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O trauma como catástrofe necessária
Maria Luiza Scrosoppi Persicano
O Trauma Como Catástrofe Necessária. A função da angústia catastrófica primordial e traumática como condição necessária para a representação e para o impedimento da catástrofe psíquica.
O estado de desamparo é a catástrofe da espécie e o psiquismo na espécie é "o" traumatismo por excelência, uma consequência da catástrofe. A vivência de angústia primordial automática é "o trauma" no bebê humano, a catástrofe real do desamparo transplantada, contituindo o psiquesoma e o traumatismo do psíquico. E só no humano o trauma é uma catástrofe subjetiva.
O que é catástrofe? O que é trauma? Pode-se afirmar que o trauma é uma catástrofe pois que todo trauma transporta uma essência de catástrofe. E é também a catástrofe resultado nefasto do trauma. E ainda o trauma resulta da catástrofe, ocorre para dominar a catástrofe.
Catástrofe (MAGALHÃES, 1951; MORAES & PENA, 1956; LELLO, 1961; ABRIL, 1971 ), do grego katastrophé, do latim catastrophe, é sinônimo de calamidade e cataclisma. É também um grande desastre, desgraça ou tragédia, significando estes em si e/ou o desfecho ou desenlace deles. Acontecimento funesto por si mesmo e/ou de fim deplorável ou lastimoso. Catastrófico é o que tem caráter de catástrofe. Um acontecimento só é catastrófico se ele próprio e/ou seu desfecho preencherem este caráter de grande desastre. Apenas do ponto de vista do ser vivo a catástrofe é mais do que um acontecimento externo. É uma vivência. Um acontecimento vivido, vivenciado.
Trauma (MAGALHÃES, id.; MORAES & PENA, id.;. LELLO, id.; ABRIL, id.), do grego traûma, tem significado literal de lesão ou ferimento local, no corpo, devido a um agente externo vulnerante. Assim é valido afirmar que só se dá em um organismo vulnerável, portanto em um organismo vivo. Só há trauma se há vida. Traumático, traumatikós, é o que é relativo a feridas e contusões. Traumatismo, traumatizein, é o conjunto de perturbações ou acidentes ocasionados por ferimentos e contusões graves. Traumatismo deriva do grego furar, designando uma ferida com efracção, portanto seria termo reservado para as conseqüências no conjunto do organismo de lesão resultante (trauma no sentido estrito ) de violência externa. Em sentido amplo, trauma pode ser tomado como sinônimo de traumatismo.
Outro sinônimo para trauma é choque. Choque é sinônimo de forte abalo, comoção; embate, encontro violento; revés, golpe; luta, conflito; choque elétrico. Podemos dizer de um golpe violento, com um abalo que percorre todo o organismo como um choque elétrico. Choque, trauma e traumatismo são todos utilizados, vulgarmente, como um grande abalo físico, moral ou mental Choque traumático, na Medicina, é estado emocional de estupefação ou estupor e depressão profunda do organismo, com baixa da pressão sangüínea, falta de reação dos centros nervosos, anoxemia, modificação dos capilares, chegando à suspensão da motilidade cardíaca e/ou respiratória ( MAGALHÃES,id.; MORAES & PENA, id.; LELLO, id.; ABRIL, id. ).
O grego traûma, traumatikós, traumatizein, provem da raiz indo-européia tera (NESTROVSKI,1998), que possui dois significados: um, friccionar, torcer, perfurar; outro, triturar; passar através, suplantar.
Podemos nos permitir pensar que o trauma faria passar através, perfurando e suplantando. O trauma seria a catástrofe que passaria através, perfuraria o vivente. O trauma atravessaria com a catástrofe o vivente, através dele o organismo vivente suplantaria a catástrofe externa que o atinge, ou abdicaria uma parte ou o todo de sua existência a ela. Nos dois casos, é a catástrofe externa que se torna interna ao organismo; isto é o trauma e o traumatismo.
