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Identidade e reação: reflexões sobre as novas tecnologias.

Jane de Almeida

Resumo:
Las tecnologías "tele" permiten una acción a distância a traves de la telecomunicación, telepresencia o vídeo en tiempo real. De este modo se puede efectuar cambios a distancia o se puede modificar de un lado a otro. El tiempo real tiende a extinguir el atraso entre el evento y la reacción, es decir, el tiempo de reflexión. Así como la distancia virtualmente disminuida tiende a eliminar el espacio entre el sujeto que ve y el objeto que es visto. Consideramos tales nociones fundamentales al hombre moderno en la organización de su percepción; este artigo pretende reflexionar sobre el aspecto de la presentidad de estas tecnologías a partir de los tiempos lógicos propuestos por el sofisma de Jacques Lacan.

Palabras clave: espacio - tiempo - tecnologías - identidad
As novas tecnologias, principalmente as digitais, que processam imagens e sons em computador, trazem uma espécie de novidade e que tem sido bastante discutida: a "interatividade". Entende-se por interatividade uma ação recíproca que se exerce um sobre outro ou mais sistemas. O sujeito, por exemplo, pode selecionar e decidir através do clique do mouse do computador ou do telefone. Este gesto, teoricamente, o deslocaria de sua antiga posição de receptor passivo diante dos meios de comunicação de massa por interagir com uma representação. Percebe-se, no entanto, que as possibilidades de interação são mínimas e apenas dão ao sujeito uma espécie de ilusão de controle sobre meia dúzia de opções. Este tipo de mecanismo funciona mais como sutura do que como um processo de subjetivação.

Como objeção, pode-se perguntar se as tecnologias se desenvolverão ao ponto de oferecer tantas possibilidades de interação que não será mais possível se perceber a passividade da recepção. O mesmo já acontece com o consumo. Se pensarmos em duas fases de uma sociedade de consumo, como diz Gilles Lipovetsky, a primeira oferecendo objetos padronizados e a segunda oferecendo um leque tão extenso de produtos que o sujeito acredita mesmo estar consumindo algo especial, personalizado e feito para ele. Guardadas as possíveis relações de identificação com o objeto, o que se obtem ao final são os interesses do consumo. É claro que se pode pensar a interatividade na arte e isso tem feito pensadores quebrarem a cabeça a respeito da autoria. Pode-se também pensar a respeito interatividade e a ciência, e chega-se à limitação dos corpos e da natureza. Nada impede que se encadeie idéias bizarras como "mudar a textura do próprio estômago" ou a cor de um coelho como Eduardo Kac fez. Em alguns seres, tais experiências ainda provocam profundo mal-estar na medida em que elas ultrapassam os limites interação com a representação. Outro campo bastante desenvolvido da interação são os jogos. Eles simulam inúmeras possibilidades de interações, muitas delas surpreendentes. Mas sempre há - como sempre houve - um objetivo pré-determinado a ser perseguido, o que não dá ao sujeito tantas opções assim a respeito de uma subjetivação.

Antes de tudo, a "interatividade" é um conceito tão amplo que fica difícil ser definido com precisão. A história da arte, por exemplo, está cheia de exemplos a respeito da importância de um receptor ativo e pode-se mesmo pensar nos primeiros perspectivistas como Masaccio que buscou impressionar os olhos do público com a perfeita Santíssima Trindade da Capela Santa Maria Novella de Florença em 1425. A tela com uma surpreendente perspectiva linear, deixava a impressão, aos olhos não acostumados da época, de ser uma pequena capela construída no fundo da parede. A partir daí, as imagens deixavam de ser bidimensionais - se quisermos, do homem a Deus - e passavam a tridimensionais, planejadas milimetricamente para buscar o olhar de um terceiro.

Sabe-se, no entanto, que os perspectivistas vão buscar o homem completo de imagem integral, dando ao sujeito a possibilidade de identificação sem divisões. Mais tarde, a imagem representada irá se fragmentar juntamente com a queda do homem racional. Daí, imagens incompletas na arte, na música e na literatura exigirão uma completude por parte do sujeito. O mesmo vale para a escultura ou arquitetura que particularmente exigem uma disposição do corpo para uma experiência espacial. Ao sujeto, exige-se maior grau de atividade e assim interatividade.

