"QUERO MESMO ESQUECER QUE O MUNDO EXISTE": reflexões sobre a questão da demência"

Delia Catullo Goldfarb

Resumo:
Observamos que ante as situações de verdadeiras catástrofes sociais que vivemos na atualidade os diagnósticos de demências aumentam de forma considerável.
Quando pensamos a questão das demências, a associamos imediatamente com deterioro neuronal.
Sem querer negar essa evidência para muitos dos casos estudados proponho que nos perguntemos não só sobre o valor simbólico da sintomatologia, mas também sobre as condições psico-sociais que podem desencadeá-la.
Cabe então que nos perguntemos sobre os efeitos que estas políticas têm sobre a subjetividade, considerando em este caso especialmente aos adultos maiores e idosos.
A través da articulação de conceitos como tempo, historia, memória, projeto identificatório e desamparo, procuro neste trabalho, una línea para pensar psicopatologicamente as demências.
Nessa procura é legítimo pensar que a especificidade da demência onde o sujeito historicamente constituído se perde, não seria dada por um déficit orgânico que afeta a memória como função neurológica, e sim por um transtorno de identidade que tem efeito sobre a memória como função historizadora.

As palavras chaves São: Tempo, História, Memória, Demência

RESUMO: Este trabalho é continuação do apresentado no I Encontro Latino-americano acontecido em SP em nov de 2001, que se encontra à disposição na rede. Agora faço uma breve revisão histórica do conceito de demência para depois analisar este quadro à luz das elaborações de Piera Aulagnier sobre Projeto identificatório e e de Joel Birman sobre subjetividades contemporâneas.

Em 1990 o presidente Collor assume o poder executivo da Nação e confisca os depósitos da poupança. Seis meses mais tarde, a procura dos grupos de apoio a familiares de portadores da Associação Brasileira de Alzheimer cresce de forma considerável. A cirurgia que não pode ser realizada, a viagem que não pode ser mais sonhada, a casa que não mais será comprada. Raiva, vazio, desesperança, depressão. Cresce o diagnóstico de demências.
Julio de 2002: 7 meses depois de instaurado o "corralito", dos panelazos, e da entrada da Argentina em seus mais dramáticos níveis de miséria recebo em SP, dois telefonemas de pessoas preocupadas com o diagnóstico de demências dado a seus familiares em Bs As.