Segundo NESTROVSKI, é a mesma vertente da raiz tera que origina as palavras com "trans", como transplantar, transportar ( transferir? ). O trauma, como traumatismo, transportando a catástrofe externa para a vivência interna do ser vivo. Trauma como a catástrofe na vivência do ser vivo. O trauma transportável e transplantável na transferência psicanalítica.
O conceito de trauma na obra de FREUD ( 1917 ), está presente desde o início da Psicanálise e, com segurança podemos dizer, que ela não teria surgido e se firmado sem a formulação psicanalítica do mesmo. Em Psicanálise ( LAPLANCHE & PONTALIS, 1987 ) trauma é um evento de grande intensidade para o indivíduo, que é incapaz de absorvê-lo e de reagir a ele, deixando efeitos patogênicos duradouros na organização psíquica (traumatismo). A definição é basicamente econômica, pois supõe um excesso enorme do fluxo de excitação, ou um aumento da mesma num curto período de tempo ou um acúmulo demasiado de varias excitações, de menor intensidade, consecutivas, num mesmo período breve de tempo, frente ao que o indivíduo não tem ou perde sua capacidade de dominar e elaborar psiquicamente tais estímulos .
A partir desta definição de trauma pode-se ampliar, da espécie para o indivíduo, a afirmação de BERLINCK (1999),baseando-se em FREUD 1914/1990), de que o homem é um ser de catástrofe e de que é a partir dela o ser humano se humaniza, o que o faz uma "espécie psicopatológica". O psíquico pode ser concebido como "uma forma fixada de conservação da vida" (FÉDIDA,1999). O desamparo é a tragédia da espécie, sua catástrofe. E o psíquico da espécie, conseqüência da catástrofe, portanto o traumatismo por excelência. No indivíduo a vivência de desamparo no/do bebê humano é a angústia primordial que é ,em si, também, o trauma. Este é o evento - catástrofe vivenciado: a angústia primordial traumática. E é esse, e só através desse que o Humano no indivíduo desponta.
O trauma é então a catástrofe necessária sem o qual não há fundação de aparelho psíquico, nem são lançadas as bases da subjetividade. O "psicopatológico" da espécie é a "normalidade" do indivíduo. Restam, porém, para o indivíduo, todas as possibilidades psicopatológicas que este psíquico pode alcançar, da histeria de angústia à melancolia, e por fora delas, o autismo, os casos limite e psicossomáticos.
A condição primeira do recém nascido é o estado inicial de desamparo ( FERENCZI,1933; FREUD, 1926, 1927 1930 ), em que se encontra numa relação fundadora com o adulto onipotente do ponto de vista de sua sobrevivência como ser vivo e como humano ( PEREIRA, 1999 ). Desamparo é a condição daquele que é deixado sem ajuda, sem socorro, e o termo "exprime este estado de total desamparo do pequeno humano à assistência do adulto que lhe socorre, o que daria lugar a uma abertura para o outro graças a uma falha diante de um fator econômico insuperável".( PEREIRA, 1994 ). Esta é a condição inicial do funcionamento do aparelho psíquico, no qual a criança é incapaz de dar fim, por si mesma, ao estado de excitação pelo aumento da tensão de suas necessidades e, menos ainda, de dar conta, por si só da excitação pulsional necessária e da correspondente pára excitação pulsional indispensável. Podemos dizer que este é o estado de trauma. A vivência da angústia automática, portanto, é o estado de trauma primordial humano. É bom sublinhar esta angústia primordial como uma vivência psicofisiológica, pois a angústia só será, respectivamente, experiência e experiência existencial enquanto angústia sinal, quando responder um aparelho psíquico e, depois, um sujeito. Este estado traumático de angústia automática, é a catástrofe real do desamparo que se transplantou, se transportou, para dentro do psiquesoma do bebê humano. A catástrofe, agora, é a vivência angustiada de desamparo humano. Esse é o trauma primordial e inaugural no/do humano Qualquer outro acontecimento não será vivido como catástrofe para o humano se esse não estiver implicado na vivência do acontecimento.
