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A psicanálise e os padecimentos contemporâneos1
Mario Pablo Fuks
Resumo
Nas últimas décadas, a clínica psicanalítica tem se estendido a tipos de sofrimento diferentes dos que constituíram sua clientela clássica. Isto significou estímulos e, por momentos, desafios para o trabalho terapêutico e um esforço para a conceituação psicopatológica. Houve invenção de conceitos novos e reformulações metapsicológicas globais. Pode-se estudar a história destas relações, como por exemplo: demanda clínica, criação de conceitos teóricos e reformulação do modelo de aparato psíquico; mas é possível, ou necessário, tentar pensar nestas alterações à luz das mudanças mais gerais que afetam a sociedade e conferem características peculiares à subjetividade contemporânea.
Resumen
En las últimas décadas, la clínica psicoanalítica se há extendido a tipos de sufrimiento diferentes de aquellos que constituyeron su clientela básica. Esto implicó estímulos y desafíos para el trabajo terapéutico y un esfuerzo en la conceptualización psicopatológica. Hubo invención de conceptos nuevos y reformulaciones metapsicológicas globales. Puede ser estudiada la historia de estas relaciones, como por ejemplo, demanda clínica, creación de conceptos teóricos, y reformulación del modelo de aparato psíquico; pero es posible pensar estas alteraciones a la luz de las transformaciones más generales que afectan a la sociedad , confiriendo características peculiares a la subjetividad contemporánea.
Em Neurose e psicose, Freud (1924), desenvolvendo a idéia de que tais formações psicopatológicas são compreensíveis em termos de conflitos do eu com as diversas instâncias que o governam - correspondentes, portanto, a um malogro de sua função - diz que, em certas circunstâncias, "o eu terá a possibilidade de evitar a ruptura para qualquer um dos lados, deformando-se a si mesmo, consentindo menoscabos à sua unicidade e eventualmente segmentando-se e partindo-se" (p. 158).
Em função disso, as "inconseqüências, extravagâncias e loucuras dos homens apareceriam, assim, sob uma luz semelhante a de suas perversões sexuais: em efeito aceitando-as, eles se poupam de recalcamentos" (p. 158)2.
O mecanismo da recusa, que já se antecipa nesse trabalho como um meio para lidar com certos aspectos da realidade externa, dará conta, como no fetichismo, de algumas das extravagâncias próprias desses quadros.
Penso que outra das deformações corresponderia a um tipo de redução ou "esvaziamento" dos conteúdos do eu. Falando dos nexos do eu com o mundo exterior, Freud diz o seguinte:
" Normalmente o mundo exterior governa o id por dois caminhos: em primeiro lugar pelas percepções atuais, das quais sempre é possível se obter outras novas e, em segundo lugar, pelo tesouro mnêmico de percepções anteriores que formam, como "mundo interior", um patrimônio componente do eu" (p. 156)3.
Na amência, ambos os caminhos ficam desinvestidos. A partir disso, podemos pensar que nos quadros que Freud descreve neste trabalho como alterações do eu, o caminho perceptivo atual ficaria aberto mas o tesouro de representações, lembranças, fantasias, pensamentos, emoções e linguagens estaria limitado ou bloqueado e o "mundo interior" acabaria, recorrendo à terminologia freudiana, reduzido em seu valor psíquico e investidura.
Em conseqüência, a relação com a realidade tenderia a ser formal e fatual, com pouca densidade significativa, dada a limitação de recursos elaborativos afetivos, imaginativos e simbólicos. Isto limita as possibilidades de processamento da tensão pulsional pela via do princípio do prazer-realidade, através das formações do inconsciente e da ação específica destinada a alcançar a satisfação na realidade.
É possível que o incremento de excitação sexual parcialmente erotizada, resultante da afluência intensa e veloz de estímulos que caracteriza o tipo de vida contemporâneo seja o elemento que rompe o equilíbrio, acrescentando às "extravagâncias" apontadas a produção de sintomas neuróticos, mas principalmente de mecanismos evacuativos da tensão inelaborável, como a somatização, o acting-out e as diferentes saídas aditivas.
