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A Psicanálise no Hospital Geral
Durval Nogueira Mazzei Filho
A Psicanálise no hospital geral, conjugação não muito fácil. Tarefa não muito fácil que deve estar depositada na responsabilidade de um psicanalista. Um sujeito psicólogo, ou médico, que passou pelo calvário da formação psicanalítica. Alguém que experimentou, em si, a divisão do sujeito. Que saca o mais forte que ele. O mais forte nascido no Real ou no Simbólico. Que saca o resto do encantamento do mundo na sua própria fala. Isto tem que ser dito. A Psicanálise no hospital geral, e em qualquer outro lugar onde pode ser aplicada, não pode se confundir com benemerência ou com a utopia do tratamento total, do tratamento do homem total. A Psicanálise não é a sutura final de uma mandala. Se o método tem a propriedade de entrar nas fendas do discurso objetivante da ciência, não é para fechá-las. É para abri-las um pouco mais.
E o psicanalista chamado a agir no hospital geral vai encontrar diante de si um corredor bastante estreito. De um lado, o muro do orgânico, da doença orgânica, objeto não muito apropriado para o discurso psicanalítico. O psicanalista não espera em seu consultório e nem prevê em sua teoria o tratamento de uma colecistopatia,, de um acidente vascular cerebral, de uma neoplasia, um megacólon. De outro lado, as condições para a Psicanálise. Não se faz Psicanálise de qualquer jeito. Já foi dito: Psicanálise não é benemerência e nem tratamento do homem total. E as enfermarias clínicas ou cirúrgicas nem sempre oferecem as condições para o tratamento pela palavra. Está aí o estreitamento do caminho: intervir na doença orgânica em condições aquém do suficiente.
Que o psicanalista não ceda ao perceber o obstáculo. E, então, atravessando este estreito corredor, ele - o psicanalista - vai em busca do sujeito e do desejo atrás do pulmão, do fígado, do coração, da lesão. Este é o ponto de partida. Não é muito fácil e também não é para ceder. E a ambição que opera o ato do analista é tão grande que a ela há que se elevar um obstáculo de outra natureza. A ambição relaciona-se às possibilidades: 1. O sujeito, o símbolo, o desejo, associa-se à lesão? A fala pode trabalhar para diminui-la? 2. A lesão, o câncer, pode ligar-se ao sujeito por um viés trágico e mortal. A fala pode desmontar esta ligação, deixando a doença confinada a seu leito orgânico? É possível, portanto, construir pela palavra uma derivação do desejo que se contraponha à ofensa à existência que a doença pode produzir? 3. A fala, a presença do psicanalista, pode constituir-se um bloqueio ao cientificismo militante? Influenciar médicos, doentes e pessoal técnico a refletir por mais filosofia? Saliente-se que a fala, como a Psicanálise a trabalha, não é simples informação. A fala implica em referir a posição do sujeito e, normalmente, expõe o que não se pretende. Fala-se mais do que se calcula falar. São três pontos que revelam a ambição do psicanalista. Como se vê, não é exatamente a modéstia que os anima. E o templo onde estão os analistas - o hospital - é o lugar do discurso médico por excelência. O setor do discurso médico mais próximo do discurso psicanalítico - o psiquiátrico - há pouco tempo tem encontrado um lugar no hospital geral.
Pois então, a imagem do psicanalista no hospital geral é esta: um sujeito ambicioso caminhando por uma passagem apertada. E tem algo a fazer? Antecipadamente, a resposta é sim.
Não obstante, esse algo fazer entra em confronto com o que o psicanalista propõe para a sua própria prática. Inicialmente, o método exige tempo. Mesmo que sobejamente reconhecido que a interpretação, a pontuação, eficaz pode não ocupar mais que os segundos da enunciação de uma frase ou da marcação de uma palavra, há uma condição para que este momento privilegiado ocorra. O tempo é uma das condições inegligenciável. O analisante, o enfermo, deve ter enunciado frases, narrado algo de sua história, relatado lendas de sua família, esclarecido objetivos de seu futuro mítico. Requer tempo. Requer transferência de saber. E, tempo, em um hospital geral, é o que o psicanalista não tem. O paciente, o enfermo, submete-se a um procedimento onde o médico é soberano e o psicanalista um apêndice. Todas estas farpas não impedem, entretanto, que o psicanalista ali, à beira do leito, disponha-se a ouvir aquele sujeito a falar. Basta não afirmar que, sem o enquadramento, nada é possível. As frases virão, as lendas virão, os projetos virão. É interessante não esquecer que, se há uma distinção notável entre a prática da Psicanálise e da Medicina, é que a prática da primeira não se sustenta pela oferta de um objeto ou de um ato pelo psicanalista. Não há ninguém menos passivo diante do tratamento do que o analisante. Afinal de contas, o sujeito e o desejo articulam-se em um campo de linguagem e de fala e, sem que o enfermo as ofereça, a Psicanálise não acontece. E estando o psicanalista ciente de que a fala, como dito antes, vai além da intenção.
