Retomando uma questão freudiana:
"A psicanálise deve ser ensinada nas universidades?"

Sonia Alberti1

Há alguns anos a questão da transmissão da psicanálise se coloca para mim, por motivos bastante óbvios: exerço a psicanálise a partir de uma formação cujo início, datável em função de minha análise pessoal, foi em 1975 e, enquanto tal, transmito-a em minha clínica. Além disso, transmito-a nas atividades de instituições psicanalíticas e, finalmente, no âmbito da universidade, tanto nos cursos de graduação, especialização, residência em psicologia quanto, agora, no mestrado. A particular pergunta que me motiva então em meu questionamento diz respeito às diferenças de cada uma dessas práticas que exerço, mais especificamente, de que maneira se dão essas diferentes transmissões e por que são diferentes.

Por outro lado, existe a questão da psicanálise na universidade e que engloba, sobretudo:

1) As observações de Elisabeth Roudinesco sobre a vanguarda brasileira nesse campo;

2) A resistência, até bem pouco tempo, tanto das instâncias universitárias quanto das instituições psicanalíticas à determinação de um lugar para a psicanálise na Universidade.

É claro que todas essas questões são complexas demais para que seja possível desenvolvê-las todas em um único trabalho. O que não me impede de iniciar seu desenvolvimento, única forma, a meu ver, de, diante delas, me por a trabalho. E assim fazendo já duas vezes nos últimos meses2, me dei conta do quanto é necessário trabalhá-las melhor.

Uma possível descoberta, de imediato, talvez explique a razão de uma certa resistência à psicanálise na Universidade, por parte de algumas instituições psicanalíticas no Brasil. Trata-se, mais uma vez, do gravíssimo problema da tradução de Freud em Português, tão grave e já tão alardeado que não é mais possível justificar a insistência nessa leitura de alguns. Em um pequeno texto, publicado originalmente na revista médica de Budpest Gyógyászat, em 1919, Freud responde à pergunta de alguns estudantes de medicina que se manifestavam pela inclusão da psicanálise no plano do curso de medicina: "A psicanálise deve ser ensinada nas universidades?" e cuja versão publicada na Gesammelte Werke chamou minha atenção nesses últimos dias por sua proximidade ao que eu mesma vinha tecendo em relação à questão, destoando, entretanto, da versão do texto publicada pela Imago. Não retomarei todo texto mas somente seu primeiro item, ou seja, seus três primeiros parágrafos, que vão direto ao tema3. Tomo a liberdade de traduzir as passagens que me parecem cruciais já que o trecho tal como publicado pela Imago se encontra em nota abaixo, nesta página.

Freud introduz sua contribuição ao debate - vejam que este debate não é novo - observando que ele deve ser esclarecido a partir de dois pontos de vista (Standpunkten): do lado da Psicanálise e do lado da Universidade. Nos ocuparemos aqui somente do primeiro por sua proximidade com a questão que eu gostaria de tratar. É notório observar que Freud, aqui, já tem muito clara a diferença desses dois contextos, dessas duas instituições, como diria Lacan muitos anos depois, desses dois discursos no laço social: o da psicanálise e o da universidade, e que uma pergunta como esta imprescinde de um debate de ambas as partes de forma que cada uma verifique as possíveis intersecções discursivas decorrentes de bons e/ou maus encontros. Trata-se, portanto, já para Freud, de dois conjuntos diferentes, cada um com suas leis e seus regulamentos, impossíveis de serem identificados entre si mas passíveis de manterem um campo de intersecção. Do lado da psicanálise, como isso se daria?

Todo analista, escreve Freud, valora positivamente a inserção da psicanálise no curriculo acadêmico. Mas isso não quer dizer, continua, que o analista seja de alguma forma dependente da universidade.

"Ao contrário: ele adquire seus conhecimentos teóricos do estudo da literatura analítica e os aprofunda durante as sessões científicas das associações psicanalíticas no debate conceitual (im Gedankentausch) com seus membros. Ele aprende o manuseio prático da técnica analítica em parte na análise de sua própria pessoa, em outra parte na análise de pacientes sob supervisão de colegas mais experimentados" (Freud, 1919:700).