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O uso atual que fazemos do termo "demência" não é muito antigo, há apenas 300 anos, definia-se como demente a todo sujeito que mostrasse algum nível de perda da razão, qualquer tipo de "loucura", produção delirante ou comportamento insensato. As primeiras descrições de estados demenciais próximos ao conhecimento com que contamos na atualidade, datam de 1787, nesse ano Cullen diferencia as inatas, as acidentais, e as senis. Em 1816, Esquirol, diferencia a demência da deficiência mental congênita e em1838, fala mais especificamente, de demência senil. Mas, será Emmanuel Régis, médico francês assíduo leitor de Freud, que em 1911 fará uma diferenciação que até hoje se faz necessário lembrar, ele diz: "As doenças psíquicas de involução ou decadência se caracterizam pela dissolução do ser psíquico , não se trata, como na degeneração, de um vício de organização, de uma debilidade congênita; é uma desorganização, uma debilidade adquirida das faculdades. [...] A decadência psíquica está representada clinicamente por uma forma morbosa: a demência
Régis descreve também um quadro de "pré-decadência cerebral caracterizado por: fraqueza na possibilidade de transformar as sensações em idéias; diminuição da capacidade criativa; por falta de precisão e lucidez das idéias e do juízo, lacunas de memória, fadiga, preponderância da reminiscência diminuição da associação de idéias, da atenção e da vontade. Há uma retração sobre si próprio, um abalo significativo das atividades intelectuais em geral.
A estes sintomas se sucederiam os próprios da fase essencial de demência onde o essencial seria o abandono do funcionamento psíquico normal que seria causa e não conseqüência da falta de memória. E ainda agrega que a este abandono da vida psíquica normal se acrescentariam sintomas somáticos. Ou seja, coloca como fundamental e definitória a sintomatologia psíquica.
A seguir, descreve o que chama de período de estado, onde a amnésia se estende aos fatos recentes e a todo o saber adquirido não se respeitando mais que as adquisições da primeira infância. Mas, nesta fase, também há incoerências. O demenciado, a pesar de tê-lo esquecido tudo, é capaz de atividades como ler um jornal, jogar cartas ou xadrez, momentos em que a memória das palavras parece conservada. E Régis diz: "A diminuição intelectual pode ser mais aparente que real". Chegados neste ponto, no seria lícito pensar que, se o processo demencial dependesse exclusivamente de uma perda neurológica, estes períodos de lucidez, seriam impossíveis? Não há funções que se deterioram progressivamente e continuam nesse estado irreversível enquanto outras se conservam, há momentos em que o sujeito integralmente parece no sofrer de sintoma nenhum.
Finalmente quando descreve a fase terminal como a absoluta perda de toda inteligência e o deterioro orgânico total diz: "não existe nada do que foi noutro tempo emagrece, apresenta total incontinência esfinteriana, e reduzido a um estado mais o menos completo de decrepitude"
O progressivo derrumbe do Eu, provoca uma situação de perda das funções inibidoras dos processos primários deixando o sujeito à mercê de um narcisismo primarizado e mortífero.
No idoso, o estreitamento do horizonte do futuro somado à falta de mínimas condições de reconhecimento social, de habitabilidade do mundo, podem provocar um sofrimento excessivo. Cabe então que nos perguntemos que acontece com a subjetividade quando é compulsório abandonar lugares de reconhecimento narcísico e é impossível ocupar um outro lugar valorizado pela cultura, quando o modelo social muda de forma cruel e radical, quando a experiência cumulada não tem mais valor, quando já não há mais tempo para projeto de vida. Assim, o velho só pode esperar tornar-se um morto.
Que acontece com o Eu quando se encontra preso a uma situação onde parece não haver saída fora de um retorno a uma situação de dependência. Quando há um fracasso total do projeto identificatório
O Eu, só pode garantir sua continuidade tornando-se outro, modificando-se, sendo sempre diferente do que já foi, e ao mesmo tempo, sempre o mesmo. Ou seja, deve aceitar estar sempre em movimento. Movimento que é essencialmente temporal.
É função do eu pensar a própria temporalidade. E para poder faze-lo, deve investir um tempo-espaço futuro que, ante determinadas situações pode se transformar em um objeto mais do que assustador pois além da imprevisibilidade e a falta total de garantia mais o menos comum numa existência normal, pode ameaçar a sustentação de uma identidade. O Eu deve responder pela sua identidade, sem esta possibilidade, se dissolve na angústia. E na demência é da dissolução do Eu que se trata e toda ameaça ao eu, é uma ameaça a sua integridade e como tal, uma ameaça de morte, o que potencialmente transformaria toda angústia em angústia de morte
Uma possível reação do eu a este estado de sofrimento provocado pela ameaça, poderia ser um mecanismo de regressão que o proteja em formas mais primitivas de funcionamento e, em cada nível de regressão, se não se re-instaura o equilíbrio e a unidade perdidas, a angustia poderá re-aparecer exigindo maior investimento e levando a uma regressão mais profunda se o fracasso se repetir...... assim até uma dissolução do eu, quase que uma desaparição no id. Enfim: ação da pulsão de morte sobre o eu.