A investigação clínica e teórica deste tipo de alterações começou a alargar-se e consolidar-se por volta dos anos 30, com o trabalho de Helen Deutsch sobre as "personalidades as if" ou "personalidades como se". Os pacientes, que eram em sua maior parte mulheres, apresentavam uma normalidade aparente (na verdade passividade e submissão ao meio), falta de autenticidade e calor; suas expressões emocionais eram formais, estando excluída toda experiência interna. Pareciam atores experimentados que se dedicam a fazer "como se" ( Deutsch, 1934).
A autora afirmava existir menos recalcamentos do que falta de catexias de objeto, apesar do que, uma modalidade imitativa e mimética permitia a adaptação ao meio. Graças a uma combinação de passividade e plasticidade, qualquer objeto podia servir para uma identificação rápida mas superficial, que permitia uma fácil substituição posterior. Sem mal-estar, sem angústia (a angústia nesses quadros era sentida pelo outro). O que se passava com elas? Algo faltava... mas o quê? Um vazio sem emoções, uma forma sem conteúdo pessoal. Uma ausência de si.
No psicótico, ou pré-psicótico, o outro é usado para o controle projetivo do insuportável dentro de si, através da externalização. Estas outras personalidades utilizavam o exterior para suprir o vazio de seu espaço interior. Não expulsavam de dentro para fora como o psicótico; não faziam uma mise-em-scène, como o histérico, de um script fantasmático interior. Encontravam um cenário psíquico num mundo exterior, precisavam de um diretor de cena para sentir-se existindo (ver Pontalis,1973).
Por volta dos anos 60, descrições de pacientes com estas características aparecem em trabalhos de Winnicot sobre o falso-self; nos anos 70, nos trabalhos de Bleger sobre "personalidades fácticas"; e, posteriormente, com referenciais teóricos diferentes, nos "transtornos de personalidade" e "personalidades narcísicas" de Kernberg e Kohut.
Vários aspectos podem ser destacados a respeito das características da abordagem da maior parte destes trabalhos. Se utilizamos um referencial exclusivamente freudiano, as patologias que estamos considerando podem ser definidas , como perturbações do caráter nas quais o determinante são as alterações do eu no campo do narcisismo, sem chegar a constituir-se como psicoses ou neuroses narcísicas (melancolia), mas que afetam o sentido e o valor do eu.
Verifica-se um tipo de escolha de objeto predominantemente narcísica, com relações de objeto de um caráter peculiar; um funcionamento defensivo que envolve os mecanismos de recusa e dissociação com produção de formações sintomáticas, de conduta e relacionais, de significação fetichista (as extravagâncias ou loucuras); um funcionamento presente, mas limitado, dos processos de elaboração psíquica de tipo neurótico e segundo o princípio de prazer-realidade, que ao falir, descompensar-se ou ser sobrepassado pelas tendências narcísisticas e a compulsão de repetição, tende a funcionar "para além do princípio do prazer", com produção de sintomas psico-somáticos, acting-out, explosões de pânico e condutas aditivas.
As características apontadas permitem associar estas formações psicopatológicas com outros quadros que tendem a ser constituídos, hoje em dia, como entidades nosográficas independentes, como as adições, anorexias-bulimias, doenças psico-somáticas, síndrome de pânico, muitas depressões e certas perversões. Associá-las não quer dizer reuni-las nem fazê-las dependentes de um tipo de personalidade. No entanto, as dinâmicas reconhecidas são úteis para compreender os diversos quadros. Tendem a ser incluídas, todas elas, numa denominação muito geral de patologias de borda, ou patologias atuais ou contemporâneas, tanto pelo caráter epidêmico, que muitas delas vêm adquirindo, como a partir das linhas de trabalho que enfatizam em sua determinação o papel dos modos hegemônicos de produção de subjetividade4.