O que Freud observa aqui, é preciso explicitá-lo, é que o analista, enquanto tal, não é produto da universidade, por isso ele não é dependente dela. Um analista nem mesmo se forma, enquanto analista, pela universidade, por mais que a universidade possa formar profissionais. O que demonstra, por um lado, que não houve qualquer originalidade em Lacan ao observar que o analista é produto de sua própria análise, senão a de explicitá-lo nestes termos e afinar a proposta: "o analista só se autoriza de si mesmo", a partir de sua própria análise e a partir da possibilidade de se tornar psicanalista de sua própria experiência (Lacan, 1967:15), âmbito assegurado pelo dispositivo por ele proposto, o passe. Por outro lado, essa assertiva freudiana também demonstra que a psicanálise não só não equivale às profissões de formação universitária, como tampouco é dela debitária. Voltaremos a isso depois.

Por último, Freud confirma aqui em 1919 que a formação do analista se dá no tripé: formação continuada (debates científicos entre os pares nas associações psicanalíticas), análise pessoal e supervisão de casos clínicos.

Até aqui não são graves as diferenças do texto tal como publicado nas Gesammelte Werke e na Imago, o problema se encontra no parágrafo seguinte: conforme a tradução em português, fica assegurada ao âmbito da associação psicanalítica a formação do analista enquanto houver resistência à psicanálise por parte da universidade deixando subentendido que, no momento em que a psicanálise deixar de ser excluída pela universidade já não é garantido que as associações psicanalíticas persistam! Nada disso se lê na Gesammelte Werke. Senão vejamos:

"As organizações psicanalíticas devem sua existência justamente à exclusão do âmbito da universidade e continuarão a desempenhar uma importante função de formação enquanto perdurar essa exclusão" (idem)4.

Não é a psicanálise aqui que deve ser mantida excluída da universidade para que perdurem as organizações psicanalíticas mas são elas próprias que, para esse fim, devem ficar excluídas da universidade.

Não estar atenta para essa diferença é correr o risco de, efetivamente, questionar, ou mesmo militar contra a psicanálise na universidade caso se queira preservar a função até hoje exercida pelas associações psicanalíticas na formação dos analistas e nos debates científicos que dizem respeito à psicanálise. E talvez tenha sido essa a razão de termos presenciado tantas vezes uma resistência, da parte dos analistas institucionalizados, ou seja, vinculados a associações psicanalíticas, à criação de cursos, programas, ou mesmo disciplinas de psicanálise no currículo regular das universidades. Aliás, não podia ser diferente já que Freud, nesta época, somava todos os esforços para fortalecer a Associação Psicanalítica Internacional e, ao mesmo tempo, propunha a inserção da psicanálise no curriculo regular de um curso de medicina em Budapest. Ele o justifica, no final desse artigo, da seguinte maneira: o fato de ter disciplinas de psicanálise na universidade e no hospital psiquiátrico não faz de ninguém um analista. O estudante de medicina ainda estará longe de realmente aprender psicanálise. E termina: o cirurgião tampouco acredita que sai da universidade como cirurgião experiente. Ele sabe muito bem que, para isso, necessitará de longos anos de formação especializada nos hospitais.

As distorções na leitura desse texto de Freud tiveram ainda outras conseqüências: generalizou-se o endereçamento do texto e se decidiu que Freud entendia que somente médicos poderiam estudar psicanálise. Ainda é Freud quem denuncia esse engano quando, em 1927 se viu obrigado a escrever um apêndice ao texto "A psicanálise leiga" e que todos conhecemos e no qual chega a se perguntar se a tentativa dos médicos de apoderarem-se da psicanálise não levaria ao risco de a psicanálise ser destruída pela medicina, já que, de início, foram os próprios médicos que de fato a rejeitaram, a mal disseram e a condenaram (Freud, 1927:343). O que torna também compreensível a citação recentemente publicada na rede dos Estados Gerais da Psicanálise, encontrada por Paulo Medeiros, de uma carta de Freud a Oskar Pfister:

"Não sei se o senhor adivinhou a ligação secreta entre a "Análise leiga" e a "Ilusão" [Futuro da]. Na primeira quero proteger a análise dos médicos, na segunda, dos sacerdotes. Quero entregá-la a uma categoria que ainda não existe, uma categoria de cura de almas seculares (weltliche Seelesorgern), que não necessitam de ser médicos e não podem ser sacerdotes" (25 de novembro de 1928)5.