Uma experiência um pouco mais radical é o que propõem as tecnologias "tele" naquilo que elas aproximam o objeto e o fazem presente. As tecnologias "tele" permitem uma ação a distância através de telepresença, teleação ou mesmo vídeo em tempo real. Pode-se, desta forma, efetuar mudanças a distância ou ser modificado em uma via de mão dupla. Ou seja, as tecnologias "representacionais" permitiam ao receptor uma certa manipulação na representação, enquanto que as tecnologias "tele", ainda que representacionais, permitem uma manipulação na realidade e permitem ao usuário agir a distância e em tempo real. Guerras podem ser efetivadas a distância, mudando uma realidade por meio de representações: gráficos, ícones, botões da própria tecnologia de teleação.

A "telepresença" significa presença a distância e pode acontecer em tempo real. Assim, o hic et nunc (aqui e agora) que se perde com a reprodutibilidade técnica se atualiza. Mas, não se resgatam nem a noção de autenticidade, menos ainda o testemunho histórico que depende da duração, como diria Walter Benjamin.

Benjamin já havia mostrado que tecnologias do cinema e da fotografia satisfazem o desejo de trazer o mais perto possível o objeto do espectador. Por conseqüência, a distância virtualmente diminuída tende a eliminar o espaço entre o sujeito que está vendo e o objeto que está sendo visto e o tempo real tende a extinguir o atraso entre o evento e a reação, ou seja, o tempo de reflexão.

Considerando que as noções de tempo e espaço são fundamentais ao homem moderno na organização de sua percepção, pode-se relacionar o aspecto de presentidade destas tecnologias a partir dos tempos lógicos propostos pelo sofisma de Jacques Lacan. A inscrição da subjetividade e da identidade, segundo Lacan, exige três tempos: um tempo de emergência, de hesitação e também de urgência. Momentos ou tempos lógicos de reconhecimento, através do que Lacan chama de "asserção de certeza antecipada" e identidade em relação ao coletivo na medida em que Lacan menciona subjetividade e sujeitos e evoca Freud dizendo ser aplicável à lógica coletiva e lembra a "Psicologia de massas e análise do eu". Escrito em 1945 para a revista Cahiers d'Art,"O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada" parte de um sofisma lógico, cuja solução e discussão tratam da subjetividade e de toda assimilação cognitiva (se é que assim podemos dizer) do indivíduo (pequeno outro).

Três tempos são modulados (colocados em módulos) no movimento do sofisma: "o instante do olhar" (l'instant du regard)"o tempo para compreender" (le temps pour comprendre ),e "o momento de concluir" (le moment de conclure). São três momentos de evidência com valores lógicos diferentes e de ordem crescente. Não é, no entanto, a cronologia que rege a ordem, mas uma descontinuidade tonal, ainda que o posterior sempre revele o anterior. O segundo tempo, "para compreender", objetiva algo que foi olhado e concebido pela exclusão lógica. Para Lacan, os termos da lingüística "prótase" e "apódose", como por exemplo: "Por ser....., então somente sabe-se que se é", são objetivados através de um suposto tempo de meditação do Outro sobre ele, imaginariamente, pois o tempo gasto na meditação garante ao sujeito a hesitação do Outro. Hesitação essa que o apressará em afirmar-se como tal no terceiro momento. Não se trata, segundo Lacan, de competição, da gravidade do que está em jogo ou de alguma contingência dramática, mas de urgência. É a precipitação que tenciona o tempo que levará ao ato. Lacan (1)fala em "tempo para compreender o instante do olhar. E passado o tempo para compreender o momento de concluir, é o momento de concluir o tempo para compreender". Trata-se, portanto, de tempos, de tensões, de tenções, de atrasos e simultaneamente de angústia, asserção subjetiva e asserção objetiva, cujas diferenças são instaladas pela antecipação e atraso do tempo da certeza.