Uma outra questão a ser levantada é relativa ao corpo propriamente dito. Desde o início das elaborações freudianas, a comparação das paralisias orgânicas com as histéricas (1) colaborou para que a tradição psicanalítica dirigisse a atenção a um corpo erógeno, se bem que sobreposto, distinto da organização anatômica vesaliana. O corpo das histéricas que ocupavam as enfermarias do século XIX parecia com o corpo como a subjetividade o representa, como a cultura o veste, e não como os axônios desenham-se em feixes nervosos.
Que a anatomia científica ocidental, apesar de sua vocação à onipotência, não é a única a recortar o Real do um organismo por um discurso, os acupunturistas já esclareceram. As linhas de energia dos meridianos que orientam a colocação terapêutica das agulhas "não correspondem muito ao padrão do sistema nervoso" (2). E os acupunturistas desenvolvem o mesmo sentido prático do médico animado pelas concepções ocidentais. Esta referência serve a imaginar que é possível falar do organismo de mais de uma maneira. Ler o organismo como corpo significante, produto da sexuação, é o viés da Psicanálise. O psicanalista pode, portanto, dizer com tranqüilidade que seu corpo, o corpo de sua teoria, não é o da anatomia biológica. Porém, o psicanalista, munido desta concepção, vai bem defronte do corpo histérico e esta bem aventurança não necessariamente é extrapolável ao colédoco obstruído por uma litíase produzida no profundo e escuro metabolismo hepático. Há símbolo, há significante aí? Responder sim ao significante como causa é ousado. De uma ousadia ingênua e pouco eficiente. Dizer sim ao significante como causa do corpo histérico, foi uma ousadia eficiente no final do século XIX. Freud decifrou aquele corpo. Não obstante, o corpo em cena no hospital geral é o corpo de Vesalius, o corpo da anatomia, e é este que se encontra lesionado. É outro desafio para o psicanalista.
O quê sobra, então, para o psicanalista? Escreveu-se anteriormente que o psicanalista é um ser ambicioso, imbuído de que tem em suas mãos um meio poderoso para dirigir uma cura. Mas, está diante de uma situação que não lhe é favorável. O tempo é escasso e o corpo que fala não fala do significante. E para completar, o sujeito que sofre e pede alívio não está exatamente recostado em um divã, tendo o psicanalista por trás, em uma sala razoavelmente decorada e confortável. Um convite à fala. O design clássico da análise não está presente.
Além da referência á simples disponibilidade a ouvir, sobra algumas tarefas, sim. A tarefa do diagnóstico diferencial é uma delas. O psicanalista possui instrumentos para designar o símbolo e determinar se aquela lesão pode ou não responder à palavra. O "sim" desloca a condição apendicular do psicanalista. Ele pode receber este paciente quando este deixar a enfermaria e acompanhá-lo externamente. O trabalho com a palavra pode contribuir para que o sintoma, o sofrimento do corpo, minore. Ou, como relata Mattos (3), é possível reconhecer a presença de uma trama fantasmática sexual em um paciente impotente que percebe-se curado no período pós-cirúrgico imediato de uma varicocele e pedia aos cirurgiões uma intervenção que prolongasse a cura, dado que, passado um breve tempo, o paciente reencontrou-se com sua insuficiência. Está aí, portanto, a primeira sobra: a escuta treinada do psicanalista o instrumenta a ouvir além da queixa orgânica. Ouvir o sujeito que ali pulsa.
Outra tarefa corresponde ao trabalho com as conseqüências psíquicas do padecimento do corpo. Se bem que produto do automatismo biológico, a doença apresenta-se com uma inevitável face psíquica. Se o charme da punição divina não exerce mais o mesmo fascínio neste mundo desencantado, a doença orgânica ainda refere-se ao sujeito que adoece, a despeito de todo o enfoque tecnológico que a Medicina dispõe. Concerne ao sujeito seja pela surpresa quando os órgãos não mais estão silentes, seja pela notícia de que o corpo que habita não é apenas morada de beleza e poder., mas, ao avesso, a doença diz que o corpo é finito, que dói, que sofre. O corpo se consome. Assim, a doença orgânica aponta a morte. E, inevitável, é a doença vir com as marcas da história, da estrutura psíquica e da singularidade daquele que adoeceu. A amputação não prevista, a dieta obrigatória, a surdez que não permite mais ouvir a guitarra de Eric Clapton, a visita freqüente ao médico e as histórias que percebe na sala de espera. A cada um, a história pessoal deixou indícios de como vai vivenciar esta novidade. Do sujeito absolutamente rebelde ao aceitar resignado, senão gozoso do novo estado. O psicanalista pode aí intervir. O encontro com o corpo doente assemelha-se ao encontro de uma má notícia. A desorganização biológica põe em marcha elementos psíquicos que, até então, não se suspeitava. A doença pode corresponder a uma tremenda e dolorosa ofensa ao sujeito, até então, imortal e invencível. E tal conseqüência pode ser ouvida ainda à cabeceira do leito. Requer pontuação e atenção. O psicanalista pode, perfeitamente, ser quem ouve as demanda.