Ter a esperança da coincidência com a imagem ideal é o que garante a continuidade do investimento, a pesar da realidade marcar sua impossibilidade. A dor da coincidência perdida , a dor de já não ser a encarnação do desejo materno, só pode ser metabolizada se, de certa maneira, se guarda a esperança do re-encontro. Movimento temporal onde o objetivo projetado no tempo futuro, uma vez atingido, servirá especialmente para demonstrar sua ineficácia como portador de um ideal permanente, mas que se tornará origem de um outro projeto. Movimento temporal que só terminará com a morte como diz Piera Aulagnier..... ou com a demência, como eu acrescentaria.
No demenciado, o passado não está incluído no projeto futuro, simplesmente porque não há futuro, o passado retorna igual a si mesmo, o Eu perde sua autonomia, e realmente passa a ser todo para alguém que o cuida -no melhor dos casos, maternalmente- e de quem depende totalmente para sua sobrevivência.
Mas se falta um projeto de futuro não se pode responder à pergunta fundamental sobre o ser. Para suportar a angústia e conservar a identidade é necessário conservar alguns pontos de ancoragem, certos referenciais fixos aos que poder se aferrar quando surgir um conflito identificatório que questiona os referenciais do modelo.
Quando um novo modelo não leva em consideração as necessidades básicas de sobrevivência psíquica, se adaptar a ele pode ser difícil demais, pode significar uma renuncia excessiva. Fundamentalmente, perde-se um "saber", que é o saber sobre a realidade, o saber que constitui o princípio de realidade, assim, mundo físico e mundo psíquico deixam de ser coincidentes, passam a sentir-se como pertencentes a esferas diferentes. Ante esta situação ameaçadora não há de nos resultar estranho que alguns sujeitos empreendam um movimento de fuga desses referenciais sentidos como alheios e injustos, especialmente quando esse saber deixa de constituir uma salvaguarda de sua própria integridade.
O Eu, para se sustentar deve, em seu presente, poder reconsiderar o seu passado e se projetar numa ação modificadora para o futuro onde erros possam ser reparados e acertos repetidos, mas, fundamentalmente deve poder realizar uma ação verificadora da realidade que precisa coincidir com suas lembranças, deve poder confiar em sua memória e na validade de seu saber. A perda de memória, independente da intensidade e do motivo que a cause, provoca a perda de consideráveis fragmentos da identidade.
Na demência a função historizadora de memória é anulada, e este processo pode ser a causa de certos estados demenciais, retorno a um narcisismo primário absoluto que põe fim a qualquer processo de mudança e historização.
O Eu exige estabilidade, não pode deixar de existir para passar a ser outro Eu, deverá ser sempre o mesmo e modificável. Desde seu aparecimento na cena psíquica deverá obrigatoriamente pensar seu corpo, sua realidade psíquica e a realidade exterior. Isto quer dizer que deverá ter representações disso tudo que se constituirá em seu campo do investível.
A muitos investimentos poderá renunciar, outros serão substituídos, porém, jamais poderá renunciar à aqueles que são vitais para sua sobrevivência, não é possível renunciar ao absolutamente necessário. Está condenado a isso.
Assim, sempre que o sofrimento colocar em perigo seus investimentos privilegiados o Eu procurará outra causa que seja capaz de suportar tal investimento, obviamente estamos falando de uma causa que esteja ligada a seu desejo. Só pode investir no objeto que seja causa de seu desejo e que justamente por isso será também causa de seu sofrimento já que quanto mais um objeto é necessário para o prazer, mais sua ausência provocará o sofrimento. Fugir do sofrimento jamais será fácil pois significará abrir mão de um objeto causa de prazer. Mas, a única forma de suportá-lo será esperar esse tempo futuro onde a felicidade perdida promete ser reencontrada, ilusão que se conhece sob o nome de "esperança".
Para continuar investindo deverá haver sempre uma "boa causa": pensável, lógica, com sentido para sua existência
Nestes casos de deinvestimento radical o que encontramos é a expulsão de qualquer objeto que possa ser fonte de prazer. A pulsão de morte ameaça todos os objetos. Abole toda e qualquer experiência de ligação que posa contribuir à sustentação da atividade psíquica. Mas exatamente, podemos dizer que a meta final é cortar radicalmente a possibilidade de encontro com qualquer objeto cuja ausência pudesse se constituir em causa do desejo. Assim, transformando o objeto em insubstituível, não haverá mais procura, mais espera, mais desejo. Um não mais reconhecer-se como desejante. Desejo de não desejo
O desinvestimento procura apagar todo e qualquer traço do objeto, não deixar nenhum sinal de que algum investimento foi realizado, nada que permita reencontrá-lo Um vazio, um oco, um nada (de representações) Como diz Piera Aulagnier: "Compreende-se então o risco que representa qualquer experiência que pudesse culminar nesta forma de desinvestimento, único assassinato definitivamente bem sucedido" Assassinato do Eu claro está.
Que a "dura" realidade é causa de sofrimento ninguém ignora. Piera Aulagnier resume em quatro aspetos as "provas" de realidade impostas ao psiquismo: a realidade de um corpo vulnerável, a ameaça da morte sempre presente, a autonomia do desejo do outro que pode provocar a privação do objeto amado e a realidade social que cobra o alto preço da exclusão a aqueles que não aceitam suas normas. Passar por estas provas da realidade pode ser altamente proveitoso para o psiquismo que assim se forja mais condizente com um princípio de realidade. Haveria então um sofrimento necessário. O Eu confrontado com a dor, cria uma dimensão temporal pois abre uma expectativa de futuro onde o reencontro com o prazer seja possível. Inventa a esperança.