Mas, voltando aos trabalhos, de certo modo históricos, já mencionados, tende-se neles a valorizar, cada vez mais, a incidência do meio ambiente familiar, as características dos vínculos intersubjetivos e as falhas dos cuidados parentais em épocas precoces. Criam-se ou valorizam-se novos conceitos metapsicológicos, como o de "self", "não-eu", "partes" ou "núcleos psicóticos", etc., e recorre-se a conceitos de outros campos: identidade, individuação, personificação. Num trabalho renovado de modelização, valorizam-se diferentemente os mecanismos psíquicos fundamentais e os secundários, nos processos constitutivos e nos mecanismos patogenéticos, dependendo, em grande medida, das diferentes escolas e linhas teórico-clínicas pós-freudianas, que se desenvolvem na história da psicanálise.
É interessante o que dizia Pontalis (1973) em seu artigo "Nascimento e reconhecimento do self", comentando a literatura psicanalítica anglo-saxônica: ele lançava de início uma pergunta divertida, para uma leitura em tempos de globalização: "o self é exportável?". Sua conclusão, a certa altura do trabalho, é interessante: "Para o psicanalista francês, o self pode ser visto como uma concepção pré-analítica, de um sujeito unificado e unificante, de um sujeito que pode reconhecer-se como si mesmo, si e mesmo, ou seja, como unidade e continuidade, precária certamente, lábil, alterável, mas susceptível de escapar em seu ser, à irredutibilidade do conflito, à alteridade do inconsciente, ao inconciliável das representações, à parcialidade das pulsões, à multiplicidade díspar das identificações. Um século, hoje, de experiência analítica, tem minado a ilusão de um sujeito monádico, de uma pessoa total, segura de pertencer-se" (p. 159)5.
No entanto, diz Pontalis, se introduziram o self, foi para resolver o problema que lhes causava a análise de seus pacientes: "O momento em que os conceitos são mais úteis é quando se estão formando"6. Ocorre-me que isto pode ser válido e útil para o trabalho de compreender e teorizar as patologias contemporâneas na atualidade. "Sou consciente - diz ele - do que tem de oscilante em meu passo: sustento que a experiência clínica tem tornado necessária a introdução do self, e ao mesmo tempo, que o conceito não é aceitável" (p.173). Emerge, sim, como uma intuição na espessura do trabalho clínico. "Creio que se trata, tanto no paciente como no analista, de um fenômeno subjetivo que advém ou que falta, que tende a descobrir o término do self, muito mais que uma estrutura da pessoa ou a pessoa mesma" (p.174). Parece-me interessante esta posição; parece-me que, mais que manifestar uma duplicidade incompatível na teoria, estimula a exploração, no campo de uma clínica "animada" pela elaboração psicopatológica , da problemática da crença e do sentido nas vivências do eu, ou de seu bloqueio/desbloqueio, como no estranho-familiar, a despersonalização , o déjà-vu, etc.
Valorizou-se crescentemente o impacto do contexto sócio-cultural, as mudanças nos modos do convívio familiar e as formas de sociabilidade, das formas de individuação e de laço social, sob o impacto do capitalismo avançado, da sociedade do consumo e do espetáculo etc. Cientistas sociais e psicólogos sociais, entre outros, passaram a ser interlocutores importantes. Ao mesmo tempo em que os psiquiatras, a partir de uma reativação de um pensamento positivista e uma fundamentação organicista, querem desprender-se da linguagem da psicanálise, os cientistas sociais tendem mais e mais a recorrer a ela, especialmente no que se desprende das problemáticas que estamos abordando, com o intuito de construir um perfil da subjetividade contemporânea. Proponho-me a enfatizar estes últimos aspectos nas considerações que seguem.