Em seu artigo de Lacan relata que é dada a seguinte informação a três prisioneiros: "um de vocês poderá ser solto, e um apenas". É, então, colocado um disco nas costas de cada um dos três prisioneiros, num total de cinco discos, sendo que três são brancos e dois são pretos. Essa informação implica na posição de cada disco que, sendo colocado nas costas, impedirá que o prisioneiro veja seu próprio disco. Como isso ocorrerá:
. Aquele que primeiro descobrir que cor é a sua sairá da prisão.
2. Eles deverão encontrar essa resposta por meio da lógica.
3. Esse disco poderá ser preto ou branco. Não há mais que duas cores e cada sujeito poderá se identificar com apenas uma delas. Chance de 50% até aí.
4. Como há três brancos e só dois pretos, as chances de identificação melhoram, pois se um vir dois pretos saberá, por exclusão, que é branco. Se vir mesmo um preto, as chances de ser branco ainda continuam maiores. Isso imaginariamente, porque, lembrando o par ou ímpar, na realidade as chances continuam sendo de 50%.
5. O sujeito aí olha os outros dois tendo já em mente essas possibilidades.
6. Ele vê dois brancos. Dentro disso continua na perspectiva de ser preto ou branco. Só saberá quem é pelos outros (como os outros me vêem? Saberei pela reação deles).
Primeira suspensão.
7. Todos hesitam. Todos sabem que não há dois pretos.
8. Porém, se o outro me visse preto poderia ter saído, ou sair agora, depois dessa primeira hesitação. Uma vez que não há dois pretos, e se eu sou preto, eles poderiam se supor brancos.
9. Mas se ainda assim eles não saem, eu também sou branco. Daí se supõe: se um deles (a, por exemplo) me visse preto poderia ter pensado, "c" não saiu porque não vê dois pretos, daí sou branco.
10. Todos pensam a mesma coisa e se dirigem para sair.
Segunda suspensão.
11. Será que tenho razão? Pensa cada um deles.
12. Mas todos param e o fato dos outros pararem dá a cada um deles a certeza de que estão logicamente certos. Devem aí sair correndo em busca da liberdade antes dos outros.
13. Saem todos juntos.

Esses tempos - imaginários - misturados e embaralhados geram vertigem. Pode-se pensar aqui a consciência como a semântica ou qualquer efeito do sentido em oposição a outras lógicas. Não é bom esquecer que esses jogos são além de sonoros, de matrizes imagéticas que também levam em conta o olhar, a voz e o ritmo. Assim, tempo e espaço são organizadores psíquicos de extrema importância.

Pode-se supor então uma perda de tempos e de olhares por meio das tecnologias "tele": a perda o tempo de hesitação e uma redução do campo escópico - que poderá brevemente ser remediada pela própria tecnologia. Sobre a questão temporal, a perda do tempo de hesitação remete-nos a questões a respeito do sujeito precipitado: Macbeth poderia ser seu nome, o sujeito da ação que "faz o que tem de ser feito". E é sempre bom lembrar seu potencial de destruição. Acrescente-se a isto a proximidade do objeto.

(1) Lacan, Écrits, p. 84.
Referências Bibliográficas

BENJAMIN, Walter. "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica" em Teoria da cultura de massa. Org. Luiz Costa Lima. São Paulo, Paz e Terra, 2000. pp. 215-254.
HARPOLD, Terence. "Conclusions" em Hyper / text / theory. George Landow. Org. Baltimore, The Johns Hopkins University Press, 1994. pp.189-222.
LACAN, Jacques. "Le temps logique et l'assertion de certitude anticipée. Un nouveau sophisme" em Écrits Écrits. Paris, Éditions du Seuil, 1966 e "O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada" em Escritos. Trad. A. Quinet. São Paulo, Jorge Zahar, 1998.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. Ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa, Editora Relógio D'Água, 1984.
MANOVICH, Lev. The language of new media. Cambridge, MIT Press, 2000. PANOFSKY, Erwin. A perspectiva como forma simbólica. Trad. Elisabeth Nunes. Lisboa, Edições 70, 1999.

Jane de Almeida
Professora da Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura do Mackenzie e do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC/SP.
Email: janedealmeida@pucsp.br