Os leitores devem ter sacado que estão sendo respondidas e matizadas as perguntas dos itens enumerados anteriormente. Falta o terceiro. A pontuação que o psicanalista pode fazer ao cientificismo militante. Mas como? A Psicanálise não é, por sua vez, filha da ciência? Sem dúvida, não haveria Psicanálise sem a ciência. Porém, o vetor contrário produz outro sentido: a ciência passa bem sem a Psicanálise. Aliás, passa bem sem a Psicanálise, sem a Filosofia, sem a Ética, sem a Religião. Com um agravante para a Psicanálise. Se as outras maneiras citadas de construir o mundo acomodam-se razoavelmente bem com a ciência plenipotenciária, a Psicanálise compete com ela. Na sua fundação, a Psicanálise contou com a colaboração da histérica para subverter a biofísica da época. Quem é o par do psicanalista hoje? A psicanálise, apesar dos inegáveis sucessos terapêuticos e culturais, não se enquadra com tranqüilidade em uma Medicina baseada em evidências, cientificista até o âmago. A Psicanálise perde em qualquer mensuração de custo/benefício, especialmente se o que se mede é a rapidez do resultado. A medicina de hoje é marcada por esses parâmetros. O tratamento há que ser evidente, barato e replicável. Desses três pilares, a Psicanálise não se sai bem em nenhum. A sua evidência não é barata e nem replicável. Apenas o seu dispositivo, o seu princípio tem como ser repetido. E o dispositivo analítico se ancora, se torna original, exerce seus poderes, exatamente quando um sujeito reconhece que se equivocou. O equívoco - no plano da ciência - demanda correção. No plano psicanalítico, o equívoco é trata do como revelação e demanda investigação. Há algo, que não é sobrenatural, subjacente - mas não abissal - ao equívoco. E a demonstração deste texto subjacente escapa ao método empírico. Este é o par atual do psicanalista: o furo, a falha no tecido apto à empiria. Esta é a última tarefa para o psicanalista. Exercer a sua clínica, demonstrar a sua eficiência, expor seus princípios devendo muito à ciência mas por fora do cientificismo militante. E, quem sabe, implicar o corpo hospitalar nesta questão. Assim procede quando demonstra ao médico que suas dificuldades em frente a um paciente individual, diante de um quadro clínico ou cirúrgico que não evolui bem, há o traço de sua história, há a lembrança da morte de um ente querido, está em jogo sua própria finitude e limites. Bem como a finitude e o limite do paciente, ao lado da história, da memória e dos laços de bem querer do enfermo. É aí nesse buraco, nesse furo da tessitura científica experimental, que o psicanalista entra com a sua intervenção. Aonde a ciência visa a imortalidade, o psicanalista circunscreve a pulsão de morte.
È por esta via que o psicanalista pode questionar o cientificismo militante, ao representar a presença que não se faz eficiente pela precisão da linguagem técnica, mas sim, pela possibilidade de acolher o que escapa da linguagem técnica. Aquilo que é falado essencialmente naturais, de uma linguagem que não é unívoca. Que mais do que representar os objetos, as sensações, as dores com presteza luta para dizer a verdade. Seguimos Heidegger (4): "Com a dominação absoluta da técnica moderna cresce o poder - tanto a exigência como a eficácia - da língua técnica adaptada para cobrir a latitude de informações mais vasta possível. É porque se desenvolve em sistemas de mensagens e de sinalizações formais que a língua técnica é a agressão mais violenta e mais perigosa contra o caráter próprio da língua, o dizer como mostrar e fazer aparecer o presente e o ausente, a realidade no sentido mais lato". Talvez pudesse não acontecer desta maneira, mas o hospital geral é, cada vez mais, um lugar privilegiado para a linguagem técnica O psicanalista pode oferecer um contraponto a esta perspectiva. Que não deixa de ser uma perspectiva cidadã e humanista, se o humanismo pode ser entendido portando traços para além do Bem.
Terminando, conclui-se que mesmo afastado de uma proposição benemerente, mesmo afastado do engano de tratar "o homem total", o psicanalista tem o que fazer no hospital geral. Pode apontar aonde o sintoma é, na verdade, uma expressão simbólica. Pode colaborar, assim, no diagnóstico diferencial. Pode acompanhar os efeitos do adoecer na face psíquica, irredutível, do doente. Pode mostrar que a linguagem da técnica tromba com o limite que a língua natural errática, predisposta ao equívoco, apresenta. E ganhará se matiza a sua ambição e se nota que a Psicanálise bem centrada em seu fundamento na fala e na linguagem pode, sim, ser exercida em qualquer "setting".
Durval Mazzei Nogueira Filho.
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