|
A INQUIETANTE ESTRANHEZA DA OBRA MURILIANA
Sandra Regina Chaves Nunes
Resumo:
Murilo Rubião é um contista singular no contexto literário brasileiro. Seu primeiro livro é publicado em 1947 e recebido com bastante surpresa pelos críticos da época. Surpresa causada por sua opção literária - o fantástico - num momento em que a literatura brasileira está marcada pelo prosa de cunho regional. O escritor mineiro, então, torna-se precursor de um gênero praticamente sem antecedentes na literatura brasileira. Assim, observa-se pelas críticas publicadas nesta época, a impossibilidade, muitas vezes, de classificação desta obra. Inquietante, então, torna-se pensar a ausência de tradição literária em uma cultura que tem o elemento mágico presente em algumas de suas expressões. Familiar e estranho, é neste paradoxo que se estrutura o texto muriliano. E é neste paradoxo que se dá a inserção da obra muriliana na literatura brasileira.
LO SINIESTRO EN LA OBRA MURILIANA
Resumen:
Murilo Rubião es un contista singular en el contexto literario brasilero. Su primer libro es publicado en 1947 y recibido con grande sorpresa por los críticos de la época. Sorpresa por su opción literária - el fantástico - en un momento en que la literatura brasilera está marcada por la prosa de caracter regional. El escritor mineiro, entonces, se vuelve precursor de un género practicamente sin antecedentes en la literatura brasilera. Así, se observa, por las críticas publicadas en esta época, la imposibilidad, muchas veces, de clasificación de esta obra. Lo inquietante, ahora, se vuelve pensar la ausencia de tradicción literaria en una cultura que tiene lo "mágico" presente en algunas de sus expresiones. Familiar y estranho, en esta paradoja se estructura el texto muriliano. Y es en esta paradoja que se da la inserción de la obra muriliana en la literatura brasilera.
Desde os primórdios da literatura, o fantástico é um elemento presente. Esta é a afirmação de Borges, no ensaio "El arte y la magia" . (1)De forma mais explícita ou menos, o sobrenatural já habitou as mais diversas histórias. Só no século XVIII, contudo, é que a literatura fantástica passa a ser interesse de escritores e críticos.
O termo fantástico foi usado amplamente como sinônimo da literatura que se contrapunha ao realismo literário ou transgredia as leis de causalidade. Sob esta denominação encontra-se um universo: o maravilhoso, o estranho, o sobrenatural, o inexplicável; assim como um grande número de obras: As Mil e uma Noites, A Queda da Casa Uscher (Edgar A. Poe), Aurélia(G. Nerval), História Universal da Infância(Borges), Bestiário (J. Cortázar). Há ainda uma outra denominação - realismo maravilhoso - para obras de escritores latino-americanos como: Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marques), O Senhor Presidente (Miguel Angel Asturias). Não se pode negar a dificuldade em precisar as fronteiras deste gênero, principalmente a de alguns escritores modernos.
Na América Latina, principalmente na Argentina, há uma tradição no gênero com escritores como Horacio Quiroga, Leopoldo Lugones, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Julio Cortázar etc. No Brasil, apesar do fato fantástico ser encontrado nas obras de alguns escritores, não se pode afirmar uma forte tradição do gênero. Contudo, não se pode ignorar a presença deste.
O fantástico parece permear diversos textos da literatura brasileira desde o Romantismo, no século XIX, com Álvares de Azevedo. Encontramos suas marcas em Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Érico Veríssimo, Guimarães Rosas. Mas só a partir da obra de Murilo Rubião é que surgem escritores fiéis ao gênero: J. J. Veiga, Jorge Miguel Marinho e Nelson de Oliveira.
Murilo Rubião é um contista singular no contexto literário brasileiro, pois com a opção pelo fantástico, assume a posição de inaugurador de uma tendência literária que só encontra paralelos fora do âmbito da literatura nacional. Sua estréia literária dá-se com a publicação de O Ex-Mágico, em 1947 e é recebida com bastante surpresa pelos críticos da época. Surpresa, pois sua obra surge num momento em que a literatura brasileira está marcada pela prosa de cunho regional.
O escritor mineiro, então, torna-se precursor de um gênero praticamente sem antecedentes na literatura brasileira. Assim, observa-se pelas críticas publicadas nesta época, a impossibilidade, muitas vezes, de classificação desta obra. Os parâmetros são Kafka ou outros escritores da literatura ocidental, já que não há precedentes para o escritor mineiro.
O que mais se comentou, nestes 55 anos, após a publicação da primeira obra de Murilo Rubião, foi exatamente esta posição de precursor de um gênero sem antecedentes na literatura nacional e da contribuição que traz para a ficção brasileira e para as letras mineiras(2). Na leitura das primeiras críticas, percebe-se a impossibilidade de definição do que são seus contos(3),e o certo espanto, misto de incômodo, que provoca uma obra "tão diferente" no cenário da literatura nacional. O crítico Moacir de Andrade(4)comenta que a única coisa que se pode dizer com precisão é que são "Contos de Murilo Rubião". A afirmação fica mais clara quando observamos a diversidade de nomenclatura usada pela crítica para abordar o tratamento dado ao "real" pelo autor. Sua obra foi definida como pertencente ao fantástico, ao realismo mágico, ao absurdo, ao surreal(5).
Jorge Schwartz, em "A Ferida Exposta de Murilo Rubião", artigo publicado em 1987, no Suplemento Literário, do jornal Estado de Minasdiz que "a total ausência de uma tradição narrativa fantástica no Brasil cria um impasse quanto à definição do gênero no momento em que ele nasce das mãos de Murilo Rubião". Nem o próprio escritor sabe como definir seus contos. Para o crítico é surpreendente como, em 1943, Mário de Andrade tenta, através de suas cartas a Murilo Rubião, resolver a questão dizendo que "para todos os efeitos vamos chamar de fantasia o que você mesmo ficou sem saber como chamar". Murilo Rubião também não sabe se chama o gênero de seus textos de surrealismo, se simbolismo.
