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Supermercado terror
Fátima Milnitzky
Talvez seja muito cedo para uma análise serena e objetiva do revoltante acontecimento testemunhado pela visão da imagem das torres gêmeas do World Trade Center sendo atingidas.
World Trade Center, literalmente, Centro de Trocas do Mundo. Quem é que não quer estar no centro, na sociedade de espetáculo? Ainda mais, no lugar aonde as trocas e intercâmbios se dão, aonde todas as fronteiras comerciais se cruzam, dando consistência a um "Supermercado", na pátria ficcional do Super-homem ?
Sabemos que a propaganda e a mídia privilegiam a imagem e a mídia eletrônica para transmitir informações instantaneamente ao maior número de pessoas. Não podemos esquecer que a própria velocidade as converte na ferramenta ideal de comunicação para todo tipo de propaganda, visto que manipuladas pela mídia, essas imagens não nos dão tempo para crítica ou reflexão pausada, ponderada. Ao lermos imagens, atribuímos a elas o caráter temporal da narrativa. Ampliamos o que é limitado pela moldura da tela de tv a um antes e um depois, e narrando histórias, conferimos à imagem imutável uma vida infinita e inesgotável. Isto é, a imagem não é apenas o que está na tela, mas fundamentalmente o que somos capazes de reconhecer nela.
O terrorismo, uma das expressões do fanatismo fundamentalista se expande à larga e de forma alarmante, multiplicando-se proporcionalmente em razão da cruel desigualdade existente entre os povos e as nações quanto à participação de todos nas benesses propiciadas pela ciência e tecnologia.
No nefasto 11 de setembro ficamos diante de nossa falha, diante do buraco negro do real, o qual procuramos enxertar com ciência, tecnologia e arte, enquanto o Taleban recita sua prece 5 vezes ao dia, lá no buraco. Mostraram que entendem de show business no maior ato globalizado que testemunhamos até hoje, demonstrando que também têm a sua "way of life".
Num clima de exclusão social e de miséria que nos atormenta desde o continente africano até as nossas favelas, circundantes de nossas megalópoles, não só o terrorismo tende a expandir-se, como também entram em risco os valores éticos e econômicos da nossa contemporânea, liberal e democrata civilização ocidental.
Daí resulta que aquilo que entendemos por segurança sofre uma tremenda e desconcertante alteração. No ato terrorista vimos os nossos instrumentos de comunicação e meios de transporte pacíficos sendo empregados como formas de destruição.
Diante da desconcertante surpresa desse ataque, o valor de segurança merece um questionameto. Como consumidores e consumidos pela lógica de mercado, podemos nos valer do discurso da psicanálise para questionarmos o supermercado terror, onde Bush e Bin Laden vão às compras, consumidores que são da segurança bélica e potentes, capazes de porem em extinção a nossa civilização. Civilização alicerçada nos ideais fundadores como liberdade, igualdade, fraternidade e cidadania, que não foram bençãos da natureza e têm de ser aprendidos, internalizados e reatualizados, numa refundação civilizatória constante, posto que não foram inventados por Deus ou pela natureza.
O superamento do terrorismo não se encontra nas prateleiras das gôndolas que vendem segurança bélica no supermercado terror. A solução bélica vai ao encontro dos pérfidos desígnios dos mentores do terrorismo. Superar o terrorismo implica em alterações em toda a sociedade. Os que acreditam em liberdade, igualdade, fraternidade não são melhores dos que acreditam em Deus, que por sua vez também não são melhores dos que acreditam em eletrons. Melhores, seremos todos quando pudermos conviver com diferenças e eliminarmos a miséria. Falo de miséria básica. Falta de alimento e teto. Ademais, também por nosso ofício de psicanalistas conhecemos a pobreza da miséria neurótica. Ferida narcísica não se supera com ataques bélicos.
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