Bleger (1967) fala sobre pacientes que funcionam na ambigüidade, o que implica em um eu constituído por diversos núcleos, cada um dos quais caracterizando-se por uma indiscriminação eu/não-eu, correspondendo à organização mais primitiva e indiferenciada ou fusional, em relação aos objetos. O eu, ele diz, não se interiorizou; está basicamente constituído por um conjunto de papéis e a passagem de um para outro produz um efeito de ficticidade. Isto supõe a hipótese de que o ser humano parte de uma organização em "sistema aberto" e que, gradativamente, vai se individualizando e personificando (p.189). Quando estes processos começam a acontecer, emergem os sentimentos de vazio, busca ansiosa de um objeto que os preencha, que dê um sentido à sua existência, o que pode conduzir à promiscuidade sexual ou a acessos de bulimia, tendo todos o mesmo objetivo: preencher o vazio. No horizonte, se buscaria que uma situação de estabilidade permitisse enfrentar a crise e as confusões e contradições resultantes da crise de identidade. Passar a estruturar-se como "eu fático" consiste em aderir caracteropaticamente a uma instituição, grupo, trabalho ou pessoas, que contêm e imobilizam o núcleo aglutinado - a área de organização sincrética ou psicótica da personalidade - e que passam a ser a identidade do sujeito. Estão totalmente orientados para a ação, com pouco desenvolvimento de um pensamento autonomizado do mundo externo que suporia a presença de um eu interiorizado. Esse "eu fático" é um eu de pertinência; não há um "eu interiorizado" que dê estabilidade interna ao sujeito (p. 245).
O que pode ser observado através destas descrições, como um negativo de uma fotografia, corresponde aos traços essenciais de um modo de diferenciação e individuação que é próprio da modernidade e que aponta para um imaginário de "interioridade". A instauração da propriedade e a constituição da privacidade, com a criação concomitante de espaços diferenciados entre o privado e o público, alcançam seu ápice com o indivíduo burguês, pelo menos no mundo capitalista ocidental7.
Propriedade, privacidade, individualidade e intimidade, a partir de um "interior", permitem estabelecer e assegurar a relação com os outros e com o próprio corpo. "A porta", essa figura tão presente na literatura, dá um suporte imaginário à articulação entre o espaço próprio do homem e o que está fora dele. George Simmel, citado por Galende (1994), diz:
"é essencial para o homem, no mais profundo, o fato de que ele mesmo se ponha uma fronteira, porém com liberdade, ou seja, de maneira que também possa superar novamente essa fronteira, e situar-se mais além dela" (p.65-66)8.
Conforme esta concepção da subjetividade, própria da modernidade, as figuras que delimitam o normal e o patológico correspondem a estar "dentro de si" ou "fora de si".
No entanto, contemporaneamente, o individualismo - como valor exacerbado - somado à queda de valores do público - como espaço de cooperação, emulação, concorrência e solidariedade - tende a conformá-lo como lugar de massificação, promovendo a indiferenciação e o predomínio da ambigüidade, no sentido de Bleger, como dificuldade crescente de discriminação. A individuação torna-se individualismo e este, por sua vez, isolamento e indiferenciação. Por outro lado, os valores de profundidade e interioridade vão perdendo espaço, tendendo a serem substituídos por valores referidos à superfície e exterioridade. Contribuem para isso as formas novas de sociabilidade, que tendem a promover a conformação das individualidades no modo de estilos de ser e aparecer em uma cena social, configurada como espetáculo.
Na composição da personagem que identifica o sujeito neste cenário, a imagem do corpo ganha um papel de relevância. A exacerbação desta lógica de sujeitos-fachada, constituídos de imagem, sem volume nem interioridade (Birman, 1999), terá fortes efeitos patogênicos que envolvem a corporalidade, tais como anorexia-bulimia, compulsão e adição às práticas farmacológicas, fisioterápicas, cirúrgicas ou esotéricas de emagrecimento, rejuvenescimento, etc. O corpo fica submetido aos mandatos do ideal. Sobrevalorizado e exigido, acusando os efeitos do estresse resultante, as culpas por suas alterações e sofrimentos serão apontadas na conta do seu portador, que deveria ser capaz - em nome da ilusão de domínio onipotente sobre os limites fisiológicos, o envelhecimento e a morte - de defender-se por si só de seus efeitos patogênicos.