A vivência de catástrofe pelo animal é um trauma físico e quiçá, na ponta evolutiva das espécies, algo de "angústia" bruta ou terror em sua fugaz "dimensão psicofisiológica" que terá no animal humano. Discordo de afirmações quanto à origem não -vivenciada da angústia natural ou terror ( FIGUEIREDO, 1999 ). A vivência da catástrofe no humano é antes de tudo a da catástrofe do desamparo primordial e a vivência desta catástrofe se dá "através" da angústia primordial, ou terror, que "passa através" do corpo, inaugurando um psiquesoma. Esta vivência angustiada é a vivência de trauma que processa a fundação do aparelho psíquico, psicofisiológica ainda, mas já vindo a ser representante psíquico da pulsão ( não ainda representação), frente à catástrofe do desamparo primordial do humano que nasce.( FREUD, 1926, 1927, 1930 ). A ela se seguirá o recalque originário fundante do psiquismo representacional e dos primórdios da subjetividade. Só aí a angústia pode ser angústia experiência de um sinal de alarme de catástrofe e não apenas angústia vivência catastrófica. A angústia, através da representação, transforma-se- de catástrofe vivida em sinal dela. E só no homem o trauma é catástrofe subjetiva.
É válido portanto afirmar que sem catástrofe não há representação ou que só há representação com catástrofe, quando o traumatismo se caracteriza pela constituição do psiquismo representacional. Quando a angústia primordial, traumática, qualificativa do estado de desamparo do bebê humano, encontra no outro humano onipotente a excitação necessária e a pára excitação suficiente, ela se encaminhará numa incessante elaboração psíquica em direção à representação. Aí é a catástrofe do trauma propiciando o traumatismo constitutivo do Humano simbólico. Porém a catástrofe pode impedir a representação. Esta catástrofe é o trauma que não é ultrapassado, que permanece como catástrofe pura , que deriva em traumatismo psicopatológico, em vez de derivar em traumatismo fundante do psiquismo. O trauma como catástrofe é o único capaz de promover psiquismo, no sentido de elaboração do trauma, de significá-lo, de ligá-lo a representações possíveis, dando-lhe o sentido que enquanto vivência traumática, repetidora da catástrofe externa que "transporta", não pode alcançar.
Referências Bibliográficas
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FERENCZI, S. - "Confusão de línguas entre os adultos e a criança". In FERENCZI, S., Obras Completas, São Paulo, Martins Fontes, 1992.
FÉDIDA, P. - "Não está acontecendo nada". Pulsional Revista de Psicanálise. Ano XII, n.º124, agosto 1999, pp. 14-20.
FIGUEIREDO, L. C. - "As Províncias da angústia". Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental Vol. II. n.º1, março1999, pp. 50-63.
FREUD, S. - "Fixação em Traumas. O Inconsciente", !917.In ESB, Rio de Janeiro, Imago, 1976, Vol. XVI.
Neurose de Transferência: Uma Síntese. Rio de Janeiro, Imago, 1914/1987).
.............."Inibições, Sintomas e Angustia", 1926. In ESB, Rio de Janeiro, Imago, 1976,Vol.XX.
............."O Futuro De Uma Ilusão, 1917; "O Mal Estar na Civilização",. 1930 In ESB, Rio de Janeiro , Imago, 1774,Vol. XXI.
LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J-B. - Vocabulário da Psicanálise, São Paulo, Martins Fontes,1983.
LELLO, J & LELLO, E. - Dicionário Prático Ilustrado, Vols. I e II, Porto, Lello & Irmão Eds.,1961
MAGALHÃES, A. - Dicionário Enciclopédico Brasileiro (4ªEd.) Rio de Janeiro - Porto Alegre - São Paulo, Ed. Globo, 1951.
MORAES, O. M. E PENA, L. A. - Dicionário de Sinônimos e Antônimos (5ª Ed.). Rio de Janeiro, Livr. Tupã Ed., 1956.
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PEREIRA, M. E. - "La question de l'hypnose d'effroi". Revue Internationale de Psychopatologie", nº13 1994 pp.51-72 ( ap. trad.)
............Pânico e Desamparo. São Paulo, Ed. Escuta, 1999.
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