Achado, de Paulo Medeiros que, aliás, vem bem a calhar para os debates do momento.

De qualquer maneira, o que decorre daí é simplesmente: não só o analista não precisa ter esta ou aquela formação acadêmica como não deve ser sacerdote. Isso tampouco quer dizer que nenhum sacerdote pode querer ser analista, mas que as duas práticas são incompatíveis e que, portanto, para ser analista é preciso deixar de ser sacerdote. Questão interessante a ser desenvolvida haja visto o fato de não poucos sacerdotes se submeterem hoje ao tratamento analítico (propriamente dito) e, se toda análise é didática, como diz Lacan, poderão vir a optar por assumirem a função do analista caso suas análises cheguem ao final, ou seja, cheguem a produzir um - analista. O analista, diz Freud, faz parte de uma categoria que ainda não existe, o que implica não haver profissão para o analista. Com efeito, o analista é só, e em sua solidão não há categoria senão, para retomá-lo nas palavras de Lacan (1974:28), a dos santos: "leigos tratadores de almas"?! Pois tal os leigos tratadores de almas, os santos descritos por Lacan não impõem o respeito em vida que lhe valem depois e às vezes, auréolas, e tampouco os leigos tratadores de almas fazem caridade. Razão do analista, enquanto tal, se posicionar como dejeto e, tal o santo, não funcionar quando disso goza.

Então é desse lugar que o psicanalista transmite a psicanálise em sua prática quotidiana quando sempre, novamente, recebe o sujeito - o que não o impede de rir, ao contrário. Mas esse é um lugar bem diferente daquele ocupado por quem a transmite do lugar de quem ensina.

Um analista não o é as vinte e quatro horas do dia. Seria impossível sem disso tirar, justamente, um gozo, o que, como visto, impediria seu funcionamento. Além disso, é insuportável a solidão que seu ato determina. Ao se associarem, os analistas deixam de ser santos... às vezes são mesmo encarnação do diabo, as histórias das cisões que o testemunhem! Mas uma coisa é certa: são sujeitos, enquanto tal divididos, apaixonados e sempre muito falantes, tal o sujeito histérico. Quando Lacan desenvolve os quatro discursos que fazem laço social (1969-70), sugere que o ensinante se encontra no lugar de agente do discurso da histérica que, interrogando o mestre produz o saber. Interrogar o mestre significa não se submeter a ele, significa dar vida aos significantes mestres que não deixam de ser os próprios conceitos a serem sempre novamente verificados na experiência. Eis de onde é possível ensinar numa associação psicanalítica, numa escola de psicanálise. Donde, por exemplo, falar "lacanês" não transmite, nem ensina, nada a ninguém, simplesmente porque não se está, aí, no lugar do sujeito, agente do discurso da histérica que, por definição, questiona. É muito impressionante, aliás, para quem já fez a experiência, verificar que efetivamente só se avança no saber psicanalítico quando se põe a trabalhar os significantes mestres, os conceitos, a partir de Freud.

Há algo na leitura do texto freudiano que sempre me surpreende e, para mim, só é possível avançar quando o levo em conta. Seria demais dizer que o texto de Freud cria trilhamentos? Bahnungen? talvez não. E é por isso que, na graduação, ponho meus alunos para lerem Freud. E ponto. É desconcertante como isso funciona! Freud, por si só, estimula a curiosidade, derruba os preconceitos e desconcerta os narcisismos. Na graduação sou meio, instrumento para uma leitura do texto freudiano pois deixo a este a função da transmissão. Ocorre que, às vezes, como instrumento, produzo alguma transferência e, caso se verifique a partir de minha presença, essa transferência seguirá os caminhos que produzirá. Às vezes se instala o algoritmo que Lacan nos legou também na já citada "Proposição". Particularmente prefiro que o semestre termine antes, não tanto em respeito ao semestre, mais em respeito à análise do sujeito que, novato, terá prováveis dificuldades no trânsito entre os discursos.