As sugestões de Murilo, como as de Mário de Andrade, não incluem o termo fantástico. O que fazem é colocar a obra em sintonia com as tendências artísticas da época, como o surrealismo, com a livre associação das técnicas psicanalíticas e com o simbolismo e a alegoria. Acostumados a um fantástico pré-Kafka, do século XIX, tentam "ajustar a uma nova modalidade" a nomenclatura conhecida. O fantástico é chamado de ultralógica, possivelmente em sintonia com a nomenclatura para superrealismo, como era chamado o surrealismo. Álvaro Lins, um dos primeiros críticos da obra muriliana, passa pela mesma dificuldade de nomenclatura, mas observa o mesmo que Mário de Andrade: o de o absurdo ser construído pelo autor e imposto como lógico. As duas realidades convivem sem espanto nesse mundo denominado, por Mário de Andrade, de ficção fantasia.
A estranheza se dá pelo fato de Murilo Rubião surgir, em plena década de 40, sem conhecer Kafka, e outros hispano-americanos, e produzir contos na moderna tradição do gênero fantástico.
A inquietação que provoca na crítica, passa para o leitor, que num primeiro momento também não compreende bem o que é essa obra. O escritor mineiro, em uma entrevista dada para o jornal Estado de Minas,em 1947, dirá que seus personagens e seu mundo foram incompreendidos.
Além da fidelidade ao gênero fantástico, outra característica da obra muriliana é seu caráter unitário, pois Murilo Rubião não se mantém só fiel ao gênero conto, mas também fiel a um procedimento de escritura que marca sua forma de compor poética. Há uma fidelidade entre os temas formulados e a maneira de construí-los, fazendo da repetição um imperativo. "É justamente nesta correspondência entre os temas tratados e a maneira de produzi-los que reside uma das chaves interpretativas da obra do Autor", dirá Jorge Schwartz, no artigo, já citado, publicado em 1987.
Apesar dos mais de trinta anos de produção literária, Murilo é autor de uma obra pequena. Em 1999, a totalidade de seus contos foram reunidos em um único livro: Contos Reunidos, com um conto inédito "A Diáspora"(6). O autor pode ser definido como um escritor que mais reescreveu do que escreveu. Alguns de seus contos sofrem alterações e aparecem transformados em outro livro, sem que o seu sentido se altere significativamente. As transformações não alteram a intriga de suas histórias; o que se verifica de uma versão para outra são substituições de palavras. Há no período de sua produção literária um sistema contínuo de permutações, que coincide com o tema central de sua obra. A metamorfose ou a modificação aparecerá como elemento forte de seus textos, levando à condenação de personagens que se vêem eternamente lutando com a impossibilidade de encontrar sua própria personalidade, ou dos que não conseguem conter suas transformações físicas, não atingindo jamais os objetivos desejados.
Este processo de reelaboração, e o movimento circular que ele produz, não é apenas temática da narrativa, mas também a busca pelo aprimoramento, a busca pela palavra exata, uma busca que guiará cada uma das ações destes seres ficcionais. O conto "Marina, a Intangível" pode ser considerado a imagem desta angústia criativa. Nele nos deparamos com a luta do escritor José Ambrósio para escrever e quebrar o vazio da folha em branco. A espera pela escrita se converte na espera por Marina. Ou, ainda, na espera pela inspiração, pela criação poética. José Ambrósio luta por um fazer poético, por realizar a sua escritura.
A fixação por conseguir romper o branco do papel e a angústia criativa espelhada em sua obra são declaradas ao escritor Mário de Andrade, através de cartas.(7)O escritor dirá que "escrever é a pior das torturas" e que as palavras eram arrancadas de si "a poder de força e alicates". (8)
Atualmente, o escritor Jorge Miguel Marinho compara-se ao escritor mineiro. Alguns dos seus contos chegam a coincidir na temática, como é o caso de "Fornada"(9),cuja personagem central não consegue controlar suas gravidezes. O gesto marcante do escritor mineiro Murilo Rubião é o da escrita e rescrita. Em Jorge Miguel Marinho, o mundo pode ser visto como um grande livro, que pode ser lido, reescrito e que nos remete à leitura de muitos outros livros.
Das inquietações provocadas pela obra muriliana resta uma para ser pensada: como, em uma cultura que tem o elemento mágico presente em algumas de suas expressões, há a ausência desta tradição literária. Familiar e estranho, é neste paradoxo que se estrutura o texto muriliano. E é neste paradoxo que se dá a inserção da obra muriliana na literatura brasileira.
(1) Borges, Jorge Luis. "El arte y la magia". Discusión, pg. 219.
(2) Alves, J. Guimarães. Diário da Tarde. Belo Horizonte, 1947.
(3) No Diário da Tarde, em 1947, Guimarães Alves chamará de conto poético este tipo de narrativa que se opõe ao romance realista. Poético, pois a imaginação se sobrepõe à imitação.
(4) Andrade, Moacir de. Estado de Minas, em 3.12.47,
(5) No momento de estréia, a obra de Murilo Rubião é vista por Oscar Mendes, em O Diário, 1947, como inédita, "a impressão de realização literária dum quadro de Picasso ou de Salvador Dali", mas ao mesmo tempo monótona pela continuidade dos temas delirantes.
Sandra Regina Chaves Nunes
Professora dos Cursos de Letras e Comunicação Social do Centro Universitário FIEO - Osasco.
Doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP
|
|