A figura da anoréxica aparece associada, também, a um ideal absoluto e hipnotizante que impõe o triunfo da imagem sobre a percepção. É a partir daí que ela passa a ser quem dá as cartas: triunfa sobre a necessidade alimentar, a sexualidade e as regras da moderação. Forçada a comer, o desespero será dos outros. Alcoólatras, toxicômanos e alguns perversos ficam fora do alcance da angústia com o mesmo recurso.
Nesse mundo tão marcado pelo império da imágem e do consumo, as relações amorosas tendem a ser superficiais e passageiras, com pouca tendência a transformar-se em verdadeiros vínculos. Os afetos são tênues, sem enigmas nem dramas. Tal como nas personalidades "como se", de H. Deutsch, a relação se impregna de tédio, futilidade e vazio. Não havendo perda, mas substituição, também faltam a nostalgia e o reencontro. Não se cultiva a memória nem se dá lugar ao luto.
Nas situações de convívio, o espaço intermediário, que reúne e separa os co-partícipes, vê-se submetido a flutuações dependentes de uma ilusão de igualdade homogeneizante (ser idênticos) ou de rejeições e encastelamentos defensivos, frente a cada movimento do outro vivido como invasivo. O temido, no fundo, é o elemento estranho e indeterminável do outro, que Bleger associou aos núcleos sincréticos da personalidade, cuja mobilização ou perda de controle seria a causadora da emergência do sinistro (Unheimlich) na relação. A sobreadaptação tende, nessas circunstâncias, a reduzir o espaço intermediário, a obturá-lo com uma realidade totalmente "familiar". Realidade factual, sem densidade significativa. É uma realidade que opera como contracatexia, como elemento selante que é tanto mais eficaz quanto mais se adira aos marcos convencionais da convivialidade de moda.
A fuga da angústia frente aos enigmas, incertezas, paixões ou perdas de amor que a alteridade e a intersubjetividade podem acarretar, tem uma presença quase universal nas patologias da contemporaneidade.
Obviamente, são produzidas depressões, mas estas apresentam características peculiares. Galende traça destas "depressões atuais" uma descrição interessante:
" Se manifestam pelo estado de ansiedade, a dispersão mental a falta de interesse pelo cotidiano, os malestares corporais migratórios e os transtornos do sono. Resulta difícil referi-los a uma vivência de perda e, consequentemente, aos sintomas do luto. Em alguns pacientes. Em alguns pacientes se assemelham ao quadro clínico da "atual-neurose" sobretudo pela referência exclusiva a um conflito ou a uma situação atual sem que se estendam conteúdos associativos. Tampouco mostram os caracteres das depressões melancólicas, apesar de compartilhar com estas as dificuldades para o pensamento, os sentimentos de vazio, a ansiedade e, em ocasiões, certo grau de agitação." ... " Pode observar-se nelas, sendo esse um traço que considero essencial, que, à diferença das depressões clássicas que sempre estão referidas a um objeto marcado por sua dimensão de perda, estes pacientes se rodeiam de objetos, que denomino "inertes", muito similares aos do consumo, com os que mantém uma relação de tipo adictivo".( itálico meu) (GALENDE,1997, P. 334).
Esta formulação de um psicanalista referida as patologias "atuais" me parece interessante de destacar para os fins desse debate, porque articula denominações corriqueiras nos sistemas de diagnóstico atualmente em voga, com conceitos clássicos da nosografia e metapsicologia psicanalíticas, justapondo-os à noção de objeto de consumo de presença crescente nas diversas correntes dos estudos sobre a subjetividade contemporânea.