Porque como instrumento para a leitura do texto freudiano eu não sou diferente dos mestres que, sustentados no sofrimento e na paixão dos sujeitos - que há em cada estudante -, punham o outro a trabalho. O produto, as provas, as notas, deixando sempre a sensação ao professor de ter sido enganado e aos alunos a angústia de serem vilipendiados. Como me mantenho bastante fiel ao papel do professor em sala de aula, não é o discurso universitário que aí me determina, mas o do mestre. Já na pós-graduação é diferente e, novamente, é geralmente como sujeito no discurso da histérica que compartilho com os pós-graduandos os temas de pesquisa. A diferença entre a associação psicanalítica e o curso de pós-graduação na universidade são os contextos: se na associação psicanalítica estou entre pares que me permitem avançar em minha relação com a causa freudiana, na universidade a psicanálise pede licença, pede passagem, pois sempre será estrangeiro inquietante. É, aliás, o lugar que me parece melhor adaptado para ela.

Se em algum momento, na universidade, me inscrevo no discurso da universidade, é na hora de seguir à risca as suas normas e as fazer seguir, não sem consciência de que ainda aí sou sujeito, resto passível de ser jogado fora. Aliás, não vejo outra posição para um analista no discurso da universidade senão a da identificação ao sujeito reduzido aqui a rebotalho. Sabendo, entretanto, que esse lugar é do semblante.

Rio de Janeiro, 2 de maio de 2001.
1 - Psicanalista; Coordenadora do Mestrado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP/UERJ; Professora Adjunta da UERJ; Membro da Associação Fóruns do Campo Lacaniano.
2 - in Alberti, S. (2000) e Alberti, S. (2001).
3 - Versão em português (volume 17 da Standard Edition):
"A questão da conveniência do ensino da psicanálise nas universidades pode ser considerada sob dois pontos de vista: o da psicanálise e o da universidade. "(1)A inclusão da psicanálise no currículo universitário seria sem dúvida olhada com satisfação por todo psicanalista. Ao mesmo tempo, é claro que o psicanalista pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo. Porque o que ele necessita, em matéria de teoria, pode ser obtido na literatura especializada e, avançando ainda mais, nos encontros científicos das sociedades psicanalíticas, bem como no contato pessoal com os membros mais experimentados dessas sociedades. No que diz respeito à experiência prática, além do que adquire com a sua própria análise pessoal, pode consegui-la ao levar a cabo os tratamentos, uma vez que consiga supervisão e orientação de psicanalistas reconhecidos. "O fato de que uma organização dessa natureza existe, deve-se, na verdade, à exclusão da psicanálise das universidades. E, é, portanto, evidente que esses sistemas de organização continuarão a desempenhar uma função efetiva enquanto persistir tal exclusão."
4 - "Die psychoanalytischen Organisationen ihrerseits verdanken ihre Existenz gerade dem Ausschluss aus dem Univeristätsbetrieb und werden fortfahren, eine wichtige Ausbildungsfunktion zu erfüllen, solange dieser Ausschluss bestehen bleibt" (idem).
5 - Faria somente uma pequena modificação na tradução de "cura de almas seculares" para "seculares tratadores de almas" ou ainda "leigos tratadores de almas". Texto divulgado na Rede dos Estados Gerais da Psicanálise organizada por Maria Cristina Magalhães.

Bibliografia
ALBERTI, S. (2000) "Apresentação" in Clínica e pesquisa em psicanálise. Rio de Janeiro, Marca d'Água Livraria e Editora. pp. 7-17.
(2001) "Psicanálise e universidade" in Pulsional - Revista de Psicanálise. Ano XIV, no. 144, abril de 2001. pp. 41-4.
FREUD, S. (1919) "Soll die Psychoanalyse an den Universitäten gelehrt werden?" in Gesammelte Werke. Frankfurt a.M., Fischer Taschenbuch, 1999. Nachtragsband.
(1927) "Nachwort zur 'Frage der Laienanalyse'" in Studienausgabe. Frankfurt a.M., S.Fischer, 1975.
LACAN, J. (1967) "Proposition du 9 octobre 1967 - Sur le psychanalyste de l'École" in Acte de fondation et autres textes. Tiré à part de l'Annuaire 1982 de l'Ecole de la Cause Freudienne.
(1969-70) Le Séminaire, livre XVII, L'envers de la psychanalyse. Paris, Seuil, 1991.
(1974) Télévision. Paris, Seuil, 1974.