despertar e nos jogar na cara o horror e a violência desse espetáculo. Ali dentro se corta, se sangra, se entuba e se amarra. Em nome de quê, ela nos conclama a pensar.

"Seu corpo é um campo de batalha"...

Batimento da atualidade, também batimento da histeria, daquilo que reproduz do que "não pertence a ninguém, do que circula como representação coletiva", como cita S. Alonso. Pulsação de seu corpo, que a ameaça como sendo justamente o "corpo morto, dessexualizado,...mero pedaço de carne, o corpo da lacuna que está permanentemente prestes a cair do mundo do humano". Como será para a histeria se deparar cotidianamente com o que mais teme?

Chaim Katz, introduzindo argumento de Leclaire a respeito do corpo erógeno, traz como um dos maiores ensinamentos freudianos a articulação entre sexualidade finita do corpo humano e a sexualidade infinita do investimento sexual humano, imbricando entre finito e infinito os limites e a criação do humano. Instala a psicanálise como uma experiência de pensar o homem entre corporal e incorporal, finito e infinito, humano e inumano. Retoma os três ensaios em que Freud postula um corpo erógeno que só se faz apoiado ao corpo vivo.

Os corpos vivos estariam pleiteando o lugar do ilimitado e do infinito? A anorexia, a bulimia e a obesidade estariam buscando desesperadamente os limites ou denunciando com o próprio corpo o esgarçamento desse tecido, a solidão desses corpos, demasiadamente corpos, onde nada barra, nada castra, nada contém?

A dialética da finitude e do ser infinito é um dos ecos da atualidade, como já dissemos. "Não se limite a seu próprio corpo!", é um dos mandamentos, cujo marco possivelmente se deu no fato histórico do séc.XX , a dissociação entre sexualidade e reprodução.

Ofuscado pelo brilho de uma existência sem limites, o corpo deixa de ser suporte para o sexual e para o erógeno. E nos perguntamos desses desvarios.

Piera Aulagnier pensa o corpo como o fragmento de realidade que o sujeito habita. A constituição da subjetividade seria uma longa história a ser construída aí. Faz um longo percurso sobre a realidade, o corpo e as exigências culturais, para abordar o estatuto psíquico do corpo falado. Nesse trajeto, pensa em alguns percalços. Um deles, a automutilação no autismo: uma excessiva correspondência entre espaço de corpo-espaço de mundo, onde se impõe ao corpo o que não se pode impor ao mundo do qual se quer ignorar a existência.

O corpo psíquico é um corpo ancorado no corpo biológico, no fragmento de realidade que este corpo enquanto espaço somático representa, com um destino desejante e uma permanente construção fantasmática. O Eu será o biógrafo dessa história, uma história libidinal e uma história identificatória. Apoiada na história da vida somática. Nessa história libidinal dará lugar aos discursos através dos quais seu corpo fala e se torna falante. "Nossa relação com o corpo, assim como nossa relação com a realidade é...função da maneira como o sujeito ouve, deforma ou permanece surdo ao discurso do conjunto." Uma vez esta história escrita, ela permanece aberta às reconstruções, às mudanças desejantes, aos limites do corpo, lutos necessários ao longo da existência. E por esta versão permanecer movente, o sujeito pode certificar-se de sua própria permanência, aceitando as inevitáveis mudanças físicas e psíquicas da vida, até que a morte ponha um fim. Mas a "permanência necessária de certas referências identificatórias desapareceria se o Eu não guardasse a certeza de habitar um mesmo e único corpo, sejam quais forem suas modificações".

Não seria a certeza de viver em um mesmo e único corpo, aliada à presença de um Eu e de um espaço interior, que Orlan consegue mudar tanto seu corpo sem enlouquecer?

Piera problematiza a questão da época, os efeitos deste corpo entregue ao discurso científico e a um destino puramente biológico, paupável e visível, em detrimento de um corpo fundado no discurso religioso, com um interior inviolável, sagrado, mais propício às fantasmatizações. É uma colocação delicada, poderemos pensar que mesmo no limite da visibilidade de um corpo, o sujeito desse corpo o imaginariza e segue fazendo suas estórias. Ou que o fechamento paterno e castrador do discurso religioso não necessariamente coloca este corpo e a cultura com maiores possibilidades fantasmáticas. Pensemos nos clitóris estirpados do mundo islâmico. Mas o fundamental em sua colocação é a pergunta sobre o destino que uma cultura dá ao corpo, e neste sentido, esta questão nos atravessa inteiramente.

Ao articular o conceito de corpo e realidade, Piera nos lembra Freud, que postula a realidade, em última análise, como incognoscível. Um resto desta realidade, e portanto deste corpo, se furta indefinidamente ao acolhimento subjetivo, a esta tomada de conhecimento pelo Eu. Algo deste real do corpo, ou desta esfera fora do campo do humano, puramente orgânica, nos permanece enquanto um resto. A ser vivido, incorporado, temido, a nos acompanhar. Onde orgânico e inorgânico coincidem.

Sob este aspecto, poderíamos pensar o discurso contemporâneo e o que oferece de discurso para este corpo, e nas fraturas subjetivantes em que este corpo vem sendo lançado, onde nos encontramos com a body art, arte carnal, e onde também nos encontramos com o Unheimlich de Freud, o estranhamente familiar deste resto de corpo que nos acompanha. São nestes rasgos no simbólico que arte, unheimlich e vivências limite se encontram.

Nos perguntamos o que disto tudo vem emergindo violentamente no corpo, lembrando, como Piera, o que está desde Freud: a separação sujeito-corpo não existe, mas há um "separado" no corpo a ser permanentemente resgatado, vivido, suportado. Onde o discurso contemporâneo toca e interroga: um separado a ser resgatado ou a ser radicalizado e posto a nu até as últimas conseqüências? E o que nos cabe como questão, como sujeitos e como analistas que somos, tão mergulhados na contemporaneidade quanto nessas transferências, leitos desses corpos, mais inteiros, aos pedaços, sofrendo, morrendo ou encontrando um lugar no imaginário da atualidade: do que andam falando esses corpos na clínica contemporânea e qual o tecido psíquico/coletivo necessário para suportá-los?

Chegamos a uma outra questão: há algo desses discursos sobre o corpo e desses vividos no corpo que se impregna mais nos corpos femininos, um corpo mais penetrável e mutante?

Talvez Orlan leve às últimas conseqüências uma das práticas mais correntes na construção da beleza feminina no final do séc.XX, que Philippe Perrot resume de maneira feliz: "infiltrada de vitaminas, de colágeno e de elastina, encolhida ou inchada com silicone, escarificada (rinoplastia, mamoplastia), estendida (lifting), limpa (peeling), depilada, hidratada, tonificada, fortalecida, amaciada, enrijecida, alisada, bronzeada, a pele, mostrada em sua perfeição laboriosa, esquiva de fato sua nudez, pois se apresenta idealmente como uma nova vestimenta, sem falhas, sem costuras, sem cicatrizes, sem rugas, sem usuras."

Danielle, Elaine, Julia, Paula, Renata
Agosto/2001