|
O sonho americano.
Manoel Tosta Berlinck
Aí pelos idos de 1920, um pensador alemão chamado Max Weber publicou A ética protestante e o espírito do capitalismo, livro de espantosa atualidade.
Nele, Weber defende o ponto de vista segundo o qual a sociedade norte-americana é basicamente fundamentalista e fanática. Os pais fundadores da nação foram protestantes reformados expulsos da Inglaterra devido ao fanatismo religioso que abraçavam e segundo o qual, ao contrário do que acreditam os católicos e a Igreja da Inglaterra, Deus escolhe alguns para alcançarem seu reino da salvação assinalando-lhes, em vida, essa escolha. Em outras palavras, os eleitos por Deus - os predestinados - seriam avisados ainda em vida que haviam sido selecionados e aprovados para o paraíso após a morte. Entretanto, esses sinais não se manifestam gratuitamente de acordo com a infinita misericórdia de Deus, mas devem ser obtidos, conquistados graças a uma racionalidade baseada numa vida puritana frugal regida por um estrito moralismo e pelo trabalho. O acúmulo de bens materiais e morais, resultantes desse tipo de vida, é que constituem os sinais da predestinação manifestando-se singularmente. Assim, o individualismo, a competitividade, o pragmatismo, a ganância e a moral puritana frugal que, segundo Weber, constituem as colunas mestras do denominado espírito do capitalismo fundam-se na ética protestante.
Weber não levou às últimas conseqüências a sua brilhante análise que se distanciava do marxismo. Entretanto, hoje, depois de quase 100 anos de A ética protestante e o espírito do capitalismo, é possível se dizer que o sonho norte-americano, aquilo que é a realização do desejo de todo norte-americano profundo (os WASPS - White, Anglo-americans, Protestants), é o de se reconhecer como um predestinado e, portanto, senhor de um poder divino que lhe foi concedido graças à moral protestante e ao trabalho competitivo. Além disso, esse tipo de ética revela-se profundamente preconceituosa porque aqueles que não são portadores desses sinais não são verdadeiros filhos de Deus, ou melhor, são filhos de Deus, mas de segunda categoria e só servem para, diante de seu fracasso, assegurarem a glória aos predestinados. Os fracassados são seres basicamente inferiores porque não contam com a infinita misericórdia de Deus, pois não são escolhidos aqui e agora para uma vida gloriosa depois da morte. Além disso, essa Weltaunschaung, essa visão de mundo, como escrevia Weber a respeito da ética protestante, faz com que sempre haja dois tipos sociais: os predestinados e os inimigos desejosos de destruir os primeiros para conquistarem a graça divina.
A saga norte-americana, dos cowboys do velho Oeste aos Rambos da atualidade, passando pelos nortistas - já que é no nordeste dos EUA onde a América profunda encontra-se instalada desde a sua origem - ameaçados pelos sulistas, é um verdadeiro sonho revelado ad nauseam pela indústria cinematográfica de Hollywood: os do bem, os predestinados, são constantemente atacados por alienígenas - índios, bandidos, japoneses, negros, hispano-americanos etc., que querem destruí-los. Mas, como eles estão do lado do bem e são extremamente competitivos são sempre os vencedores, mesmo quando são derrotados como ocorreu na Guerra do Vietnã.
O sonho norte-americano requer, portanto, a constante presença de um inimigo que, vencido, assegure a verdade do mito da predestinação. Sem isso, segue o sonho, a América corre o risco de se deprimir psíquica, social e economicamente e isso é inaceitável para os escolhidos de Deus misericordioso.
No fatídico dia 11 de setembro, quando vi pela televisão uma multidão de nova-iorquinos correndo apavorados pela Broadway e pela 5a Avenida acima, fugindo de um ataque alienígena (pois é impossível se pensar que tenha sido realizado por irmãos americanos), uma estranha voz saiu de dentro de mim dizendo: mas isto eu já vi. É um filme de Spielberg.
Não, não era. Tratava-se de uma grande tragédia ocorrendo na vida real, o âmbito onde os sonhos se realizam.
Nada justifica a violência e senti-me profundamente triste, como sinto-me toda a vez que o terrorismo se manifesta, quer seja em New York, na Espanha, na Irlanda do Norte, em Londres, em Buenos Aires, em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Mas será que não está na hora do sonho norte-americano terminar e um outro sonho começar a ser sonhado?
Este editorial está sendo escrito no dia 14 de setembro e a segunda parte do velho sonho está, ainda, sendo engendrada. Brevemente Rambos entrarão em cena para tornarem a América, mais uma vez, vitoriosa e gloriosa, sinal de que Deus misericordioso continua manifestando seus sinais de predestinação aos americanos profundos.
Mas até quando serão necessários esses repetidos sinais de que os WASPS são os escolhidos por Deus misericordioso?
Eu, por mim, digo: vocês são os predestinados! O reino de Deus é de vocês! Chega! E, agora, que tal sonhar um outro sonho?
O número 149, de setembro/2001 da Pulsional Revista de Psicanálise foi organizado pela Dra. Olga B. Ruiz Correa, a quem renovamos nosso agradecimento pela colaboração.
Manoel Tosta Berlinck
E-mail: mtberlin@uol.com.br
|
|