Mas qualquer sofrimento excessivo será a via de acesso privilegiada pela pulsão de morte. Quando digo excessivo refiro-me ao tipo de sofrimento não metabolizável, aquele sobre o qual não é possível fazer nenhuma elaboração, que não permite nenhum aprendizado, que no se transforma em experiência, mas todo o contrário: deixa na vida psíquica um buraco, um vazio pois é vazio de representação. Vazio onde não há luto possível. Eis porque afirmo que a demência é produto da falta de trabalho de luto, algo inclusive além da melancolia ou melhor, algo fora dela. Na melancolia há identificação a um objeto, na demência não.
Por outro lado devemos considerar que nos tempos atuais a figura do pai simbólico e praticamente ausente o que provoca a existência de um sentimento de desamparo que assim passou a formar parte da condição subjetiva própria do ser humano. Um dos grandes problemas da sociedade atual é não poder contar mais com a figura protetora do pai simbólico e isso cria o mal-estar. O pai não garante mais nada em termos de proteção subjetiva. Surgem assim novas formas e subjetivação como drogadição, anorexia e outras compulsões como alienação na Internet ou no trabalho. O conceito de "sujeito" estável, invariável e universal, está definitivamente questionado.
Todos estes quadros se aproximam, por um lado, do que a clínica vem descrevendo há décadas como estados-limites e se relacionam com uma nova forma de depressão caracterizada pelo vazio e não pela experiência de perda. E em todos eles se trata de manifestações psíquicas coladas à experiência corporal. Todos mostram uma forma de desinvestimento narcísico do corpo., os sintomas são sempre no plano corporal e a depressão por vazio é sua maior manifestação sintomática.
Podemos dizer que há uma "passagem ao ato", o que indica um baixo nível de simbolização, há uma impossibilidade de incluir as excitações libidinais no circuito do simbólico. "Não encontramos aqui uma cena como na histeria, não há um "como si". Na passagem ao ato o sujeito está submetido ao desejo do outro, responde à demanda de forma total e indiscriminada, não pode-se erigir como sujeito. Se oferece ao outro "em corpo e alma" para ser protegido do desamparo. Um apelo ao pai simbólico, que não responde mais ao chamado.
Uma destas experiências de dissolução do Eu constituído é mais comum do que gostaríamos de pensar. A velhice, em sua forma atual e ante uma realidade cruel demais é uma situação mais que propícia ao desinvestimento, não há nada a ser resgatado, não há como sustentar um mínimo de contrato narcísico para garantir a permanência do Eu.
O desinvestimento da pulsão de morte não só será sobre os objetos investidos, mas também sobre o suportes que permitem o investimento. Assim o Eu deixará de pensar , não poderá criar um conhecimento sobre suas experiências, fazer ligações entre elas, assim serão todas excessivas, Não podendo "representar" não poderá nomear seus afetos. E se não pode nomear seus afetos, não poderá registra-los na memória.
A demência é o lugar onde o sujeito psíquico, historicamente constituído finalmente se perde. O corpo de um idoso demenciado (considerando fases avançadas da doença) não parece estar atravessado por nenhum registro simbólico (baba, defeca, mija, mexe com as fezes, se despe, se masturba) tudo sem o menor constrangimento, sem a alegria que os bebês demonstram em atividades semelhantes, sem nojo. Só ante a atitude repressora dos outros podem manifestar um certo pudor ou uma "culpa" por terem feito "algo" de errado, mas que não implica em um aprendizado. Percebemos apenas o incômodo da sujeira e o prazer da higiene. É um corpo recorte de zonas erôgenas , pura fragmentação. Corpo sem sujeito.
O demenciado volta ao padrão simbólico da infância e continua regredindo até não mais ser, até o real se desamarrar do tecido simbólico, até perder tudo aquilo que a intervenção do simbólico fez construir.
Em fases anteriores à terminal será em gestos mínimos e repetidos até o cansaço (dos cuidadores) que perceberemos um fio de união com a história do sujeito: a costureira que agora dedica-se a decosturar tudo o que encontra na sua frente ou o pintor que descascara incansavelmente a tinta de portas e paredes. Repetição de gestos dos quais o sujeito que alguma vez os protagonizou, agora está ausente.
Podemos até acreditar que o paciente demenciado perde sua condição de sujeito por causa de um quadro neurológico que afeta a memória, mas também podemos pensar que abandona, por insuportável, sua condição de sujeito. Verdadeira morte simbólica, tentativa de recuperação de um narcisismo primário onipotente e sem limites.

Delia Catullo Goldfarb: Psicanalista. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Doutoranda em Psicologia pela USP. Membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento PUC-SP. Autora de "Corpo, tempo e envelhecimento" (Casa do Psicólogo, 1998, SP). Professora de psicogerontologia do NEPE-PUC-SP. Pertence ao Grupo de Interlocução sobre Psicanálise e envelhecimento
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