Alguns trabalhos atuais sobre subjetividade e consumo mostram o seguinte: o consumidor deve ser um sujeito que varia sistematicamente de objeto de consumo sem alterar sua posição subjetiva. Desde criança, a vertiginosa substituição de roupas e brinquedos o instaura numa lógica de equivalência específica: o elemento novo da série é melhor porque é novo. O anterior não cai por ter feito já a experiência subjetiva da relação com este objeto particular, mas pela pressão do novo que vem desalojar o anterior (Lewkowicz, 1998). O objeto anterior cai sem inserir-se numa história, porque o novo, válido em si mesmo, deve ter a capacidade de satisfazer integralmente o sujeito. Os signos de reconhecimento devem ser passíveis de desinvestimento afetivo e substituíveis. No campo do trabalho, em que a diversificação da produção vem a ser o complemento deste tipo de consumo, a palavra de ordem, parece ser a mesma: "Não deixe que nada grude em você!" (Sennett, 1999).
Esses objetos constituídos pela lógica do consumo, como aqueles dos quais não se faz experiência subjetiva, corresponderiam, nos parece, aos que Galende (1997) chama de objetos inertes, conotando tanto a significação de "in-afectabilidade" apontada como a impregnação pela inércia das relações afetivas que com eles se estabelece, seja como parceiros do amor, do sexo, do trabalho, da amizade ou da terapia.
Uma quantidade de perguntas podem ser suscitadas, dando "corpo" a esta problemática, que apontam para o desenvolvimento de possíveis linhas de elaboração. O conceito de "fetiche" nos ajudou a traçar alguns garatujos nessa direção9, que excedem o marco desta apresentação.
O que me interessou aqui é aportar ao debate sobre Pesquisa em Psicopatogia alguns pontos que ilustram o andamento e as andanças da psicanálise por esta vasta e desafiante paisagem das patologias contemporâneas.
1 - Versão parcial re-elaborada de "Considerações teóricas sobre a psicopatologia contemporânea", trabalho apresentado nos Estados Gerais da Psicanálise em Paris,2000.
2 - Tradução e grifos do autor.
3 - Tradução do autor.
4 - Ver Fuks, 1999.
5 - Este trecho de Pontalis, bem como os que se seguem, foi traduzido pelo autor.
6 - H. Guntrip, citado por Pontalis (1973).
7 - Ver Galende, 1994.
8 - Tradução do autor.
9 - Ver nota 1.
Referências Bibliográficas
BIRMAN, J. A psicopatologia na pós-modernidade: as alquimias do mal-estar na atualidade. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 2(1): p. 35-49, 1999.
BLEGER, J. La ambigüedad en la clínica psicoanalítica. In: Simbiosis y ambigüedad. Buenos Aires, Paidós, 1967.
DEUTSCH, H. (1934). Algunas formas de transtorno emocional y su relación con la esquizofrenia. Revista Chilena de Psicoanálisis, v. 9: p. 9-19, 1992.
FREUD, S. (1925). Neurosis y psicosis. In: Obras Completas. Buenos Aires, Amorrortu, 1996. v. 19.
GALENDE, E. Modernidad, individuación y manicómios. In: SAIDÓN, O. & TROIA-NOVSKY, P. (orgs): Políticas en salud mental. Buenos Aires, Lugar, 1994.
-------- De un horizonte insólito: Psicoanálisis y salud mental en la sociedad actual. Buenos Aires, Paidós, 1997.
FUKS, M.P. Mal-estar na contemporaneidade e patologias decorrentes. Psicanálise e Universidade (Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicanálise e do Núcleo de Pesquisa "Psicanálise e Sociedade" da PUC-SP). No. 9-10:63-78, 1999.
KOHUT, H. A análise do "self". Rio de Janeiro, Imago, 1988.
LEWKOWICZ, I. Subjetividad adictiva: un tipo psico-social históricamente constituído. Revista de la Asociación Argentina de Psicología y Psicoterapia de Grupo. v. 21(1): 69-90, 1998.
PONTALIS, J.-B.(1973) Nacimiento y reconocimiento del "si". In: Entre el sueño y el dolor. Buenos Aires, Sudamericana, 1978.
SENNETT, R. A corrosão do caráter: as conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro, Record, 1999, p.92.
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